Meritt Wever e Toni Colette em Unbelievable, da Netflix

Créditos da imagem: Unbelievable/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Inacreditável

Minissérie policial da Netflix combina perspectiva de vítima de abuso sexual e das investigadoras do crime para criar retrato fiel do descaso e ineficiência do sistema

Arthur Eloi
20.09.2019
19h13

[Aviso: assim como a série, o texto abaixo cita e discute violência sexual]

A indústria de entretenimento tem um grande fascínio por crime desde sua concepção mas, recentemente, foi tomada for uma verdadeira febre de contos baseados em ocorrências reais, o subgênero do suspense chamado de True Crime. Essa obsessão não é de todo estranha: afinal, entender o pior de nossa espécie nos ajuda a ser melhores.

Nada exemplifica isso melhor do que Inacreditável, minissérie da Netflix que adapta o premiado artigo da ProPublica sobre um caso de abuso sexual ignorado pela polícia na época, mas que servia como ponto-chave para capturar um agressor em série. Assim como a reportagem, o programa é dividido em duas partes. A primeira delas se passa em uma cidade de Washington, no ano de 2008, e acompanha Marie Adler (Kaitlyn Dever), sobrevivente que é desacreditada pela polícia de seu estado, marcando sua vida para sempre. Já a segunda acontece em 2011, no Colorado, e mostra duas investigadoras na cola de um abusador em série.

Arcos diferentes trazem abordagens diferentes, e o de Marie é particularmente impactante. Os argumentos do seriado não são inéditos, com sobreviventes e ativistas há décadas alertando sobre os perigos de contestar e pressionar as vítimas em um momento tão sensível e traumático. Por isso, a produção opta pela imersão ao despertar no espectador a fragilidade e desespero causados pela forma com que o despreparado sistema policial e jurídico trata as pessoas que sofrem esses crimes. Isso acontece logo no piloto, quando a garota é forçada a recontar sua experiência inúmeras vezes, para diferentes agentes da lei - cada vez mais hostis, céticos e menos inclinados a oferecer apoio. Daí em diante as coisas só pioram para Marie, e vê-la perdendo amigos, família e oportunidades em função de ter sido publicamente marcada pelo trauma é de embrulhar o estômago. Inacreditável sabe como chocar seu público sem nunca se render ao sensacionalismo, violência explícita ou desrespeitar seu objeto de estudo.

Já o outro arco funciona mais como uma série policial, acompanhando as detetives Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette) juntando forças ao verem conexão entre casos recentes de abuso sexual. Esse lado se conduz de forma mais tradicional e argumentativa do que prática, mas é igualmente forte. Muito disso se dá pela excelente dinâmica entre as duas, com Duvall sendo mais reservada e calculista, enquanto Rasmussen fala o que pensa. O roteiro se saí muito bem aqui ao não só acertar na parceria das duas, como também criar bastante tensão na caçada ao abusador serial.

As atuações são um dos pontos mais fortes da obra. Kaitlyn Dever, que continua sua ascensão após o enorme sucesso de Fora de Série (2019), se entrega de corpo e alma para fazer jus ao peso que Marie carrega por toda a sua vida. Já Toni Collette - do excelente Hereditário (2018) - combina carisma e ameaça em uma policial que é durona e bastante humana ao mesmo tempo. O verdadeiro destaque, porém, é Meritt Wever. A atriz foi de interpretar Denise nas piores temporadas de The Walking Dead, para protagonizar sua própria minissérie, em um papel que não tem muitas palavras, mas que exige performance física simultaneamente intensa, se comunicando através de seus olhares. Wever tira isso, e os momentos mais espontâneos de sua personagem, de letra.

Mas o que realmente faz tudo funcionar é a união de tudo. Inacreditável uma série verdadeiramente densa, que encaixa uma nova faceta do problema a cada nova situação e diálogo - desde citar a relação entre violência doméstica e abuso sexual, até a epidemia de casos do tipo em campus universitários. O seriadousa ao máximo o potencial do meio televisivo para pintar um retrato mais fiel e honesto da ineficiência de um sistema que não só faz o mínimo para proteger sobreviventes, como também se esforça muito para manter-se inerte. E o programa não tem medo de discursar seu subtexto com todas as letras. Durante uma sessão de terapia, a psiquiatra de Marie ouve sua história e pontua a dor da garota: “Basicamente, você foi agredida duas vezes”, ela afirma. “Uma pelo agressor, e a outra pela polícia”.

Nota do Crítico
Ótimo