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Créditos da imagem: Travelers/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Travelers - 3ª temporada

Série luta para encontrar arco central na "temporada de salvação"

Henrique Haddefinir
11.01.2019
15h44

Embora tenha uma premissa consistente, Travelers sempre foi uma série de altos e baixos. Em muitos momentos ela perde sua linha de raciocínio na busca por equilíbrio entre o drama e a ação, mas seu valor de produção e a boa ideia por trás de sua dramaturgia a faziam merecer um lugar na programação. Contudo, a série – que originalmente era exibida pelo canal canadense Showcase – ganhou sua terceira temporada apoiada pela Netflix, que continua a tradição de salvar séries ameaçadas de extinção. Sua terceira tentativa de encontrar estabilidade e segurança começou em dezembro, quando a terceira temporada foi liberada pelo serviço de streaming. Infelizmente, essa derradeira investida pode ser a última.

Nos dois anos que se passaram a série construiu sua mitologia em torno da chegada dos viajantes. O objetivo principal era a tal "salvação do mundo", mas ninguém ligava muito para isso. A força da série estava na expectativa acerca de quem seriam os novos viajantes ou mesmo se os viajantes que já conhecidos passariam por grandes mudanças. Brad Wright, o criador, enfrentou problemas para organizar as temporadas equilibrando esses aspetos humanos e a obrigação de levar a história para seu objetivo primordial. Essa dificuldade aparecia, mas na terceira temporada é como se tivesse se tornado a estrela da produção. Travelers lutou, mas na hora de se salvar, tomou algumas de suas piores decisões.

O medo de enfrentar o peso de grandes mudanças foi o maior dos problemas. A segunda temporada terminou com um grande gancho, todo apoiado na descoberta dos entes queridos dos viajantes de que eles não eram quem diziam ser. A expectativa era imensa. Com a vitória da renovação, veio a responsabilidade de lidar com isso. Então, para frustração da audiência, a saída encontrada pelos roteiros foi o adiamento. Travelers começou a cometer aqueles erros clássicos das dramaturgias de ficção científica: encontrar saídas mirabolantes para reverter grandes passos. Uma espécie de "soro do esquecimento" foi tirado da manga e assim tudo voltou à sua conhecida zona de conforto. Uma lástima injustificável.

Viagem ruim

O recuo na descoberta dos entes queridos dos viajantes foi só o primeiro dos enganos. Com a decisão acovardada veio a descrença. Os personagens da série começaram a se reajustar enredo inédito. A questão era saber o quão "novo" ele era. Ao abrir mão da narrativa do viajante 001, os produtores tiveram que encontrar uma trama central. Decidiram que apesar do recuo sobre a descoberta dos familiares, a verdade ainda estaria em pauta para o governo. Surgiu, então, a agente Yates (Kimberly Susted), a nova parceira de MacLaren (Eric McCormack), que estaria ali para "fiscalizar" seu trabalho junto aos outros viajantes. Não era a saída mais original, mas era uma saída. Contudo, a falta de segurança na trama era tão grande, que a dinâmica entre os dois personagens foi um dos últimos investimentos narrativos desse ano.

Com apenas 10 episódios para desenvolver um arco, Travelers conseguiu fazer sua temporada mais aleatória. Mais da metade dos episódios foram procedurais, desinteressantes e sem elementos de continuidade. A ideia de trazer a voz do "diretor" ao centro dos acontecimentos empobreceu a dramaturgia e toda a boa construção acerca do primeiro viajante e sua rivalidade com o sistema estabelecido foi abandonada. A "facção" virou um coringa e era jogada nas histórias aleatórias. Tudo podia ser a facção a qualquer momento, enquanto organizar melhor o papel e a origem dela se tornou um objetivo utópico. A série estava tão perdida que a relação entre David (Patrick Gilmore) e Marcy (Mackenzie Porter) virou o coringa número dois. Pode-se dizer, sem medo, que o casal (até mais ele que ela) passou a segurar todo o envolvimento emocional da audiência.

Faltando dois episódios para o fim os roteiros começaram a tentar recuperar a mitologia perdida. Novamente, grandes passos foram dados e a série voltou a tentar falar em escala global. Tudo começou a ser resgatado: a facção, o diretor, o viajante 001, as tensões em torno da descoberta dos familiares... Mas, lá estava David de novo segurando as pontas do apelo dramático. O final tem sacrifícios, explora tristezas, mas faz isso tão intensamente que despertou desconfiança. No final das contas, para uma série sobre viagem no tempo, passou a ser ela, a própria viagem no tempo, a muleta que facilita tudo e torna a experiência fragilizada. Se uma voltinha ali no passado vai resolver tudo, como vamos sofrer de verdade as emoções do presente?

Um gancho regular encerrou a temporada, mas o futuro de Travelers está tão suspenso quanto antes. O que aconteceu, aconteceu. Essa é a regra essencial. Ou isso ou tudo vira fraude.