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Crítica

Wayward Pines | Crítica

Os mistérios que levaram M. Night Shyamalan para a TV chegam ao fim e mostram que ainda há boas histórias de suspense para serem contadas

Henrique Haddefinir
29.07.2015, às 14H47

Quando M. Night Shyamalan esteve no Brasil para divulgar a chegada de Wayward Pines à TV, tive a grande oportunidade de entrevista-lo para o Omelete. Na ocasião, a pergunta mais repetida pelos jornalistas presentes era se a série teria uma segunda temporada. Há quem diga que a estratégia da Fox em anunciar Wayward Pines como uma minissérie seria uma forma de se proteger de um fracasso. A razão para isso era simples: programas apoiados em grandes segredos sofreram muito nos últimos anos com o descrédito de público e crítica.

A série conta a história de Ethan Burke (Matt Dillon), que parte numa viagem para descobrir o paradeiro de dois colegas e acaba sofrendo um acidente. Ele acorda na cidade que dá nome à série e começa a perceber logo cedo que há muitos mistérios envolvendo os moradores e a dinâmica estrutural do lugar. É o clássico programa "sobre um segredo", lotado de referências que vão desde Stephen King a Twin Peaks e que sempre foram assumidas com orgulho pelo diretor.

Resistir X Servir

Como toda série-segredo, tudo se estabelece no piloto. Ao chegar na cidade, Ethan reencontra Kate (Carla Gugino), uma de suas colegas desaparecidas, e fica chocado ao descobrir que enquanto para ele o desaparecimento dela só tem uma semana, ela vive uma outra vida em Wayward Pines há mais de dez anos. Além disso, nada de telefonemas, nada de internet, ninguém é claro ao responder perguntas e estranhas regras regem o lugar, como "nunca fale do passado" ou "sempre atenda o telefone".

Quando fica estabelecido que os personagens não são da cidade e sim chegam à cidade, começa a ficar claro que nenhum deles quer permanecer ali. Todos foram tirados de suas vidas anteriores sem explicações e colocados ali dentro com regras específicas: não falem do passado, não tentem fugir e vivam normalmente. A punição pela desobediência é a morte, clara e simples. Porém, por mais sedutora que seja a ideia de poder recomeçar uma existência do zero, quando forçados a isso, os personagens sentem o impulso natural de lutar pela ideia de liberdade. Isso estabelece uma dinâmica para a dramaturgia: os que conhecem o segredo são os vilões e os que querem fugir a qualquer preço são os mocinhos. Ao menos é isso que se pressupõe circunstancialmente.

A partir desse ponto, tudo se transforma numa briga de Ethan para ter respostas e nossa para desvendar o segredo. Mesmo nos quatro episódios em que passamos sem ter muita noção do que estava acontecendo, Wayward Pines já dava seus sinais de que não tinha interesse algum em ser oportunista. É complicado seguir adiante com uma análise da série sem falar um pouco sobre o que esse segredo trouxe de complexo para a narrativa. Sendo assim, se você não quer nenhum tipo de spoiler, pule direto para o último tópico (mas volte aqui assim que terminar de assistir).

Natureza X Humanismo

[Cuidado, possíveis spoilers abaixo!]

Imagine que agora, em 2015, uma vertente pouco popular da ciência conseguisse provar que o ser humano passaria por uma grande evolução natural que nos levaria para um estado de irracionalidade e instinto. É necessário lembrar que evoluções naturais precisam de milênios para acontecer em plenitude. É aí que entra o Dr. David Pilcher (Toby Jones), primeiro cientista que percebe o caminho da humanidade para essa mutação que nos transformará em animais sem sentimentos e emoções.

A força da série aparece quando, após a revelação do segredo, o protagonista descobre que ninguém pode ser culpado por querer voltar para a própria história, simplesmente porque não sabem que não há para o que voltar. Ao mesmo tempo, os segredos por trás da cidade não querem nada além de uma preservação do que se conhece como "identidade humana". O segredo se mostra necessário porque os moradores não conseguem lidar com a verdade, mas ao mesmo tempo insistem e se matam por ela se não são capazes de tê-la. O ciclo é daqueles brilhantes, sem culpados e sem inocentes, incapaz de ser interrompido simplesmente porque ao buscar a "preservação da humanidade", também está sendo preservado o grande impulso do apego ao passado. Que incrível é quando percebemos que o mistério está ligado ao desejo de preservar a lembrança da humanidade, forçando os moradores a abrir mão de todas as memórias que os fizeram humanos.

Série X Livro

Em toda série-segredo sabe-se que prevalece a ideia do "tanto mistério pra isso?". Com Wayward Pines não foi diferente e houve quem reclamasse do que foi revelado. Vale lembrar que Blake Crouch¸ autor do livro que deu origem à série, esteve envolvido em todo o processo de adaptação e criou ele mesmo várias das mudanças em relação ao material original. Apesar do preciosismo natural da maioria dos leitores, a busca por detalhes novos acerca daquele universo não prejudicou de maneira alguma a dramaturgia essencial do programa.

Matt Dillon segurou muito bem o papel de "herói" e Carla Gugino, que viveu sua colega, conseguiu dosar ambiguidade e inocência. Esse elenco teve ótimas oportunidades de trabalhar o desdobramento de intenções, ora parecendo amedrontados, ora parecendo estranhos, sendo afetados pelo conhecimento da verdade ou pelo medo de buscar e conhece-la. Além disso, nomes de peso como de Juliette Lewis e Terrence Howard foram escalados para papeis que não costumam ser atribuídos a atores renomados, o que confundiu ainda mais a audiência.

Apesar do episódio final apressado ter prejudicado um pouco a despedida, Wayward Pines conseguiu encerrar sua trajetória com segurança e bom planejamento. Foram dez episódios ágeis, espertos, dignamente dirigidos e escritos. O segredo era relevante, realmente inesperado e ofereceu muitas possibilidades interessantes nos cinco episódios que o sucederam. Enquanto produto fechado, a série produzida por Shyamalan começou do jeito certo: decidida a acontecer, viver plenamente e ter, sem sombra de dúvidas, a responsabilidade inevitável do fim.

Nota do Crítico
Ótimo

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