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Crítica

The Walking Dead - 8ª Temporada | Crítica

Série abandona obviedades em seu oitavo ano e, usando Rick de forma metafórica, amadurece através dos caminhos mais difíceis

Rafael Gonzaga
16.04.2018
00h38
Atualizada em
29.06.2018
02h48
Atualizada em 29.06.2018 às 02h48

A oitava temporada de The Walking Dead conseguiu o feito de acrescentar ao acervo da cultura pop uma nova referência de relação antagônica entre dois personagens. Dando seguimento ao jogo de gato e rato introduzido no sétimo ano e protagonizado por Rick (Andrew Lincoln) e Negan (Jeffrey Dean Morgan), a série usou a remessa seguinte de episódios para aprofundar as raízes dessa relação em um solo adubado por traços e mais traços de complexidade. A adaptação do arco Guerra Total dos quadrinhos saiu da zona de conforto e foi além do material original, construindo de forma menos superficial uma história de amadurecimento, superação e recomeços. Principalmente, conseguiu fazer de Rick um mocinho menos óbvio extraindo dele algo crucial para a identificação do público: sua humanidade.

[Cuidado com possíveis spoilers!]

Curiosamente, a oitava temporada teve um papel decisivo como poucas e representa um marco na trajetória dos personagens. Ao longo dos anos, algumas mudanças práticas rumo ao restabelecimento da ordem pré-apocalipse zumbi foram implementadas na série, como a busca pelo fim de um estilo de vida nômade, mas, pela primeira vez, Rick e os demais pautaram suas decisões pensando no futuro da sociedade de forma mais ampla. Se durante muito tempo os sobreviventes foram inevitavelmente empurrados para seus suportes selvagens, agora a balança foi invertida e a dificuldade foi voltar a tomar decisões com base em esforços civilizados para evitar a perda da humanidade que dá sentido à vida.

Foi apresentada ao público uma jornada de reconexão com valores que foram deixados de lado por razões prioritárias contextuais - enquanto estava lutando para sobreviver, Rick começou a esquecer alguns dos motivos pelos quais valia a pena seguir com os punhos cerrados. Não à toa, o primeiro e o último episódio do oitavo ano, ambos dirigidos por Greg Nicotero, se chamam respectivamente "Mercy" e "Wrath": a frase "minha misericórdia prevalece sobre minha ira" é a síntese de uma temporada que transforma Rick no líder político de um punhado expressivo de pessoas, deixando finalmente de ser uma espécie de lobo alfa de uma alcateia apavorada.

Isso é evolução. The Walking Dead pagou a duras penas - como a queda vertiginosa de audiência, por exemplo - os erros cometidos anteriormente pelos produtores, em especial no decorrer da sétima temporada. Ainda que com falhas especialmente ligadas à quantidade excessiva de episódios, o oitavo ano fez um bom serviço. Rick e Negan se distanciaram da lógica binária de mocinho e vilão e, passaram a se refletir um no outro. Conflitos éticos passaram a ter destaque, personagens foram humanizados através de falhas morais e o público saiu da zona de conforto quando deixou de torcer para um dos lados, passando a vislumbrar não só a possibilidade de uma saída alternativa para a guerra, mas a necessidade disso.

E não foi só de Rick e Negan que viveu a temporada. Ainda que grandes nomes da série tenham sido mal aproveitados, como é o caso de Michonne (Danai Gurira) e Daryl (Norman Reedus), coadjuvantes foram bem trabalhados para que o público se importasse de verdade com eles antes deles serem usados como sacrifícios irrelevantes. Dwight (Austin Amelio) e Simon (Steven Ogg) se tornaram peças importantes da série no núcleo dos Salvadores e Jadis (Pollyanna McIntosh) teve espaço para ser mais do que uma figura bizarra em um lixão - aliás, segue com ela o mistério do helicóptero. Até mesmo nomes que seguem o grupo de sobreviventes há algum tempo sem grande relevância se destacaram, como é o caso de Eugene (Josh McDermitt), provavelmente protagonista do maior arco de redenção da série.

A narrativa aplicada ao último episódio da temporada passa uma mensagem clara de um ciclo sendo fechado, dando a entender que a história continuará de onde parou, mas com liberdade criativa para rever formatos aplicados até então. Sem usar novamente o artifício de um cliffhanger para prender a atenção do público até o próximo ano, a série optou por plantar pequenos sinais de arcos famosos que sucedem o intitulado Guerra Total nos quadrinhos - a cena do season finale em que Rick caminha no alto de uma colina e observa ao longe uma horda gigantesca de zumbis, com uma demarcação de território feita com estacas, é uma referência óbvia aos chamados Sussurradores. A série escolheu não prender com tanta obviedade uma temporada na outra, deixando, pela primeira vez em muito tempo, as possibilidades mais abertas.

Nesse aspecto, é muito interessante ver quais caminhos estão livres. Embora a espinha dorsal do oitavo ano possa ser definida pela guerra entre Rick e Negan, grande parte da dinâmica da temporada foi embalada por conflitos políticos internos em cada um dos times antagônicos. Esse desconforto entre aliados rendeu bons momentos e não deverá ser algo descartado no futuro da trama: Maggie (Lauren Cohan) ganhou autonomia o suficiente para não achar mais necessário ficar à sombra das decisões de Rick e isso é um ponto a ficar atento. A presença de mais líderes expressivos abre espaço para trabalhar em tela o exercício da diplomacia e para mostrar conflitos menos óbvios ou maniqueístas, onde o poder está distribuído de forma mais horizontal e democrática.

The Walking Dead conseguiu ser, simultaneamente, ousada e tradicional em relação à forma como escolheu adaptar o conteúdo dos quadrinhos para a televisão. Embora os rumos da trama fossem bastante claros para quem conhece a história original, a série optou por se afastar completamente dos quadrinhos em momentos como a morte de Carl (Chandler Riggs) - mas, de forma paradoxal, foi essa mudança que permitiu que o arco fosse fechado do modo mais semelhante possível ao material de base, acrescentando doses maiores de realismo no que diz respeito às catarses internas dos personagens centrais. Mudanças estruturais tão disruptivas exigem eventos realmente impactantes e os produtores não tiveram medo de ir longe nessa missão - o resultado dessas escolhas foi extremamente positivo.

Nesse ponto, The Walking Dead amadureceu e deixou de ser uma fábula inocente - e escatológica - sobre a jornada de um pai tentando salvar sua família de um cataclisma global aterrorizante. Como um organismo vivo, a série deixa a confusão da adolescência e começa a não só entender seus objetivos de forma mais ampla, mas a saber exatamente onde pode e onde não pode ir. Ao mesmo tempo em que se propõe a entregar um conteúdo mais filosófico e reflexivo no que diz respeito à análise do comportamento humano em situações limite, a série também apresenta mais segurança para saber a hora de se desdobrar em diversão gratuita para o público, seja através de um tiroteio com balas infinitas ou de uma máquina de moer zumbis. O futuro de The Walking Dead, ainda que escuro como nunca e dentro de um panorama onde o esgotamento da série é assunto recorrente, parece promissor - um alívio para o fã que sobreviveu até aqui.

Nota do Crítico
Bom