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Crítica

Under the Dome - 1ª Temporada | Crítica

Nova adaptação de Stephen King para a TV se revela o maior sucesso da temporada, mas peca ao fugir de sua origem

Henrique Haddefinir
04.11.2013, às 16H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H47
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H47

Não seria precipitação dizer que Stephen King é o autor mais adaptado da cultura literária estadunidense. E isso tem razões muito fundamentais: King apoiou sua carreira no universo sobrenatural, tratando do ser humano como agente responsável pelas próprias desgraças diante de algo incompreensível, imponderável. Mais do que um mestre do suspense, ele se tornou especialista em isolar seus personagens para tirar o pior deles. As sobrenaturalidades de King sempre foram apenas fundos sensacionalistas para sua verdadeira intenção: analisar o homem selvagem, intuitivo.

Infelizmente, muitos de seus adaptadores não enxergam dessa maneira e se focam no mistério, no apelo visual, na criatura que espreita. Embora tudo com King seja sobre o antes e depois do susto, os realizadores das adaptações preferem transformar a obra do escritor em trash movie e se esquecem daquilo que King faz melhor: isolar pessoas e destruí-las de dentro pra fora.

Under the Dome começa em mais um dia na pacata cidade de Chester's Mill, no Maine (sempre o Maine). Tudo parece tranquilo, algumas pessoas vão e vêm completamente inconscientes dos segredos e problemas internos da cidade. Mas é normal, em toda cidade é assim. Então tudo muda quando uma parede invisível e indestrutível cerca toda a cidade e a isola. De súbito, o mundo se volta na direção daquele lugar que não sabe porque aquilo aconteceu e nem quando (e se) vai acabar.

O Lado de Dentro

Produzida pela CBS, Under the Dome já tinha passado por outros canais e foi rejeitada. Seu potencial dramatúrgico era imenso, mas sua criação era complicada para se transformar numa série de TV. Assim que confirmou o projeto, a CBS se apressou em dar informações vagas sobre o futuro do programa. Minissérie ou série, uma nomenclatura essencial para distinguir os planos dessa adaptação.

O episódio piloto alcançou números consideráveis de audiência e entregou uma trama promissora, entrecortada por efeitos especiais até bem dignos para os padrões da emissora. Quando acontece o que fica conhecido como "Dia da Redoma", Chester's Mill está configurada de uma maneira bem específica. A redoma aprisiona os moradores que, por conta dela, são obrigados a desviar as próprias jornadas. Sobreviver é mais importante que tudo agora.

Na sinopse parece quase impossível de errar mas os problemas de Under the Dome começaram a aparecer logo nas primeiras semanas, desagradando fãs do livro por se distanciarem dele e fãs que não tinham lido o livro mas esperavam algo mais complexo e não tão cartunizado.

Under the Dome S01E01 Pilot 14

A história se apoiou em três personagens convergentes. Barbie (Mike Vogel) é um forasteiro que está em Chester's Mill para cobrar uma dívida. Ele acaba deixando a situação sair de controle e termina preso do lado de dentro, com todos meio desconfiados dele. Ele conhece a garçonete Angie (Britt Robertson), que tem uma relação complexa com o namorado e que piora com a chegada de Barbie. No centro de tudo, a autoridade maior da cidade, o cínico Big Jim Reinie (Dean Norris, na única atuação razoável do elenco), que usa de seu poder de manipulação para controlar o território e se aproveita da chegada da redoma para burlar regras que o mundo exterior fiscaliza.

Num primeiro momento, parece que a série vai se focar nessas relações, mantendo a redoma como um pano de fundo que imobiliza os moradores. As tensões entre Jim, Angie, Barbie e Junior (Alexander Koch), se distribuem até a metade da temporada, quando a redoma ganha o foco principal e tudo passa a ser sobre o porquê dela estar ali.

A partir desse ponto, a série ganha uma estética de filme de super-herói, com segredos que envolvem jovens escolhidos, gambiarras sobrenaturais para justificar outras coisas e uma redoma voluntariosa, com planos específicos e vontade própria. As relações entre os personagens já não são tão importantes e a cidade como instituição é esquecida. Embora o fenômeno atinja muitos, os episódios são minimalistas e se privam de piorar a situação do povo, focando-se em explorar esses segredos encomendados para garantir a longevidade do show.

O Lado de Fora
(Cuidado, possíveis spoilers do livro abaixo!)

Embora falar sobre os produtos originais de uma adaptação seja sempre arriscado, no caso de Under the Dome isso é inevitável, já que além da nomenclatura série/minissérie interferir no julgamento das coisas, a garantia de futuro para o programa também interfere no processo criativo, algo que, em se tratando dessa trama, é profundamente discutível. Ao eleger-se uma série, novas temporadas são providenciadas e necessárias. Mas ao pensarmos na estrutura de Under the Dome, algumas perguntas são inevitáveis.

Under the Dome S01E01 Pilot 01

Stephen King tentou escrever esse livro ainda na década de 1970, mas não conseguia resolver problemas entre a existência da redoma e seus efeitos climáticos. Agora, com a ajuda de consultores, ele encontrou o caminho certo e tomou decisões muito específicas sobre como a cidade sofreria as consequências desse fenômeno. Tanto na série quanto no livro, a redoma é intransponível e tem altura muito bem definida. Porém, enquanto no livro o bloqueio do ar provoca um super aquecimento, na série continua ventando, o lago não é atingido e até chove. Toda a ação do livro por conta de todas essas consequências dura apenas uma semana. Na série, um mês se passa e a cidade não sofre nenhum baque climático.

Existem outras discrepâncias, mas que não convém discutir. Essa, do clima, entretanto, mexe demais com a dinâmica e a verossimilhança das coisas. Ao decidir ter uma nova temporada, os responsáveis pela série manipularam o conceito de onde veio a história, de modo a facilitar esse processo de extensão. Tudo que representasse precisar lidar com a tensão inevitável acerca da redoma foi suplantado. Ela ganhou vontades, poderes, artefatos e, no meio desse processo, o espectador se esquece de perguntar: mas espera aí, como ainda venta nessa cidade? Porque o mundo do lado de fora não está em volta dali, massivamente curioso? A resposta é simples: precisamos do futuro e não temos grana para nada em escala global.

É claro que uma adaptação tem todo o direito de caminhar para onde quiser e, em perspectiva, muitos ficaram satisfeitos com os rumos que ela tomou. No final das contas, ter lido o livro influencia sim na forma como a série é vista, ainda que muitos espectadores "virgens" tenham se aborrecido com esse "fator Heroes" já mencionado anteriormente. Ao lutar por um segundo ano, Under the Dome abandonou completamente o produto original, buscou saídas fantásticas para desviar o foco e virou um drama sobrenatural, quando de fato o setor mais rico ali era o psicológico.

Nota do Crítico
Bom

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