The Resident continua soando terrivelmente genérica

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Séries e TV

Crítica

The Resident continua soando terrivelmente genérica

4º ano tentou ser mais dinâmico, mas falhou na tarefa

Henrique Haddefinir
23.05.2021
18h53

A primeira temporada de The Resident vendeu uma ideia promissora: a de que seria um drama médico com a missão de não ser só mais um drama médico. Essa era uma promessa muito importante, uma vez que na maioria dos casos o lançamento de uma série abrigada por esse gênero representa o nascimento de mais um produto genérico. Todas elas – sem exceção – abandonam seu conceito original muito rápido e passam a viver dos mesmos recursos compartilhados, quase todos eles ditados por Grey's Anatomy: romances e tragédias, muitas tragédias.

The Resident prometeu abordar a rotina de um hospital pela perspectiva do erro. Com tantas séries falando da milagrosa e privilegiada medicina americana, ter um título indo na direção totalmente oposta parecia genial. Mesmo porque, as relações entre o setor médico privado, os planos de saúde e a incidência de erros cometidos por profissionais da área, poderiam ser tópicos que se enquadrariam em ótimos argumentos narrativos. Contudo, muitas vezes o que essas produções transmitem é uma realidade diferente, em que a ideia garante a estreia, mas não sobrevive ao tempo.

Durante a primeira temporada o universo da série tentou se manter na trilha desse conceito, mas conforme as renovações foram surgindo, os erros médicos foram sendo eclipsados pelo desenvolvimento massivo das narrativas dos personagens. É claro que isso é natural do ponto de vista narrativo, porém, quanto mais as vidas dos doutores eram desenvolvidas por perspectivas tão recorrentes e corriqueiras, mais a série se afastava do que a tornava única e se tornava outra dessas atrações pasteurizadas, como numa linha de produção, sem identidade e somente ocupando espaços nas grades.

Não ajuda o fato de The Resident estar apoiada em roteiros tão superficiais. Essa inconsistência narrativa abre espaço para que outras fragilidades acabem surgindo. Apesar de uma parcela do público torcer apaixonadamente pelo romance entre Conrad (Matt Czuchry) e Nic (Emily VanCamp), tanto Matt quanto Emily não entregam a seus personagens nada que os destaquem. As performances deles enquanto pilares da série são monocórdias, automáticas, como se seus históricos em outros programas de sucesso fossem suficientes para manter o interesse da audiência. Nessa quarta temporada o ritmo pode ter sido intenso, mas as rachaduras estavam ali, o tempo todo evidentes.

CoNic

É curioso como, apesar do rodízio de vilanias e dos problemas para manter o hospital funcionando, a quarta temporada começou com o casamento de Conrad e Nic. A série resolveu abordar a pandemia da COVID-19, mas como a doença tem um comportamento padrão e afetou o sistema de saúde também de forma padronizada, nenhuma das maneiras que os roteiristas encontraram de abordar o problema foi nem meramente original. No final das contas, o desenvolvimento da relação do casal protagonista era mais importante. Conrad e Nic ficaram dentro de uma bolha sentimental (casamento, gravidez...), o que ajudou os coadjuvantes a brilharem mais, mas desestabilizou a trama principal.

As boas ideias até estavam ali. A transformação do hospital – que era privado – em um hospital público, foi uma saída inteligente para resolver as tensões administrativas que se arrastavam. Esse é um enredo que quase se recusa a acontecer em séries do tipo. Grey's Anatomy tentou usar duas vezes (na clínica Denny Duquete e no hospital no qual Alex assumiu como diretor), mas logo tudo foi sendo esquecido. Ao invés de pensar em explorar essa realidade a fundo, o time de The Resident acessa as muletas clássicas como quebrar o hospital com furacões ou colocar pacientes irritados para atacar médicos que não serão mortos no fim das contas. Tudo isso é feito com dignidade técnica, mas sem apuro suficiente para não parecer reciclado.

Por sorte, essa foi a temporada dos coadjuvantes. Devon (Manish Dayal) perdeu o pai e isso ajudou o personagem a atravessar os episódios numa boa crescente de amadurecimento. Cain (Morris Chestnut) também teve um arco interessante, que acabou encostando em Mina (Shaunette Reneé Wilson) e em AJ (Malcolm Jamal). Shaunette anunciou sua saída da série um pouco antes da temporada terminar. A notícia não caiu bem para os fãs, já que Mina era uma das personagens mais carismáticas da produção. Ao mesmo tempo, a presença dela em cena sempre sublinhava a discrepância entre sua atuação e a dos protagonistas.

Apesar de tudo isso, a renovação para a quinta temporada chegou. Infelizmente não a tempo de evitar que o final da quarta fosse planejado para ser, também, o final definitivo. Foi interessante perceber que apesar de toda a tentativa de incutir no DNA da série problematizações sociais importantes, os criadores da mesma acreditam que a história de amor entre os protagonistas contém o verdadeiro horizonte por onde eles vislumbram o fim. Se The Resident tivesse terminado aqui, ela teria tido um dos finais mais cafonas e descartáveis entre o amontoado de dramas médicos que se espremem para conseguir o mínimo de relevância. Dava para fazer melhor... Muito melhor.

The Resident
Em andamento (2018- )
The Resident
Em andamento (2018- )

Criado por: Amy Holden Jones, Hayley Schore, Roshan Sethi

Duração: 4 temporadas

Nota do Crítico
Regular

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