Leia a crítica do especial de West Wing: Nos Bastidores do Poder lançado pelo HBO Max

Créditos da imagem: Divulgação/HBO Max

Séries e TV

Crítica

A West Wing Special to Benefit When We All Vote

Romantismo do especial de The West Wing leva a sério seu principal objetivo: o voto

Henrique Haddefinir
17.10.2020
14h09
Atualizada em
17.10.2020
17h36
Atualizada em 17.10.2020 às 17h36

O impacto do episódio piloto de West Wing: Nos Bastidores do Poder – exibido em 22 de Setembro de 1999 – se visto nos dias de hoje seria ainda mais acachapante. Nos diálogos rápidos de Aaron Sorkin e no realismo da direção, estava embutido um patriotismo quase ingênuo e uma construção que mesmo atraente, soava como uma grande utopia. Os americanos sempre foram fãs de seus presidentes, sempre trataram-nos como astros pop e sempre tiveram por eles uma reverência e adoração inegáveis. Sorkin, ao escrever a série, não disfarçou seu orgulho e o Presidente Bartlet vivido por Martin Sheen foi apresentado ao público quase como um super-heroi.

Dois anos depois, quando o 11 de Setembro aconteceu, o choque de realidade colocou sobre The West Wing um olhar mais cínico. A série sobreviveu realocando discussões que se encontravam com a tragédia sem que ela tivesse acontecido efetivamente naquele universo. Na época, Aaron Sorkin resolveu abordar a questão num episódio especial que não teve desdobramentos no resto da terceira temporada. Mas, estava também ali a principal razão pela qual a série, mesmo ingênua, não parecia uma fantasia desvairada: o texto do criador era afiado e bidimensionava as situações, ainda protegendo o idealismo de seus personagens, mas tentando fazer com que todos os lados fossem ouvidos.

Curiosamente, o episódio que foi escolhido para ser reencenado no especial deste ano também veio da terceira temporada e foi outro exemplo da visão correta, mas romântica de Aaron Sorkin, que se esmerava em mostrar pessoas fazendo política como ela devia ser feita, num mundo real que ia se preparando para uma queda-livre em direção à decadência do sistema. Depois de Donald Trump no poder, um episódio de The West Wing parece ainda mais inverossímil. Porém, ao mesmo tempo, soa ainda mais necessário. É fato que a intenção da reunião dos atores foi um apoio direto à organização não-governamental e não-partidária When We All Vote. Mas, a mínima observação de como funciona aquele fictício staff da Casa Branca revela a constrangedora discrepância com a verdade.

O especial funciona como um reunion, traz de volta quase todo o elenco original (com exceção de John Spencer, que vivia Leo McGarry; e que faleceu quando a série encerrava sua última temporada), mas não apresenta uma nova história e sim uma reencenação do roteiro de “Hartsfield's Landing”, episódio 14 do terceiro ano. A palavra “reencenação” aqui é importantíssima. Sorkin e o diretor Thomas Schlame ocuparam o teatro Orpheu em Los Angeles e montaram o texto como se ele fosse uma peça. A história do episódio foi mantida intacta, mas passou a ser intercalada com interferências de celebridades de dentro e fora do elenco, dando importantes explicações sobre tudo que um americano precisa saber para votar (no país o voto não é obrigatório).

Yes, We Can

A perspectiva de ter a encenação misturada com depoimentos pode parecer burocrática à primeira vista, mas todo o especial foi organizado com sensibilidade e delicadeza. As interferências surgem nos começos e finais de bloco, o que mantém o ritmo dos atos intacto e fluído. Além disso, esses depoimentos são bem humorados, sagazes, capazes até mesmo de fazer piada com esse mesmo romantismo incorrigível do universo da produção. Michelle Obama, Bill Clinton e Samuel L. Jackson participam desses entreatos, mas membros do elenco que não estavam no episódio escolhido também aparecem, como Elizabeth Moss (que vivia a filha do presidente) e Marlee Matlin (que esteve em todas as temporadas da série).

A escolha de “Hartsfield's Landing” como peça de reencenação foi calculadíssima. A trama tem duas partes complementares muito importantes. Na primeira o presidente Bartlet precisa lidar com uma crise em Taiwan, que enfrenta ameaças quando divulga o interesse em fazer sua primeira eleição democrática. Na outra ponta do episódio, os funcionários do Salão Oval aguardam ansiosos pelo resultado da votação na pequena cidade fictícia que dá nome ao episódio e, que, historicamente, mesmo só tendo 43 votantes, sempre acerta o vencedor. O problema é que Josh (Bradley Whitford) descobre que há uma família inteira disposta a votar no rival do presidente, o que faz com que Donna (Janel Moloney) seja escalada para recuperar as intenções.

É um deleite ver como Aaron Sorkin consegue falar sobre o direito ao voto sob uma perspectiva macro (um país inteiro quer ter sua primeira eleição) e uma perspectiva micro (no fim das contas, a família em Hartsfield têm o direito de votar em quem quiser). Entretanto, o brilhantismo do roteiro também está na forma como o presidente se move dentro dele. O episódio privilegia todos os atores principais justamente porque Bartlet tem momentos individuais com cada um, com a desculpa de jogar várias partidas de xadrez, ouvindo, ponderando e acatando, enquanto, lentamente, vai montando a melhor solução para seu conflito maior. É o ideal de presidência em contraste absurdo com o caos que vaza da versão real do cargo.

Com uma direção limpa, poucos elementos cênicos que apenas servem para os atores entrarem, saírem e sentarem; o especial emociona com a bela trilha, com a delicada iluminação e com a nostalgia de ver as deliciosas interações entre Josh e Donna, Charlie (Dulé Hill) e CJ (Allison Janney) e até relembrar a antipatia natural de Toby (Richard Schiff). O comprometimento foi tanto, que mesmo o elenco de coadjuvantes (como os repórteres da sala de imprensa) foi trazido de volta. Para ocupar a posição de John Spencer, Sterling K. Brown foi escalado e mesmo sem ter muito o que mostrar (outro cálculo da escolha do episódio foi que Leo tem uma participação inexpressiva nele), encaixou-se tranquilamente no espírito da produção. Vale lembrar, inclusive, que em 2017 Sorkin chegou a dar entrevistas dizendo que se West Wing fosse reavivada, ele gostaria de ter Sterling como o novo presidente.

Contudo, é difícil pensar na série existindo nesses novos códigos que permeiam as narrativas contemporâneas; e principalmente, se considerarmos o choque que o romantismo “sorkiniano” provocaria nesse esmagador coletivo virtual que dita as regras do que é aceitável ou cancelável nas redes sociais. De certa forma, o especial de West Wing foi uma chance de vermos o respeitado elenco da produção reunido em meio a máscaras e risos, para nos mostrar que a televisão um dia foi quase pueril, mas que nós, agora tão violentados pelos que assumiram o poder, olhamos com esperança para o que pode ser o futuro. Votar é um grande primeiro passo. De fato, sempre foi o mais importante deles.

Nota do Crítico
Excelente!

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