Cena de Vai Anitta/ Reprodução/ Netflix

Créditos da imagem: Cena de Vai Anitta/ Reprodução/ Netflix

Séries e TV

Crítica

Vai Anitta - 1ª temporada

Vai Anitta é uma versão estendida do Arquivo Confidencial; documentário sobre a cantora é, na verdade, para ela

Rafael Gonzaga
19.11.2018
20h00
Atualizada em
19.11.2018
20h41
Atualizada em 19.11.2018 às 20h41

De Honório Gurgel para o mundo: Vai Anitta, o documentário da Netflix produzido pela própria cantora-título é quase a cereja no bolo daquela que é, inegavelmente, o nome mais relevante na música brasileira hoje. A espinha dorsal do programa de seis episódios é o projeto CheckMate, quando Anitta lançou quatro singles com clipe no intervalo de quatro meses em uma investida violenta rumo ao mercado internacional. No programa, a cantora é registrada o tempo todo como o agente de mudança na vida de quem, por sorte, orbita a sua volta - desde a cantora Jojo Maronttinni até o maquiador Renner Souza - e, ao longo da atração, há inúmeros relatos positivos sobre a cantora de nomes como Poo Bear, J Balvin, Rita Ora, Alesso. Mas falta algo: um pouco mais de Anitta, sem texto pronto, por ela mesma.

A linha narrativa de Vai Anitta é simples: apresenta um pouco das origens da cantora e, após uma breve introdução do sucesso nacional da jovem, parte para seus voos internacionais. Vai Anitta é um registro do triunfo da brasileira nessa empreitada e exibe com orgulho - merecido - os números alcançados na missão. Depois que explora toda a fase do CheckMate, contudo, o documentário fica um pouco desorientado, até que retorna a Honório Gurgel e encerra mostrando que a Anitta do mundo ainda conserva dentro de si a Larissa da periferia carioca. No meio disso tudo, há muitos recados dados e momentos escolhidos a dedo para entregar ao público, da forma mais afinada até então, como Anitta quer ser vista e entendida por quem consome não só sua música, mas tudo aquilo em que ela toca.

Anitta usa o documentário para, indiretamente, responder algumas das críticas mais ácidas que sofreu até o momento em que ele foi gravado. A cantora tenta mostrar o ponto de vista dela e, com isso, contrabalancear situações cujas equações, anteriormente, contavam apenas com a opinião de fãs decepcionados, da mídia ou da crítica. Em alguns desses casos, como, por exemplo, quando ela fala sobre o episódio em que chamou um fã de “pobre” de forma pejorativa, Anitta se sai bem: reforçando a - várias vezes destacada ao longo da produção - imagem de pessoa que tem como um dos dons a humildade, a cantora assume o erro e diz que o episódio serviu para que ela evoluísse como ser humano.

Em outros momentos, contudo, como quando ela deixa claro que a culpa pelos figurinos duvidosos de “It’s That For Me” não foi dela ou quando conta uma história escatológica para justificar não ter atendido algumas dezenas de fãs que a aguardavam para fotos, o documentário falha ao forçar uma espontaneidade pouco sincera. Se Vai Anitta discretamente diz que as notícias sobre a cantora não podem ser tratadas como verdades absolutas - e, de fato, não são -, a consequência disso é que a versão que ela própria apresenta para os fatos também não é. Um lado é tendencioso, o outro, conveniente; a verdade - objeto primário de documentários - fica perdida entre uma coisa e a outra e Vai Anitta soa como uma peça publicitária.

Em função disso, é claro que há lacunas óbvias em uma obra que se propõe a analisar a ascensão de Anitta. "Switch", colaboração com a rapper australiana Iggy Azalea e seu primeiro single em inglês não é nem mencionado; assim como o sucesso estrondoso de “Sua Cara”, parceria da cantora com Pabllo Vittar e Major Lazer não é abordado, apesar de ter quebrado, na época, diversos recordes como o de vídeo latino com mais visualizações em um dia no YouTube. Quem acompanha a carreira de Anitta certamente não passou incólume aos boatos sobre a cantora ter enfrentado problemas tanto com Vittar quanto com Azalea. A ausência de ambas é um reflexo de como a carreira da cantora é filtrada no documentário; todas as supostas polêmicas que exibidas ali são em função de redimir e coroar Anitta, dando a ela um espaço seguro para réplica, mas sem tréplica.

Não há dúvidas de que Anitta é uma menina doce e, simultaneamente, uma mulher forte, mas qualquer coisa que vá além disso é nebulosa e não vai ser o documentário produzido por ela que vai revelar as nuances que a fazem realmente humana. Vai Anitta é uma enxurrada de depoimentos positivos sobre como a cantora é humilde, esforçada, batalhadora, focada em seus objetivos - em dado momento, soa como o famoso quadro “Arquivo Confidencial”, do programa Domingão do Faustão, onde artistas ficam ouvindo pessoas importantes de suas vidas fazendo declarações de afeto e carinho. Para Anitta, deve ter sido incrível assistir horas a fio de rasgação de seda, mas, para o público, acaba valendo a pena só pelos momentos descontraídos - no mais, faltou ir além na medida que Anitta diz o tempo todo se propor.

Nota do Crítico
Regular