Três Dias Que Mudaram Tudo não muda nada

Créditos da imagem: Divulgação

Séries e TV

Crítica

Três Dias Que Mudaram Tudo não muda nada

Minissérie da Netflix sobre a tragédia nuclear de 2011 sabe ser fiel aos fatos, mas não sabe ser criativa.

Omelete
4 min de leitura
07.06.2023, às 18H16.
Atualizada em 07.06.2023, ÀS 18H35

Não vamos ignorar evidências aqui: a minissérie Três Dias Que Mudaram Tudo está no catálogo da Netflix para invocar não só o sucesso de Chernobyl (da HBO), como para atrair seus fãs. São abordagens muito diferentes, mas que partem de um mesmo princípio: as duas retratam tragédias nucleares reais, com consequências terríveis, focando na responsabilidade dos envolvidos para que os resultados fossem ainda piores. As duas têm imenso valor histórico, são bem produzidas e atuadas. Mas, uma diferença fatal se coloca entre elas: uma não se esquece que é um produto de entretenimento; e a outra sim.

Os pontos em que as histórias aconteceram também interferem nos processos. Chernobyl aconteceu na década de 80 e Fukushima aconteceu em 2011. Na primeira, o acidente foi resultado de questões internas e na segunda, um tsunami inundou o complexo e acabou com a energia da usina. O Japão daquele 11 de março já sofria um nível de devastação impressionante como consequência de um terremoto sem precedentes no país. Os tsunamis que alcançaram a costa fizeram as mortes chegarem a mais de 18 mil. Imagens das ondas chegando até áreas povoadas onde as pessoas não tinham para onde correr, assolam a internet de maneira mórbida. Chernobyl trouxe à tona o reflexo de memórias distantes. Na minissérie da Netflix, há disponível um vasto material de comparação.

A trama de Três Dias Que Mudaram Tudo se segura única e exclusivamente no desastre em si; e essa talvez seja a diferença derradeira. Na minissérie, conhecemos Yoshida (Koji Yakusho), o responsável pela rotina da usina e também o único personagem que tem uma identidade específica na história. Ele é o narrador, o protagonista e o soberano, em meio a um elenco dedicado, mas negligenciado pelo texto. Funcionários da empresa circulam pela trama como peões sem substância e para os que estão fora do espaço da usina, isso não muda. Todos parecem contingentes, um coletivo; e não partes de um enredo dramático. A boa artimanha de usar catástrofes como metáfora para angústias existenciais aqui não se aplica. O roteiro quer fatos, não atos.

Sendo assim, estabelecer uma sinopse para a minissérie sem que essa sinopse pareça uma nota de rodapé histórico é muito difícil. Em seu primeiro episódio, a trama não se dedica a apresentar vítimas, testemunhas, nada. Ela só lista evidências práticas. Quem já conhece a história da tragédia sabe que virá um terremoto e depois um tsunami; então, muito cedo o espectador percebe que só precisa esperar, apreciar os efeitos especiais e depois passar mais sete episódios ouvindo jargões científicos e estratégias internas que em nada enfeitam a narrativa. O apuro técnico é nota dez, mas a profundidade dramática fica abaixo de zero.

Reatores

Contudo, talvez o fato mais problemático de Três Dias Que Mudaram Tudo seja a sua falta de alcance. Os roteiristas tomaram a decisão de focar os oito episódios apenas no que estava acontecendo dentro do complexo e isso afasta involuntariamente o senso de perigo da história. Contaminações, mortes, fugas, sacrifícios... tudo isso ajuda na dança dramatúrgica que faz uma boa série. Mas, sem que isso reflita ao menos alguns aspectos sociais, a mensagem fica pelo caminho. Muito se fala do perigo, mas pouco se vê sobre ele. Teria sido bom mostrar parte da cidade reagindo ao que aconteceu, sofrendo consequências, injetando material humano e não cobrindo essa base com frases estatísticas.

Ao menos a minissérie faz bom uso de seu orçamento na sequência do tsunami; e depois, mais tarde, encontra formas de amenizar a falta dele para ilustrar as explosões. É difícil, entretanto, chegar até o episódio final sem pensar em desistir várias vezes, tamanho descaso com ritmo e senso de espetáculo. A linguagem factual é tão severa que o narrador chega a dar uma aula de história – mesmo – no monólogo do episódio final. É como se os produtores quisessem reforçar que eles não querem ser acusados de nenhuma mudança factual... Mas, estão bem se forem acusados de falta de ousadia.

Enfim, Três Dias Que Mudaram Tudo não é uma minissérie que vai mudar qualquer coisa para quem a assista. É um produto burocrático, quase pedagógico, que não inspira e não marca. É bem feita, mas é dispensável. Nesse caso, vale mais a pena procurar evidências no vasto da internet. Isso, sim, talvez te mude.

Nota do Crítico
Regular
Três Dias Que Mudaram Tudo
Encerrada (2023-2023)
Três Dias Que Mudaram Tudo
Encerrada (2023-2023)

Duração: 1 temporada

Onde assistir:
Oferecido por

Omelete no Youtube

Confira os destaques desta última semana

Omelete no Youtube

Confira os destaques desta última semana

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.