Unbreakable Kimmy Schmidt - 4ª Temporada

Créditos da imagem: Unbreakable Kimmy Schmidt/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Unbreakable Kimmy Schmidt - 4ª Temporada

Com cada vez mais dificuldade para manter o otimismo, Kimmy Schmidt apresenta seus episódios finais

Henrique Haddefinir
02.02.2019
10h46

Qualquer desavisado que se disponha a assistir Unbreakable Kimmy Schmidt fora de seu contexto pode se deparar com peças soltas demais de um quebra-cabeça que é quase impossível montar. Comédias são, por definição, produtos de absorção imediata, mas a série da Netflix pode ser complicada de ser digerida em muitas instâncias: seu descolamento da realidade é severo para alguns gostos. Concebida por Tina Fey e Robert Carlock para ser uma alegoria constante, o programa ainda é como qualquer comédia que se baseia no ridículo, mas o faz com permissões absurdas, irreais, que inesperadamente compõem um cenário que muitas vezes choca por estar desconfortavelmente ligado à verdade.

Apesar de seu ritmo alucinado e das piadas que muitas vezes são tão extremas que não conseguem causar riso nenhum, existe uma trama muito triste por trás de tudo isso. Kimmy (Ellie Kemper) foi sequestrada por um reverendo tarado que manteve ela e outras mulheres num bunker por mais de quinze anos. Qualquer pessoa que tivesse passado por tamanha privação e por tantos traumas de ordem sexual e psicológica, sairia da experiência com vontade de culpar o mundo por todo esse desespero. Kimmy, no entanto, ainda sorri, ainda quer sorver a vida, ainda tem um espírito otimista e – como diz o título – inquebrável. Essa sempre foi a grande sacada da série, a grande ideia que fez com que a produção fosse tão aclamada. Seria, então, cômica a ideia do otimismo como centro motor da vida de alguém? Ainda que esse alguém tivesse sido tão vilipendiado?

Os criadores brincam com a ideia dentro da própria gênese do seriado: é claro que a resposta seria não e exatamente por isso que o mundo de Kimmy é sempre tão tomado de realidades distorcidas. Ela vive a experiência pós-bunker intensamente, cercada de gente tão delusional quanto ela, mas por mais que os episódios sejam escritos dentro dessa membrana tão categórica de surrealismo, o objetivo é fazer vazar vislumbres de realidade bruta entre uma piada maluca e outra. A protagonista segue sua trilha de otimismo absoluto, no meio de toda aquela insanidade, mas vão ficando pelo caminho pitadas de provocação sócio-política-cultural que são tão mordazes quanto em qualquer comédia mais "séria". Durante todos esses quatro anos a história central de Kimmy parecia não ser o ponto mais importante, mas quando chegamos a sua última temporada, percebemos que sua origem e seu presente formam uma parte essencial do legado que a série quer deixar após partir.

Unbreakable

Desde o primeiro minuto em que saiu do bunker, tudo que Kimmy quis foi descobrir como se ajustar no mundo que ela não viu evoluir. Para isso, ela tenta tudo: um monte de trabalhos e praticamente uma epifania por capítulo. No curso desses quatro anos, não é incomum ver Ellie Kemper dando o melhor de sua expressão "eureka" a cada vez que Kimmy tinha uma grande ideia sobre como salvar um amigo ou procurar uma nova possibilidade. Na quarta temporada, então, a missão dos criadores é tentar fazer a personagem encontrar essa linha de chegada, essa paixão que a movesse pelos caminhos certos, dando-lhe a sensação de ajuste que faltava e conseguindo com isso, também, reajustar a vida dos amigos.

É bom ver que o plot do livro que Kimmy escreve não é abandonado, porque faz muito sentido que, em seu modo otimista de ver o mundo, houvesse espaço para cobrir de lúdico suas experiências. Mais uma vez ela faz de tudo para fantasiar com sua dura realidade, o que é coerente com a personagem e também justo e poético. Ainda que essa seja uma série louca (com uma das melhores musiquinhas de abertura da história) e que em nada se leva a sério, na hora de encerrar a trajetória, era preciso pensar em quais seriam os caminhos minimamente coesos para cada um deles - sobretudo para Kimmy.

Na primeira parte da temporada (que foi dividida em duas), o que o quarto ano apresenta é um cenário de opressão para a pobre Kimmy, que se vê desacreditada e perseguida. Do seu jeito, a série aproveita o ensejo das denúncias de abuso e assédio; e prepara uma trama que mostra a posição vitimizada de Kimmy sendo colocada em dúvida, e toda e qualquer piada com as declarações machistas tanto de celebridades quanto de um senso-comum-anônimo são agudas, certeiras, afiadas. Até mesmo o genial episódio especial que satiriza documentários como Making a Murderer tem um objetivo: mostrar como as vítimas sempre são culpadas e os criminosos viram estrelas de TV ou recebem centenas de cartas românticas enquanto estão na prisão. A série ataca todos os lados, não fica faltando nenhum.

Já na segunda parte eles precisam arrumar a casa para as despedidas inevitáveis. Como sempre, Lilian (Carol Kane) e Jacqueline (Jane Krakowski) tem plots mais quebradiços, embora ainda sejam maravilhosas. Os roteiros precisaram mesmo resolver a vida de Titus (Titus Burgess), um personagem que se tornou tão grande quanto a própria Kimmy, o que se refletiu na maneira como os dois praticamente conduzem todas as reviravoltas finais. Essa segunda parte dos episódios brinca de "como seria se Kimmy não tivesse sido sequestrada", reaviva os sonhos de Titus de estrelar O Rei Leão e coloca Kimmy diante da encruzilhada derradeira: encontrar sua paixão, continuar tirando algo de bom de tudo que ela passou de ruim. De certa forma, os roteiros oferecem para a personagem uma perspectiva conformada e gentil: "Eu preciso acreditar que tudo que vivi precisava acontecer para que eu tivesse chegado até aqui. Esse era o destino. Preciso acreditar nisso, ou ficaria maluca".

Então, toda a loucura dá lugar a uma certa "doce tristeza", quando fica claro que as coisas estão se arrumando para chegar ao fim. Participações especiais, personagens antigos reaparecendo, cenas emocionais quebrando o senso de ironia constante dos roteiros. Unbreakable Kimmy Schmidt passa por um último ano tão cheio de coisas ruins para satirizar que, em muitos momentos, tudo parecia mesmo "quebrável". A sensação de "cansaço" que a série provoca ocasionalmente talvez também seja resultado de todos esses ponderamentos. Quando Kimmy recorre à arte para lidar derradeiramente com sua tragédia, os criadores estão nos dando a resposta final: existem algumas maneiras de enfrentar as mazelas do mundo e aqui está a mais louca e mais contagiante. Todos temos muito a aprender com Kimmy, por mais incrível que isso pareça.

Nota do Crítico
Ótimo