Foto de The Rookie

Créditos da imagem: The Rookie/ABC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Rookie - 2ª temporada

Série com Nathan Fillion evolui em nova temporada, mas não tem coragem de dar o salto que a faria realmente interessante

Camila Sousa
13.05.2020
16h12

Lançada em 2018, The Rookie chegou com a proposta de ser uma série policial diferente. Ambientada em Los Angeles, a trama seria mais focada nas forças policiais que lidam com ocorrências do dia a dia e teria um ar mais leve, intercalando momentos de humor aqui e ali, algo desafiador em uma narrativa que lida com crimes. Com o decorrer dos episódios, os produtores perceberam que a produção precisava de mais peso e algumas tramas mais densas foram incluídas. Apesar disso, a 2ª temporada mostra que a série não teve coragem de dar o salto que a faria ser realmente interessante.

Começando imediatamente após o primeiro ano, os novos episódios colocaram o protagonista John Nolan (Nathan Fillion) em situações extremas desde o começo. Nesta temporada o personagem viu uma ambulância ser atacada, ficou cara a cara com uma assassina em série que parece ter gostado muito dele e até teve que enfrentar a ameaça de mísseis em Los Angeles. No entanto, é impossível deixar de lado o sentimento de que ninguém ali está em um perigo real de vida. Nolan e seus colegas de patrulha passam por muitos desafios, mas há aquela sensação já conhecida de outras séries, em que você sabe que o mocinho está em perigo, mas nada vai realmente acontecer.

A chance para mudar isso veio na midseason (metade de temporada), quando Lucy Chen (Melissa O'Neil) é sequestrada. A situação colocada pela série para o salvamento beira o impossível. Há pouco tempo para encontrar a personagem em um ambiente muito grande. Mas é neste momento que The Rookie escolheu continuar sendo uma série good vibe: a personagem é salva, com a ajuda de uma boa suspensão de descrença do público, e volta segura para casa, ainda que com alguns traumas. A partida de Chen tinha o potencial de mostrar um perigo real e acrescentar uma bem-vinda camada de perigo ao seriado, especialmente no season finale.

Além disso, The Rookie também se afastou bastante da proposta de mostrar os policiais no “dia a dia”. Na 2ª temporada, são cada vez mais raros os episódios em que os personagens realmente estão fazendo patrulhas comuns, algo que mostra como tal fórmula é interessante na teoria, mas se esgota rápido na prática. No fim das contas, a produção se aproximou bastante de outras séries policiais ao lidar com o tráfico de drogas, serial killers e investigações. Há um problema de identidade claro, cuja definição precisa ser o foco da próxima temporada.

Mesmo com tudo isso, o seriado constrói dilemas interessantes, como quando mostra que nem toda denúncia é o que parece; deixa claro como o trabalho de policial afeta muito a vida pessoal dos agentes e revela como é importante para a delegacia ter uma boa reputação na comunidade, o que ajuda bastante nas ocorrências, já que as pessoas dali confiam em seus policiais. The Rookie tem temas, de fato, interessantes, mas o formato de “vilão da semana”, que arranha em temas em um episódio e os deixa de lado no próximo, faz com que a produção não saia do trivial.

Complexo de Ned Stark

Ned Stark, o personagem de Sean Bean em Game of Thrones, é conhecido por ser extremamente honrado e justo, mas não exatamente muito esperto. Ao invés de ter a malícia de jogar o “Jogo dos Tronos”, ele foi inocente em confiar em quem não deveria e terminou bem mal por causa disso. Há vários paralelos entre Ned Stark e John Nolan, o protagonista de The Rookie.

Mais velho do que seus companheiros novatos na polícia, Nolan sempre se mostrou mais “inocente”, de certa forma, algo que rendia até momentos divertidos na primeira temporada. No entanto, a pose de bom moço foi elevada a outros níveis no 2º ano. Claro, no papel de um policial, é muito importante que Nolan tenha um bom caráter e haja de forma justa. Mas isso não o impede também de agir de forma mais consciente, com mais frieza e menos emoção.

Quando sua delegacia percebe que há alguém infiltrado na polícia passando informações para criminosos, Nolan é meticuloso o suficiente para descobrir a verdade mas, assim como Ned Stark, ele não sabe muito bem o que fazer com essa informação. Ao invés de agir rápido em um momento de confronto, ou não subestimar seu oponente e tentar imaginar seus próximos passos, o protagonista perde tempo no momento final para fazer um discurso sobre como o outro policial é mau e ele, John Nolan, jamais faria algo parecido, em uma sequência que chega a irritar de tão ingênua.

Como é de se esperar, o protagonista não tem um saldo nada positivo disso e a temporada termina com um grande gancho. No entanto, dificilmente Nolan terá uma consequência real em sua vida. Seguindo seu formato “procedural good vibes”, provavelmente The Rookie vai resolver a questão rapidamente em futuros episódios para deixar o protagonista pronto para mais um dia. Isso é ruim? Depende. O seriado funciona para quem procura algo para se distrair rapidamente, mas não traz discussões profundas ou momentos memoráveis.

Nota do Crítico
Regular