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Crítica

Segunda temporada de Treta é desagradável só pelo prazer de ser

Série da Netflix perde até suas melhores ideias na busca pelo próximo choque

Omelete
4 min de leitura
16.04.2026, às 04H01.
Cena de Treta, 2ª temporada (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Treta, 2ª temporada (Reprodução)

Há um momento no quarto episódio da nova temporada de Treta (sem spoilers relevantes, prometo) em que Ashley (Cailee Spaeny), nossa protagonista geração-Z da classe trabalhadora, responde à pergunta de uma médica sobre o nível de dor que está sentindo: de 0 a 10, diz ela, está sentindo uma dor nível 9. A profissional rebate que, se ela estivesse de fato sentindo uma dor nível 9, estaria não verbal, e os três – Ashley, o namorado Austin (Charles Melton) e a médica – eventualmente chegam à conclusão que sua dor está mais para um 5. “Achei que era como no Letterboxd. Duas estrelas e meia é neutro, sem dor”, comenta a personagem. “Mas então quer dizer que estou com um Oppenheimer”.

Piada decente. Péssimo para a narrativa.

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Explico: Ashley, como nos é dito logo nos primeiros capítulos da temporada, nunca completou o ensino fundamental – um contexto familiar conturbado, e a necessidade de arranjar emprego para sair dele, a impediram. Ela é, portanto, imensamente desqualificada para o emprego que acaba conseguindo dentro do clube de luxo onde trabalha. E sua ascensão não acontece por mérito, nem mesmo por puxa-saquismo, mas sim por chantagem. Certa noite, ela e Austin testemunham e filmam uma briga agressiva entre Josh (Oscar Isaac) e Linsday (Carey Mulligan), casal de gerentes do clube, cuja necessidade de manter uma fachada de perfeição para os clientes ricaços faz deles um alvo perfeito.

Esse é o início da treta da vez, e há um leque de ideias emaranhadas nela. A maior delas está no contraste econômico entre os dois casais, que é essencial não só na arquitetura da trama, mas também na forma como o showrunner Lee Sun-jin a conduz. A nova temporada de Treta mira sem nenhuma sutileza na guerra de classes, e tem uma visão até original de como ela se desenrola na contemporaneidade. Eis aqui uma série que sabe como se passar no mundo hiper-online da fragilidade dos discursos, e do aliciamento desses discursos para apoiar o ganho pessoal. E ninguém está a salvo, ninguém carrega ou sinaliza a virtude no mundo da série: de fato, o melhor do texto é enxergar as formas como somos culpados dos mesmos pecados que levantamos a voz para imputar nos outros.

Outro tema na cabeça de Lee para esta temporada, é claro, são as vicissitudes da vida conjugal – mas já nessa segunda exploração as rachaduras começam a aparecer. Treta desenha seus dois casais principais não como claras oposições, mas como representantes de uma mesma história, em pontos temporais diferentes. A ideia é mostrar como Ashley e Austin podem se tornar Josh e Lindsay, conforme os ressentimentos se acumularem e a realidade se impor diante dos sonhos da juventude. Por suas vezes, Josh e Lindsay são cercados por dois casais coadjuvantes que apresentam alternativas para eles: a CEO Park (Youn Yuh-jung) e seu marido sanguessuga inseguro, Dr. Kim (Song Kang-ho); ou o bon vivant Troy (William Fichtner) e sua esposa troféu, Ava (Mikeaela Hoover).

O cinismo dessa premissa não é problema, mas a caracterização que Treta monta para cada um dos seus personagens é loucamente inconsistente – e as piores infrações vêm justamente no humor, como aquela do primeiro parágrafo. Apesar da pouca educação formal, nada na trajetória de Ashley dentro da série nos diz que ela é burra… a não ser por aquela piadinha do Letterboxd, e outras como ela. De forma similar, a crueldade casual de algumas tiradas e ações retaliatórias de Lindsay não rimam com o quanto a série quer que simpatizemos com ela, especialmente na fatia final da temporada.

Todos os personagens passam por esse tipo de oscilação, e poucos dos atores de Treta são capazes de abraçá-las de uma forma que os mantenha convincentes. Do quarteto principal, Mulligan é quem se sai melhor, largamente pelo charme britânico de seus momentos mais ácidos. É mais fácil entender o desespero de Lindsay por atenção e validação do que o egocentrismo devastador de Josh, a burrice inconveniente de Ashley, ou a vaidade disfarçada de Austin, e por aí vai. Pessoas são complexas, é claro, mas Treta não adiciona esses ingredientes aos seus personagens para mostrar isso – é só para fazer graça, e nem tem tanta graça assim.

O resultado, no fim das contas, é uma série desagradável pelo prazer de ser. E uma série que, inclusive, perde de vista as suas melhores ideias na busca pelo próximo choque, pela próxima risadinha de desprezo que vai servir de conforto para um público tão cheio de escárnio quanto ela. Nesse sentido, Treta joga um jogo ganho. Quem não está a fim de jogar, no entanto, provavelmente vai achar tudo isso um tédio.

Nota do Crítico

Treta

Criado por: Lee Sung-jin
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