Séries e TV

Crítica

The Walking Dead - 10ª temporada

Rumo ao fim, série demonstra que fase ruim ficou no passado, e que sabe como fazer televisão de qualidade

Arthur Eloi
04.10.2020
23h30
Atualizada em
13.10.2020
18h44
Atualizada em 13.10.2020 às 18h44

Jonathan Nolan, criador de Westworld, definiu bem a relação entre produtores televisivos e seus fãs: “Cinema é como ter um caso, mas a TV é um casamento”. E como toda relação, há a paixonite inicial, o cotidiano, agrados ocasionais e, sim, fases ruins. Todo fã de The Walking Dead sabe muito bem disso, já que esse namoro completa uma década em 2020. Felizmente, com a 10ª temporada, existe muito a ser celebrado.

Apesar de ser saco de pancadas fácil por gradualmente perder a audiência e o hype imensos que acumulou em seu início, a série anda em ótimo estado há anos. Após a saída de Rick (Andrew Lincoln) no pré-hiato da nona temporada, o receio de que a trama se tornaria um enorme filler foi rapidamente vencido por uma segunda metade afiada e impactante. Foi um sopro de novidade, mas que ainda assim podia significar apenas um breve momento bom após uma longa fase ruim. Agora, com Angela Kang enfim entregando uma temporada completa no posto de showrunner, não há dúvidas de que o programa superou seus piores dias.

O décimo ano traz à tona o conflito entre os sobreviventes e os Sussurradores, grupo rival capaz de se misturar entre os zumbis e controlar o rumo das hordas. Porém, diferente da briga com os Salvadores, a guerra é menos explosiva - e muito mais eficiente. A produção entende o potencial da ameaça invisível, e conduz o suspense à agonizantes passos curtos, com a tensão no máximo. As duas metades da temporada trazem abordagens diferentes, mas que se espelham e se completam.

O começo é conduzido pelo horror psicológico. Alpha (Samantha Morton), líder dos Sussurradores, negocia um acordo de território com os sobreviventes, mas gradualmente vai reduzindo o terreno permitido. Sob cerco dos rivais, os ânimos dos protagonistas ficam à flor da pele, se voltando uns contra os outros.

É a partir disso que Kang reforça que seu compromisso é com os personagens, e utiliza a premissa para dar profundidade à eles. Carol (Melissa McBride), após perder seu afilhado para os inimigos, se torna atormentada por traumas do passado e passa a flertar com o suicídio; Lydia (Cassady McClincy), a filha de Alpha, se torna persona non-grata dentro das comunidades, apesar de seu genuíno desejo de ajudar na luta contra o exército da mãe, algo que lhe aproxima bastante de Negan (Jeffrey Dean Morgan), que também é mal visto pelos demais.

Cada um tem sua luta pessoal, e a série acerta em dar tempo de tela o bastante para que isso possa ser desenvolvido, mas sem perder de vista o avanço do conflito geral. As histórias de Negan, Lydia, Carol, Eugene (Josh McDermitt), Daryl (Norman Reedus) são tão importantes quanto derrotar os Sussurradores. E é isso que torna tão impactante quando os sobreviventes atacam de volta, em uma segunda metade que demonstra como Alpha lida com a perda de controle.

Olhando individualmente, os episódios também não decepcionaram. Toda semana, The Walking Dead se propôs a tentar uma nova abordagem. Em uma, o tom de horror dominou para mostrar Beta (Ryan Hurst) caçando impiedosamente Daryl. Em outra, Michonne (Danai Gurira) ganha um tributo para marcar sua despedida do programa que lhe consagrou. Um ou outro episódio enrolou um pouco, ou então apostou em fórmulas cansativas, mas mesmo esses soam acima da média do que o seriado exibiu entre a sétima e nona temporada.

Enquanto cada capítulo teve sua voz própria, algo em comum é a excelência na direção e também a aposta no horror, seja temático ou gráfico. Muito disso se dá graças à Greg Nicotero, mestre dos efeitos visuais e discípulo de George Romero, que realmente ganhou mais liberdade criativa dos últimos anos. Muita gente acredita que uma década da série - e de incontáveis outras obras do gênero - saturou os zumbis, mas Nicotero ajudou a trazer o medo e a nojeira de volta ao programa, seja na hora de dirigir episódios ou então criar os mais grotescos cadáveres putrefatos.

Sem Rick, Michonne ou Maggie, a 10ª temporada de The Walking Dead facilmente poderia ter sido enrolação pura. Muito pelo contrário, a produção entregou terror, drama e reviravoltas inesperadas, de forma que não se via na série há muitos anos. A equipe de Kang se mostra bastante confiante em criar sua própria versão do universo de Robert Kirkman, e em valorizar os personagens e atores que cresceram com o público ao longo dos últimos dez anos.

Com o final batendo na porta, visto que é o penúltimo ano do programa, o curto caminho pela frente é mais interessante do que nunca, com a introdução de uma nova comunidade e o mistério de uma conclusão que com certeza será muito diferente das HQs. A fase ruim, repleta de fillers e tentativas desesperadas de segurar audiência a todo custo, agora é só uma memória do passado. Para os que ficaram, The Walking Dead ainda tem uma chance de se despedir em sua melhor forma.

Nota do Crítico
Ótimo

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