Sátira de The White Lotus pinta o privilégio branco como um ciclo sem fim

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Sátira de The White Lotus pinta o privilégio branco como um ciclo sem fim

Comédia da HBO prende atenção com um jogo de variações e repetições

Marcelo Hessel
16.08.2021
13h23
Atualizada em
16.08.2021
14h30
Atualizada em 16.08.2021 às 14h30

Sentada para o jantar no resort, família liberal americana discute culpa burguesa, colonialismo e privilégio branco. Os filhos adolescentes flutuam entre a apatia e a patrulha politicamente correta. Depois de constatar que o mundo é assim mesmo e não dá pra mudar o passado, o pai da família, interpretado por Steve Zahn, resume de forma irônica: “Talvez a gente devesse só se sentir uma merda o tempo inteiro”.

Esse diálogo é central em The White Lotus não apenas porque resume um dos temas centrais da minissérie - sobre turistas americanos que, mesmo em férias num hotel de luxo no Havaí, não deixam de protagonizar dinâmicas de classe - mas resume também seu estado de espírito. A ideia da fixação de uma condição, e sua repetição mecânica, é um elemento que norteia o funcionamento da minissérie e que torna esta sátira mais eficaz.

Porque não dá pra fugir da História, ela está fadada a se repetir como farsa, assim como não é possível escapar da rotina de um resort: todo episódio tem a hora do amanhecer com cânticos polinésios, o café da manhã, o banho de piscina, a arrumação para o jantar, a esticada no bar para fechar a noite. The White Lotus não adere literalmente a uma narrativa tipo Feitiço do Tempo mas o seu Dia da Marmota é visível, e é dele que vem esse sentimento de estagnação social, que assola os personagens e se estende ao espectador.

O roteirista e diretor Mike White é muito bem sucedido em enxergar nessa repetição de dinâmicas do hotel de luxo - onde os funcionários precisam ser invisíveis mas sempre prontos a servir, frisa o gerente Armond (Murray Bartlett) logo na chegada dos hóspedes -  uma metáfora para a falta de transitoriedade no capitalismo tardio. Talvez não seja por acaso, no mais, que navegamos pelo início do novo século e o cinema não para de multiplicar tramas de loop temporal derivadas de Feitiço do Tempo, mais recentemente na comédia Palm Springs, de 2020, e no inédito scifi de ação Boss Level (2021). A crise de perspectiva é geral.

Voltando a The White Lotus, a direção de elenco de Mike White permite que seu controle rigoroso do tom e do ritmo não aliene as possibilidades de empatia do espectador. Por mais ridículos que sejam os ricaços, esse ridículo os torna um pouco mais vulneráveis, e nas atuações de Steve Zahn e de Jennifer Coolidge (no papel de uma solteirona em luto pela mãe morta) a mistura de caricatura e humanidade atinge quase o estado de arte. Que a série tenha sido renovada num formato de antologia (a próxima temporada terá locação e elenco distintos) denota como esses personagens, por mais cativantes que sejam, já se prestaram ao papel que lhes cabia. 

Espera-se que retorne no ano dois, porém, a mesma proposta lúdica de domínio narrativo de Mike White. Porque na sua meia-dúzia de episódios The White Lotus, em essência, poderia se esvaziar de interesse, uma vez que o público sabe que a identidade do morto (que aparece no caixão do primeiro episódio) só será revelada mesmo no episódio final. White compensa esse esquematismo fazendo um exercício bem interessante de modulação de tom - por exemplo, um dos temas musicais evoca comédia de erros no começo e o mesmíssimo tema passa a insinuar um suspense mais tarde, no clímax da subtrama do casal em lua-de-mel. 

De resto, a música tem papel fundamental nesta minissérie, não só porque White modula tom e expectativas a partir dela, mas também a escalada de tensões: a música já vinha trabalhando o suspense fora de cena, e na metade da temporada o suspense se intensifica, com o mesmo som, mas de forma diegética (a apresentação musical dos havaianos fantasiados). Essa brincadeira em The White Lotus - usar em looping o mesmo recurso dramático e narrativo, para fins distintos - é uma das graças de assistir à minissérie, por mais que o privilégio se torne uma piada um pouco mais amarga quando o vemos consumado.

The White Lotus
Em andamento (2021- )
The White Lotus
Em andamento (2021- )

Criado por: Mike White

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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