Clara Gallo, Kelner Macêdo e Julianna Gerais em Todxs Nós

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Todxs Nós - 1ª temporada

Tratando de questões como identidade de gênero e racismo, série nacional da HBO tem um quê didático, mas isso não a impede de divertir o espectador com carismático trio de amigos

Mariana Canhisares
11.05.2020
18h06

Um homem homossexual, uma mulher negra e uma pessoa não-binária. Se o nome Todxs Nós não era suficiente para desagradar a patrulha contra a “lacração”, o trio de protagonistas facilmente poderia ser motivo para reclamações e rejeição à série. Uma pena, porque é justamente a diversidade de personagens que torna o seriado nacional da HBO diferente e interessante. Trazendo dados da realidade para a tradicional narrativa sobre jovens adultos em uma cidade grande, navegando pelos altos e baixos das suas vidas amorosas, a produção aborda sim dilemas e problemas de grupos sociais específicos. Mas, como o próprio título sugere, isso não a impede de traçar uma história que converse com o espectador, independentemente do seu gênero, etnia ou orientação sexual.

O pontapé de Todxs Nós está na chegada de Rafa (Clara Gallo) a São Paulo. Cansade de lidar com o pai, que não aceita sua identidade de gênero, Rafa foge de casa e recorre ao seu primo Vini (Kelner Macêdo) na capital paulista para finalmente viver sua vida como bem quer. A chegada surpreende o aspirante a ator, assim como sua colega de apartamento, a programadora Maia (Julianna Gerais), mas ambos acolhem le jovem. Não só na sua casa, como também na divertida dinâmica de amizade.

Desde a primeira cena a série se propõe a desconstruir alguns estereótipos. Ao chegar no apartamento, por exemplo, Rafa explica que decidiu procurar Vini por que ele é gay e, portanto, saberia muito bem o que estava dizendo ao se identificar como não-binárie. No entanto, nem ele, nem Maia tinham a menor ideia do que se tratava. Vini, inclusive, demora a entender o uso de pronomes neutros para se referir a Rafa. Tanto que chega a fazer piada com o assunto e é prontamente repreendido.

Com bom humor, Todxs Nós dá leveza à discussão sobre identidade de gênero, complexa até do ponto de vista linguístico, e aproxima o espectador que talvez nunca tenha sequer ouvido falar no assunto. Aliás, faz mais do que isso. Em vez de julgá-lo por não saber, o seriado coloca na tela suas dúvidas e as responde com didatismo. Porque, por mais informados que sejam os protagonistas, os três não sabem de tudo e, portanto, também têm o que aprender.

Vale notar, porém, que a série faz uma necessária diferenciação entre ignorância e preconceito. Enquanto Vini, Rafa e Maia cometem seus deslizes e crescem com eles, o pai de Rafa não dá ouvidos a nenhum dos apelos de sue filhe, nem de ninguém. Para ele, Rafa é Rafaela e pronto. Essa caracterização é bastante importante sobretudo agora, em um momento em que a intolerância está ainda menos disfarçada. Afinal, a mensagem que fica é tudo bem não saber, desde que você esteja disposto a ouvir e entender.

Adotar uma postura educativa, embora seja muito positivo para expandir o escopo das discussões referentes às comunidades LGBTQIA+ e negra, por vezes pode tornar os diálogos e a própria história mais travados. Isso fica evidente quando se coloca a irmã mais nova de Rafa para citar dados sobre violência durante uma briga com o pai. A cena, ainda que interessante para mostrar o contraste entre os personagens, revela o problema de ficar muito dependente do discursivo: a série acaba prejudicando seu ritmo e a sensação de espontaneidade das cenas.

Mas há mais do que só “militância” em Todxs Nós. Como era de se esperar de uma série sobre jovens, há muito romance, sexo, nudes e, claro, frustrações. Enquanto Maia está apaixonada pelo colega de trabalho que namora, Vini tem um relacionamento sério, mas está desconfortável com as investidas do seu namorado para abri-lo. Rafa, por sua vez, só quer curtir a vida. Acompanhar os dramas amorosos deles não poderia ser mais divertido. Contudo, são os momentos em que os três se reúnem para trocar conselhos que realmente conquistam com sua irreverência e honestidade. Os protagonistas são muito carismáticos e, em um período de isolamento social, é difícil não se pegar pensando nas suas reuniões com seus melhores amigos.

Todxs Nós é um retrato de uma bolha de São Paulo, que toma seu litrão na calçada e é aficionada por astrologia, é verdade. No entanto, a produção não tem problema de tirar seus personagens das suas zonas de conforto e fazê-los encarar seus próprios privilégios, enquanto dá visibilidade a questões sociais indispensáveis. Mas, tão importante quanto informar, é divertir e a série faz isso muito bem.

Nota do Crítico
Ótimo