Séries e TV

Crítica

Unreal - 4ª temporada

Em seu ano final, uma das séries mais obscuras da TV termina por ser incapaz de vencer os próprios vícios

Henrique Haddefinir
23.07.2018
12h57
Atualizada em
24.07.2018
11h28
Atualizada em 24.07.2018 às 11h28

Assim que UnReal chegou à TV, anos atrás, logo tornou-se uma obra cult de sátira ao terrível mundo dos reality shows. Todos tinham interesse no programa justamente porque a curiosidade acerca desse tipo de produção sempre foi imensa. E sempre teve uma motivação maior: desvendar as teorias de conspiração. De quebra, a criadora Sarah Gertrude Shapiro ainda fazia colocações feministas importantes, já que o Everlasting – programa fictício dentro da série – seguia os moldes do eternizado The Bachelor, onde ela, a criadora, tinha trabalhado. Durante sua primeira temporada, a série tinha a seu favor a exploração desses códigos e com tanto a dizer, de formas tão frescas, conseguiu a atenção da mídia e de algumas principais premiações.

Hulu/Divulgação

Em tempos onde a representação feminista ganhou novas abordagens, não demorou para que os métodos de UnReal soassem frouxos. Não demorou também, para que sua dramaturgia demonstrasse a incapacidade de sair das próprias armadilhas e ficasse engessada. O segundo ano da série foi terrível e um grande hiato seguiu-se ao que seria a terceira temporada, melhor calculada ao menos dentro do que a série tinha de mais apelativo: os bastidores do Everlasting. Sarah Gertrude criou um universo interessante do ponto de vista pop, mas fez de suas protagonistas dois modelos cristalizados e questionáveis do que significa empoderamento. Sobretudo porque, quanto mais reforçam seus direitos de escolha, mais elas perpetuam a misoginia. Quando Rachel (Shiri Appleby) e Quinn (Constante Zimmer) tem epifanias de poder, também se tornam mais cruéis e mordazes que nunca.

No meio disso tudo, salvam-se alguns momentos de equilíbrio. A terceira temporada terminou concisa, foi preparada para ser a última e colocou os personagens no lugar onde deveriam estar: Quinnfeliz com Chet e Rachel desistindo daquele ambiente tóxico. Quando viram que o quarto ano ia acontecer, os roteiristas são se fizeram de rogados e trouxeram os personagens de volta na mesma energia que eles teriam se aquele final nunca tivesse acontecido: a mesma de sempre. A quarta temporada de UnReal até parece querer contar uma história diferente, mas quanto mais os episódios transcorrem, mais viciada de si mesma ela soa.

All Stars

Há três grandes movimentos dramatúrgicos que traçam essa temporada. O principal é a suposta mudança de atitude de Rachel, que chega ao set decidida a esquecer suas culpas feministas e morais. Ela quer sangue. Isso, em comparação com a mulher que encerrou o ano três, não tem o menor sentido. Não há nenhum acontecimento intermediário que nos explique a mudança. Sabemos, também, que isso não será duradouro. Rachelsegue com seus mesmos hábitos e a personagem não demora a jogar com a culpa, a se "arrepender", a pedir novas chances... Ver isso acontecer uma ou duas vezes é natural, mas ver pela quarta vez já é insuportável. Construída para ser complexa, ela fica rasteira, superficial e enfadonha.

Quinn sai da experiência do quarto ano um pouco melhor. Sua gravidez é o segundo ponto importante desse ano, mas enquanto especiais de humor do Netflixestão colocando um olhar especial sobre feminismo, UnReal ainda está problematizando se mulheres apaixonadas por suas carreiras devem ter filhos. Quinnleva a máxima do "meu corpo, minhas escolhas" até seu apogeu e dissimula para que a parcela de Chetna equação seja nula. Ao mesmo tempo, o roteiro constrói um season finale que exemplifica o quanto a personagem tem instintos de proteção apurados. Ela nega a maternidade do ponto de vista literal, mas é descrita pela série como a "progenitora" feroz de sua pupila. Indecisa, UnReal derrapa e se contradiz dez vezes por episódio.

A outra grande proposta do último ano é a edição All Stars do Everlasting, que para os fás saiu menos All Stars do que se esperaria. Além da falta de mais rostos emblemáticos, a grande estrela foi Candi Coco (Natalie Hall), uma stripper sagaz e cheia de auto-estima que servia para manter a série na trilha de seu papel sócio-político, ao passo em que ainda fazia isso respeitando métodos narrativos empoeirados. Candiainda é a melhor coisa da versão All Stars, mas os desafios, as participantes e a crueldade de Rachelpor várias vezes não pareciam mais satirizar a obscuridade e sim reiterá-las. Não adiantava mostrar Rachelvomitando no banheiro após perceber que tinha desmoralizado uma participante depois de um hediondo caso de estupro. Logo ela voltava a correr atrás do próprio rabo.

Se o que arruinou a segunda temporada do show foram os exageros conspiratórios dos bastidores do Everlasting, aqui na última eles continuam em pauta. Por muitas vezes era possível até mesmo se perguntar se UnReal não tinha perdido de vista o amadurecimento do gênero e se transformado num daqueles loucos de porão que acham que tudo é armação e ilusão na TV. Sem o mínimo compromisso com a verossimilhança, a temporada apresentou um festival de exageros e intervenções estúpidas que deixariam qualquer edição de Real Housewives com vergonha. Isso sem falar na sabotagem aos personagens de Jeffrey Bowyer-Chapman (Jay) e Genevieve Buchner (Madison), que foram completos fantasmas sem vida nesse último ciclo.

Cheio de senso de espetáculo, o encerramentonão te deixa dormir, mas termina soando patético. Há uma boa cena em que Quinndesmascara as incoerências de Rachel, mas a capacidade de panorama do texto termina por aí. As protagonistas terminam nos braços uma da outra, como mãe e filha, donas de um império de perpetuação do erro, quietinhas em suas zonas de conforto, enquanto UnReal, o habitat que deveria ser provocativo e sátiro, se despede sem quase nenhuma das sagacidades que tivera um dia.

É um fim triste, melancólico e equivocado, o que é uma pena. Poucas vezes um produto da teledramaturgia mundial teve tanto potencial para oferecer.

Nota do Crítico
Regular