Brie Larson na série "Uma Questão de Química"

Créditos da imagem: Divulgação

Séries e TV

Crítica

Uma Questão de Química mistura bem drama e romance, mas se perde nas distrações

Pistas falsas e narração de cachorro não acrescentam nada à adaptação da Apple TV+

Omelete
5 min de leitura
27.11.2023, às 14H07
ATUALIZADA EM 27.11.2023, ÀS 14H21
ATUALIZADA EM 27.11.2023, ÀS 14H21

Surpresa é um elemento importante em Uma Questão de Química - mas nem sempre o resultado é positivo. Dentro da trama, que conta a trajetória da cientista Elizabeth Zott (Brie Larson), é o conceito que dá novo fôlego à promissora pesquisa que Calvin Evans (Lewis Pullman) desenvolve junto com a protagonista, sua parceira no laboratório e na vida. Fora da ficção, é uma ideia que se repete ao longo da narrativa como se fosse um valor em si mesmo, uma condição para manter o público interessado no que está por vir. Mas os dois primeiros episódios da minissérie do Apple TV+ põem por terra essa teoria.

Adoráveis e previsíveis, os capítulos iniciais desse drama de época ambientado nos anos 50 desenvolvem os personagens principais com afeto e honestidade. O clichê dos pesquisadores brilhantes e socialmente inaptos é usado aqui em dose dupla e funciona, pois os dois têm, afinal… química. Elizabeth e Calvin são duas pessoas que se sentem inadequadas e encontram um no outro afinidades e compreensão, além de admiração mútua. Com atuações contidas na medida exata, Larson e Pullman são convincentes mesmo nos momentos em que a série assume um ar bastante didático.

A cientista, por exemplo, precisa explicar a ele, com todas as letras, o que é sexismo, mesmo quando ela é a prova viva do preconceito no laboratório onde os dois trabalham. Antes de conhecê-lo, ela trabalhava como técnica e era tratada como secretária pelos colegas homens, apesar de ter um mestrado e conhecimentos profundos sobre sua área de expertise. Mais do que isso, sua carreira só não prosseguiu como o planejado porque foi atravessada por uma série de violências que ela sofre apenas por ser mulher. E a rejeição profissional não diminui mesmo com o apoio do companheiro e os avanços em suas descobertas científicas.

Nos seis episódios restantes, porém, a atração criada por Lee Eisenberg faz vários experimentos com sua matéria-prima que geram efeitos bastante distintos. Uma tragédia que faz a vida de Elizabeth virar de ponta-cabeça é narrada com uma inesperada mudança de tom, graças à inusitada narração do cachorro Seis e Meia (voz de B.J. Novak). Na tela, o recurso, herdado do romance homônimo de Bonnie Garmus no qual a série é baseada, funciona apenas como distração (além de ser, possivelmente, um aceno aos fãs do livro, sucesso de vendas nos Estados Unidos).

Além disso, com alguma frequência, a trama resolve nos guiar por um caminho para revelar, logo depois, que se tratava meramente de uma pista falsa que nada acrescenta à história. Em um de seus saltos temporais, a atração nos faz crer que estamos acompanhando o dia a dia de Mad, filha de Elizabeth, na escola. Após várias cenas envolvendo a garota, o truque é revelado e a frustração não traz nenhum insight.

Curiosa como os pais e carismática como ela só, Mad (Alice Halsey) tem encanto de sobra para nos entreter desde a primeira cena e emocionar nas passagens mais delicadas. A cumplicidade e a parceria dela com a mãe, aliás, são um dos trunfos da série - inclusive em situações difíceis, quando a menina é quem diz à química duras verdades ou a faz perceber algumas de suas falhas. Já sua investigação sobre o passado do pai, às escondidas, culmina em um conjunto preguiçoso de coincidências forçadas.

Outro momento de decepção de Uma Questão de Química é em relação ao novo rumo profissional da cientista depois de ser demitida do laboratório. A sequência inicial do primeiro episódio que a apresenta como uma prestigiada apresentadora de um programa de culinária na TV sugere que esse será o auge do show, com Elizabeth bem-sucedida, reconhecida e realizada.

Obviamente, esse não precisa ser o destino da protagonista, que não busca a fama pela fama e aceita o emprego pelo dinheiro. Assim como na vida, algumas de nossas apostas acabam sendo um fracasso e, no máximo, uma lição. Acontece. Mas é uma pena que esse trecho seja o menos interessante da minissérie - à exceção da cativante performance de Kevin Sussman como o produtor Walter.

Ao contrário do que acontece na apresentação do romance, aqui os clichês não são suficientes para sustentar a história de uma forma interessante. As imposições e exigências estapafúrdias do chefe Phil Lebensmal (Rainn Wilson), embora condizentes ao que se espera do conservadorismo da época e da própria natureza comercial do show business, soam vilanescas demais. Por outro lado, as reações de Elizabeth beiram a pura teimosia em vez de simbolizar algum traço real de feminismo.

Uma cena em particular ilustra bem como a discussão do tema não ultrapassa a superfície nesse contexto. Bastante orgulhosa de sua atitude, a apresentadora pergunta à amiga Harriet Sloane (Aja Naomi King) se ela viu seu último feito: usar calça comprida em rede nacional. A resposta da interlocutora é apenas um murmúrio. A vizinha de Elizabeth (e amiga de Calvin), agora seu apoio emocional, é uma mulher negra que não realizou seu objetivo de se formar em Direito, mas que não abre mão de defender sua comunidade e protestar contra o racismo, em plena ebulição da luta pelos direitos civis nos EUA. Ela tem, com razão, questões mais importantes em mente.

E aqui vale destacar que essa trama secundária é uma criação da série, já que a Harriet do livro é uma senhora branca de meia-idade com um perfil bem diferente da personagem imaginada para a TV. Apesar do desfecho apressado demais, essa trama, sim, pode ser considerada uma surpresa positiva da adaptação. A mudança, como reforçam os cientistas da ficção, é inevitável - não é preciso ter medo.

Nota do Crítico
Bom
Uma Questão de Química
Encerrada (2023-2023)
Uma Questão de Química
Encerrada (2023-2023)

Criado por: Lee Eisenberg

Duração: 1 temporada

Onde assistir:
Oferecido por

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