Jordan Peele na nova versão de The Twilight Zone

Créditos da imagem: The Twilight Zone/CBS All Access/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Twilight Zone - 1ª Temporada

Reboot de Além da Imaginação tem alguns bons episódios em uma temporada segura demais para atender todo o potencial da franquia

Arthur Eloi
14.06.2019
19h41

Em 1959 Rod Serling mudou o rumo da televisão com Além da Imaginação (The Twilight Zone em inglês), trazendo prestígio, boa escrita e muita bizarrice para uma mídia que, ainda em seus primeiros passos, precisava se provar para o cinema. Em 2019 o cenário já não poderia ser mais diferente: não só a TV vive uma duradoura era de ouro como também o legado do programa original pode ser sentido até hoje, com inúmeros seriados carregando o mesmo poder narrativo de explorar o cotidiano em situações bizarras, seja em Black Mirror ou até em comédias-dramáticas, como Atlanta.

Com bastante casos de sucesso e um público sedento por material do tipo, é o contexto perfeito para a série clássica retornar - ainda mais com o envolvimento de Jordan Peele (Corra!, Nós), diretor que praticamente emula o perturbador charme da escrita de Serling em seus filmes. Mesmo assim The Twilight Zone (2019) sofre bastante para atingir o seu potencial ao longo da primeira temporada.

A estrutura permanece a mesma: cada episódio traz uma diferente história com novos personagens, mas sempre colocando-os para enfrentar algum problema de forma exagerada, assustadora e repleta de mistérios. Normalmente é um pouco complicado discutir antologias mas aqui, dentre os dez capítulos, são poucos que se destacam, com a maioria entregando tramas pouco originais, repetitivas e sem muito impacto.

Um exemplo disso é “The Wunderkind”, que traz John Cho (Buscando) assessorando um menino de 11 anos (Jacob Tremblay) que se torna o presidente dos Estados Unidos. Enquanto o momento é ideal para discutir o avanço de figuras populistas, o texto nunca vai além do argumento superficial e nem brinca com a própria ideia que apresenta - algo que se torna ainda mais sem graça considerando que Black Mirror, sucessora espiritual de Twilight Zone, fez o mesmo em 2013 com “The Waldo Moment”, da segunda temporada. Ou então “Point of Origin”, que dramatiza os violentos centros de detenção de imigrantes nos EUA, mas sem saber o que quer dizer além de apontar que isso, claro, é algo muito ruim. O subtexto é fundamental para a série mas é visível que há uma grande dificuldade em utilizá-lo com eficiência, mesmo com um elenco repleto de talento e nomes de peso.

Por outro lado, os poucos episódios que acertam a mão mostram como o seriado é impactante quando tudo está funcionando: acompanhando uma família negra sofrendo sufocante perseguição por um policial branco, “Replay” coloca o dedo na ferida das tensões raciais e discussões sobre abuso de poder que permeia os Estados Unidos, com controle cirúrgico da tensão e um final ambíguo. Já “Not All Men” abraça a obviedade de sua premissa e cria praticamente um filme de terror onde a masculinidade tóxica toma controle dos homens após a queda de um meteorito. Até “Blurryman”, o finale, demonstra como o programa se beneficia de contos bizarros ao criar uma trama meta-linguística em que uma roteirista do reboot (vivida pela excelente Zazie Beetz) é literalmente perseguida pelo enorme legado da série.

Momentos como estes, que a produção combina ficção científica e horror com comentários sociais afiados e questões pertinentes, que Twilight Zone mostra sua força. Infelizmente o brilho é constantemente ofuscado por roteiros mornos e uma fraca identidade visual, que combinados criam um seriado que não desafia o que está estabelecido na televisão, mas sim faz o mesmo que todos os outros fazem. Mesmo no contexto da franquia, o reboot soa mais como uma homenagem à Além da Imaginação do que um próximo capítulo, jogando seguro com convenções que um dia foram inovadoras quando introduzidas por Serling há 60 anos. Felizmente ainda há esperança, já que a CBS All Access garantiu uma segunda temporada. Resta acreditar que os acertos, a essência da série e principalmente o desejo de explorar o aspecto estranho do mundano e do problemático, falarão mais alto do que só a vontade de reviver o passado.

Nota do Crítico
Regular