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Crítica

Transparent - 4ª temporada | Crítica

Série discute com sinceridade assuntos como não-binaridade e poliamor em mais um ano impecável

Rafael Gonzaga
25.09.2017
16h45
Atualizada em
25.09.2017
17h26
Atualizada em 25.09.2017 às 17h26

É difícil acreditar que uma série com a premissa de Transparent consiga chegar em seu quarto ano aspirando lufadas vigorosas de fôlego, mas ela consegue. A nova temporada consegue desenrolar tramas inéditas sobre Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) e sua família absolutamente disfuncional na mesma proporção em que é carismática das formas menos convencionais possíveis. Além conseguir continuar desdobrando personagens já bastante familiares para o público em ângulos ainda desconhecidos, Transparent consegue com êxito levantar debates sobre gênero, sexualidade e comportamento humano com a mesma força, naturalidade e relevância que tinha lá na primeira temporada, quando tudo na trama ainda era terreno a ser desbravado.

O novo ano é embalado por uma viagem de Maura até Israel, mas não se trata apenas de uma excursão divertidinha  em família - ainda que, em vários momentos, o seja também. A ida da família judaica para Israel não é só pano de fundo para as histórias dos personagens, mas é algo metafórico do ponto de vista de ser a alegoria de uma trama que gira em torno de se conectar com as origens e de enfrentar fantasmas do passado.

Ainda que as jornadas psicológicas individuais de cada personagem da série sejam cruciais nessa temporada, as interações pontuais entre algumas duplas são o charme do quarto ano. Não é gratuita a aproximação marcante entre Maura com Ali (Gaby Hoffmann) ou a de Shelly (Judith Light) com Josh (Jay Duplass), há um espelhamento na trajetória de parte e contraparte de cada uma dessas duplas. Maura dá mais um passo importante em sua jornada de se tornar plenamente o ser humano que foi atrofiado dentro dela pela coerção psicossocial ao mesmo tempo em que observa com propriedade, paciência e carinho a jornada de autodescoberta de Ali. Gaby Hoffmann - que mostra talento atrás das câmeras ao dirigir o sétimo episódio - dá um show de atuação ao mostrar que a sensação de confusão da personagem acontece dentro dela, mas vem primordialmente de fora, do meio. É de certo modo simbólico que Maura e Ali tenham tomado o mesmo avião, juntas, para Israel, antes de todos os demais.

O caso de Shelly e Josh é inverso ao de Maura e Ali - na relação entre mãe e filho, quem enfrenta demônios inéditos é a parte mais madura da dupla. Judith Light fez um bom trabalho ao mostrar um momento crítico de uma personagem que ficou relegada ao posto de coadjuvante dos filhos e da ex-esposa, sufocada pelo pilar do sacrifício implícito na lógica da maternidade. Enquanto Josh olha com a seriedade necessária para uma parcela traumática e pouco evidenciada de sua juventude em função da problemática educação sexual destinada aos homens, Shelly finalmente abre portas igualmente traumáticas do seu passado. A série mostra que enquanto a mulher era tratada como um apêndice ou algo a ser resolvido na vida dos outros personagens, ela também precisou lidar carregar sua própria cruz sem a ajuda de ninguém.

Mostrando-se atual e relevante, Transparent chega em um estágio em que a questão transexual perde naturalmente impacto na narrativa e abre caminho para o debate da transgressão da binaridade em diversas esferas - isso fica a cargo de Ali e de Sarah. Enquando com Ali essa fuga da dicotomia acontece no âmbito das caixas apertadas do que é ser homem e mulher, explorando as infinitas possibilidades de existência que existem além disso, a trama de Sarah desafia a lógica compulsória monogâmica. A série introduz a corajosa temática do poliamor através dela, de Len (Rob Huebel) e da novata Lila, interpretada por Alia Shawcat, mostrando as inseguranças da descoberta de um modelo de relacionamento não-convencional.

Em meio a tanta coisa acontecendo na vida de quem orbita ao seu redor, Maura encara ainda descobertas surpreendentes sobre sua origem, mostrando que o céu é o limite para a série de Jill Soloway. Em seu quarto ano, Transparent continua mostrando habilidade para relacionar drama e comédia da forma mais agridoce possível, aplicando doses cavalares de humanidade, inteligência e sinceridade em temáticas ainda, por incrível que pareça após assistir a série, sensíveis. A superação é algo difícil quando o histórico anterior é impecável, mas isso acontece só pelo fato de, ano após ano, não deixar a peteca cair. Transparent nunca esteve em outro lugar que não o auge e, em seu quarto ano, continua.

Nota do Crítico
Excelente!