Wanderlust - 1ª Temporada

Créditos da imagem: BBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Wanderlust - 1ª Temporada

Toni Collette estrela e segura sozinha a série da BBC que deveria abordar reflexos do casamento aberto

Henrique Haddefinir
01.01.2019
12h01
Atualizada em
01.01.2019
12h16
Atualizada em 01.01.2019 às 12h16

Nick Payne, criador de Wanderlust, disse em uma entrevista que não se lembrava mais de como tinha surgido a ideia para a história, mas que ela tinha começado a surgir como uma peça de teatro. A declaração ajuda a construir um sentido para o que acabou sendo a adaptação para a série da BBCWanderlust funciona muito bem como uma dramaturgia teatralizada, intensamente verborrágica, em que os elementos visuais ou mesmo factuais, ficam em segundo plano. O centro criativo da trama é bastante limitado, sendo o texto, enfim, a estrela do show. A série é muito mais sobre o que se diz do que sobre o que se faz, o que, infelizmente, entra em conflito com o que ela vende para a audiência. Wanderlust não é sobre casamento aberto, é sobre um casamento em ruínas.

Wanderlust demonstra questionabilidade já em sua premissa. Propagada como uma dramaturgia não-convencional, ousada, que deveria estudar a “atividade” de forma direta e honesta, a série fica devendo – e muito – em pautar essas questões. Joy (Toni Collete) e Alan (Steven Mackintosh) são um casal maduro, com uma vida sexual fria, que usa a ideia de “relacionamento aberto” como um escape para seus próprios pesares. Além disso, efetivamente, há muito pouco de “relação aberta” no que eles chamam de “relação aberta”. Ambos fogem para colos familiares, transformando as coisas muito mais em crise de meia idade (no caso dele) e resgate de um passado compensatório (no caso dela).

Wanderlust começa quando a terapeuta Joy percebe-se recuperada de um acidente enquanto andava de bicicleta. O acidente tem raízes emocionais que são ignoradas inicialmente, aliás, como com quase tudo na história. Estamos falando de um casal formado por uma terapeuta e um professor de língua inglesa. Ambos são guiados pelo verbo e também pelo excesso de análise, o que resulta em muito para dizer sobre o que não quer ser dito. Então, Joy segue instintivamente, sinalizando seu incômodo com o casamento e propondo ao marido que tentem ter uma relação aberta, para buscarem, com isso, reacender o desejo.

Muito pouca coisa acontece durante os seis episódios que formam a temporada. Joy é mais honesta na disposição para experimentar novas coisas, mas acaba presa em elementos do passado. Já Alan vive o apogeu da recorrência de autoafirmação masculina que ronda a meia idade. Ele está envolvido com uma colega de trabalho mais jovem e a liberação para estar com outras pessoas é só um passaporte para que ele não se sinta traindo. Assim, não há nenhum estabelecimento prático para a tal da relação aberta, tirando algumas poucas cenas com Joy tendo encontros logo quando a decisão é tomada. O que de mais característico existe acerca da questão é o momento em que os pais comunicam aos filhos que estão vendo outras pessoas.

Na maioria do tempo, a dramaturgia é preguiçosa. Joy e Alan tem três filhos e os tramas que os envolvem são superficiais e morosos. Para uma série que se pretende provocativa, ter um adolescente que está descobrindo que ama a melhor amiga não é lá a coisa mais original que estava sendo esperada, mesmo que ele sirva ali como um paralelo para o passado dos pais. Até mesmo quando o casal vira o centro da ação, é apenas para confirmar a previsibilidade das coisas: é absolutamente possível saber para onde a narrativa vai. Tudo começa para voltar ao começo, literalmente. É claro que a produção ganha principalmente por retratar o desejo feminino de forma tão pouco comum na televisão, mas Wanderlust não vai convencer muitos espectadores a permanecerem ligados até o final.

Está, enfim, em Toni Collette a grande força da série. No episódio todo centrado na sessão dela com a própria terapeuta, Collette demonstra uma imensidão tão grande de talento que acaba justificando qualquer coisa. Joy é construída com sensibilidade e, sobretudo, com franqueza. O texto fica cavando reflexos traumáticos em tudo, o que pode ser cansativo depois de algum tempo. Mesmo assim, Collette brilha dando doses cavalares de humanidade a qualquer frase que passe por sua boca. Lá pela metade da temporada a questão dos relacionamentos abertos perambula (mesmo que ainda possa ser retomada no futuro) em meio a investimentos herméticos monótonos. Cenas longas sobre nada são comuns. Mas, que apoiadas em uma linda estética, querem nos convencer que significam alguma coisa. A série poderia ser o elo perdido das produções sobre casamentos abertos, mas o grande desejo de viajar a que se refere o título esmorece e entrega pouco, muito pouco.

Wanderlust é bem escrita, bem atuada, bem dirigida e elegante. Ela só não é sobre o que diz ser.

Nota do Crítico
Bom