Dolores em Westworld

Créditos da imagem: Westworld/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Westworld - 3ª temporada

Série segue como uma das melhores da atualidade, apesar de se perder ao desenvolver os próprios conceitos

Camila Sousa
04.05.2020
01h37

Westworld não é uma série comum para ver despreocupado no domingo à noite. Desde seu primeiro ano em 2016, a produção criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan trouxe questionamentos sobre o que é ser humano, o que é realidade e o que é liberdade. Após dois anos de espera, a terceira temporada do seriado continua em um patamar diferenciado de qualidade, mas se perdeu ao tentar passar a mensagem que gostaria.

Uma das grandes expectativas do novo ano era a chegada de Dolores (Evan Rachel Wood) ao mundo real para colocar em prática seu plano de vingança contra os humanos. E já no episódio de estreia houve uma sensação de estranheza. Ver a personagem que à poucos episódios estava cavalgando e atirando em Westworld se preocupando com ações de uma empresa foi um pouco decepcionante. Dolores continuou implacável e todas as cenas de ação são muito boas. Mas durante toda a temporada ficou uma sensação de que algo estava faltando e não é difícil saber o que é.

O maior diferencial de Westworld era a forma de contar sua histórias, muito mais do que a trama emsi. Há várias obras no entretenimento que fazem questionamentos sobre a humanidade e sobre a criação de consciência por robôs. O que faz as duas primeiras temporadas da série algo totalmente único é a ousadia na hora de desafiar o público e não mostrar uma história linear.

Westworld sempre foi alvo de grande teorias ao apostar em mostrar passado, presente e futuro ao mesmo tempo, levando os fãs por um caminho, apenas para depois chegar a outro lugar. O final da terceira temporada tem esta última característica, mas o caminho para chegar até aqui foi bem mais simples. Parece que após uma 2ª temporada de difícil compreensão para muitos fãs e uma linha do tempo totalmente intrincada em si mesma, os produtores pediram por uma história mais “palatável” no terceiro ano. Westworld não deixou sua personalidade totalmente de lado ao fazer isso, mas chegou bem perto.

A maioria dos episódios da terceira temporada, contada de forma mais linear, parece levar para lugar nenhum. Este sentimento é intensificado especialmente nas jornadas de Maeve (Thandie Newton) e Bernard (Jeffrey Wright). Como Dolores repetiu aos quatro ventos, os dois têm um papel importante a desempenhar em seu plano, mas isso só foi revelado no final do último episódio. Antes disso, a jornada de Bernard durante os episódios é vaga e o mesmo acontece com Maeve. Dois dos melhores personagens de Westworld tiveram momentos medianos durante a 3ª temporada e a catarse apenas no final, algo decepcionante.

Conduzir a história de tal forma foi uma escolha que custou muito narrativamente, especialmente para os fãs que chegaram com grandes expectativas para os novos episódios. Não seria mais interessante, por exemplo, manter o mesmo final para os dois, mas mostrar suas histórias de forma diferente, revelando seus futuros e passados em momentos distintos, confundindo e incitando o público? Ao invés disso, Westworld escolheu ser mediana.

O Escolhido

Além da volta de nomes conhecidos e queridos, a nova temporada também trouxe um nome novo: Caleb Nichols, interpretado por Aaron Paul. A volta do astro de Breaking Bad para uma série de sucesso deixou os espectadores com grandes expectativas, que foram mais ou menos atendidas.

Conforme é revelado aos poucos, a vida de Caleb se assemelha muito à dos anfitriões, embora ele seja humano. Ele já tem designado para sua vida o que deve fazer, onde deve trabalhar e qual será o dia de sua morte. Não importa se ele se esforçar para ter um emprego melhor e mudar de vida. Sua narrativa, assim como a de todos os humanos, já está pronta. Neste aspecto, o personagem é um dos mais interessantes do novo ano e os paralelos entre a jornada dele e de Dolores são muito claros e bem colocados.

Pena que em muitos episódios Caleb serve apenas seguir Dolores com um olhar confuso, tentando entender exatamente em que situação se meteu. Ele se destaca em capítulos específicos e tem sim um papel importante nos dois episódios finais, quando a verdade sobre sua vida é revelada, mas não há dúvidas de que ele poderia ter sido melhor aproveitado.

E, no meio de tudo isso, há Dolores, uma personagem complexa, que escondeu seu real plano de todos até o momento certo e encerrou sua jornada com um toque de esperança tocante. Para quem esperava seu lado vingativo, que provou ser capaz de matar pessoas à sangue frio, a versão mostrada no season finale pode ser decepcionante, mas ela condiz com outros pontos mostrados pela personagem durante as outras temporadas. Dolores já foi Wyatt, já teve várias narrativas e vidas, mas aquela em que realmente se identificou foi da jovem inocente que vivia com os pais no Velho Oeste. Em seu cerne, Dolores era alguém com esperança e isso se manteve até o final.

A terceira temporada de Westworld termina agridoce. Com ares de uma temporada de meio, ela teve grandes problemas de desenvolvimento, especialmente de personagens mais queridos. É preciso pontuar o destaque positivo dado a William/Homem de Preto, que continua incrível especialmente pela interpretação de Ed Harris, mas ele foi um dos poucos personagens conhecidos que teve um tempo maior para sua narrativa. Apenas no último episódio, as jornadas de Maeve, Bernard e até Caleb começaram de verdade. É impossível saber qual será o futuro daquele mundo à mercê do caos, mas resta a expectativa que Westworld reencontre sua ousadia na quarta temporada.

Nota do Crítico
Bom