Ultraman Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Ultraman - 1ª Temporada

Mesmo com uma animação bem duvidosa, Ultraman capricha no roteiro e é uma modernização mais que válida para a franquia

Matheus Bianezzi
18.04.2019
17h17

Baseada no mangá lançado em 2011, a nova animação da Netflix traz de volta o universo de Ultraman para as telas. Com um roteiro bem mais complexo e moderno do que das antigas tokusatsu japonesas, o novo desenho do serviço de streaming oferece uma boa atualização para a franquia, apresentando um protagonista revigorado e vilões não tão maniqueístas. Embora os confrontos entre gigantes fosse a graça da série de mais de 50 anos, um enredo baseado no “monstro da semana” dificilmente se sustentaria nos dias de hoje. A produção acerta nessa mudança ao mesmo tempo que erra em um pilar que não poderia pecar: a animação.

O alien entidade conhecido como Ultraman foi embora da Terra após considerar seu trabalho concluído. Seu antigo recipiente, o membro da Patrulha Científica Shin Hayata, não se lembra de nada do que aconteceu décadas atrás. É casado, tem filho e suas lembranças parecem fazer parte de um passado obscuro e nebuloso da sua carreira. Ao passo que uma nova ameaça surge para os terráqueos, após anos de paz, um novo herói aparece como bastião da esperança: Shinjiro, filho de Hayata e que tem em seu DNA poderes adormecidos do Gigante de Luz que um dia utilizou seu pai como receptáculo.

Ao contrário do que parece no primeiro episódio, onde Shinjiro já chega batendo no vilão Bemular, ele não está pronto para assumir o manto de Ultraman. E, felizmente, o roteiro não corre com essa evolução. Todos os 13 episódios de aproximadamente 20 minutos são usados para o personagem se desenvolver, tanto como herói quanto como ser humano, afinal, ele é apenas um adolescente. Mesmo com um ritmo de acontecimentos agitado, onde aliens antropomorfizados entram e saem de cena, existe um esforço para o poder do protagonista parecer coerente. Aliás, não são poucos as lições de moral que ele leva de diversos personagens para aceitar sua responsabilidade como defensor da Terra. Entretanto, não leva de quem precisa. O relacionamento de Shinjiro com seu pai é reduzido ao extremo. Um dos diálogos entre eles é ótimo e essencial para a construção do herói, mas se resume a uma cena. Para um jovem que acabou de se tornar o Ultraman, seria natural ter como mestre o antigo dono da armadura - ainda mais sendo ele seu pai -, mas isso não acontece. Shin Hayata serve mais como um easter egg nostálgico do que como um coadjuvante relevante.

A escolha por fazer uma animação ao invés de um live action foi bastante coerente por parte dos produtores. A chance de um tokusatsu parecer tosco perante às tecnologias modernas era enorme. Em séries antigas, as breguices causam um sentimento saudosista e até cativante, mas atualmente tudo soaria apenas ruim. A estética 3D é bastante empolgante, porém em certos momentos parece que foi feita em slow motion.  Principalmente nas cenas de plano aberto, a movimentação dos personagens parece carecer de alguns frames intermediários. Mesmo que seja uma história de mechas, as ações parecerem robóticas não é exatamente uma qualidade.

O baixo orçamento é gritante em alguns detalhes. Quando um dos Ultra aterrissa de alturas exorbitantes, por exemplo, o terreno em nada se altera, permanecendo irretocável. Nem parece que um humano vestindo uma armadura acabou de cair numa velocidade absurda . A mesma falta de cuidado acontece em certos cenários propositalmente cobertos de fumaça ou até mesmo nos rostos dos personagens secundários, bastante genéricos e simplistas. Tal inconsistência pode tornar a experiência do público tão inconsistente quanto, sendo fácil ficar empolgado durante as cenas de batalha, mais fluídas e frenéticas, e logo em seguida ficar incomodado, afinal, às vezes parece que você está assistindo um vídeo em baixa qualidade que não carregou direito.

Com seus defeitos e qualidades, uma coisa que não pode ser negada é a eficácia dos easter eggs e fan services. Para o fã da família Ultraman, cada personagem das antigas que aparece vestindo a roupa é um deleite - e isso não falta, afinal, são quatro diferentes. A trilha sonora também é prazerosa de se ouvir e dá o tom necessário: épica, mas ao mesmo tempo leve o suficiente para não perder de vista a narrativa simples dos anos 1960. É um bom ponto de partida para renovar a franquia e conquistar fãs mais jovens, ainda que a qualidade não esteja à altura do Ultraman. Lembre-se: ele é um gigante!

Nota do Crítico
Bom