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Crítica

The Rain - 1ª Temporada | Crítica

Série dinamarquesa seria ótima se tudo o que ela apresenta já não tivesse sido feito

Rafael Gonzaga
09.05.2018
20h00
Atualizada em
10.05.2018
23h03
Atualizada em 10.05.2018 às 23h03

A Netflix parece ter encontrado na Europa um celeiro de séries originais focadas em ficção científica pós-apocalíptica. Depois da alemã Dark, chegaram ao catálogo os oito episódios da primeira temporada de The Rain, primeira co-produção do serviço de streaming na Dinamarca. Ambientada em uma Escandinávia seis anos após uma chuva misteriosa ter espalhado um vírus mortal e dizimado a população, a trama acompanha dois irmãos ligados à origem do cataclisma e à cura da epidemia. Simone (Alba August) e Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen) estiveram isolados por seis anos e não acompanharam a decomposição do mundo que eles conheciam. Agora, ao lado de outros sobreviventes, os dois tentam encontrar o pai, um cientista ligado ao vírus enquanto tentam sobreviver nesse novo mundo baseado em regras selvagens.

A princípio, The Rain é um prato cheio para fãs do gênero. A série começa com uma agilidade impressionante e todos os elementos clássicos estão lá: o vírus com potencial de dizimar a humanidade, o personagem que carrega a cura, a empresa poderosa e maquiavélica por trás do cataclismo, a mocinha engajada, destemida e motivada pela ética. O problema é que Jannik Tai Mosholt, Christian Potalivo e Esben Toft Jacobsen, criadores da atração, se esquecem do principal: a novidade. The Rain não apresenta nenhum conceito minimamente inédito: parece um reboot de Resident Evil com os personagens de The 100 e as discussões psicológicas das primeiras temporadas de The Walking Dead. E mesmo dentro dessa zona de conforto de apenas reproduzir conceitos icônicos de outras obras, mesmo assim a série falha em vários momentos.

Além da falta de originalidade, a série tem dois outros problemas em destaque. Um deles é a previsibilidade em suas situações-chave. Todos os eventos que decorrem do luto de Rasmus após uma perda desproporcionalmente significativa oscila entre ser ora previsível, ora conveniente - e isso se aplica a diversos outros pontos da narrativa, inclusive ao desfecho da temporada. O outro ponto, aproveitando que Rasmus está sendo usado como exemplo, é a falta de carisma de praticamente todos os personagens. Simone é uma protagonista fraca e a série tenta transmitir a ideia de que ela é um agente restaurador da humanidade em um mundo devastado, mas só consegue passar a sensação de ingenuidade além do aceitável. Rasmus, por sua vez, está no grupo de personagens cujo único traço marcante de personalidade é ser extremamente irritante - ao lado de Patrick (Lukas Løkken).

A cada episódio, são apresentados os backgrounds de cada um dos jovens, algo que não apenas justifica suas personalidades com base em experiências póstumas traumáticas como acrescentando uma ou outra camada de complexidade. Isso ajuda a enxergar cada um do grupo de forma menos unidimensional: Martin (Mikkel Boe Følsgaard), por exemplo, ganha novos contornos aos olhos do público ao ser apresentado como um soldado inseguro antes de se converter em um andarilho. As histórias de Lea (Jessica Dinnage) e Jean (Sonny Lindberg) também conseguem ser emocionantes e são o ponto alto dos dois na série. Seria interessante se o mesmo tivesse acontecido com os irmãos protagonistas: é difícil engolir que seis anos em completo isolamento não exerceram nenhum efeito psicológico explícito neles.

A série não é nenhuma Lost, mas deixa muitas perguntas abertas que, pela forma que são dispostas, soam como incongruências do roteiro. Por exemplo, ninguém questiona a questão da chuva não espalhar mais o vírus ou que tipos de testes foram feitos em Rasmus que não puderam ser realizados em mais ninguém durante os anos que seguiram a chuva mortal, principalmente levando em conta que o pai deles sabia do sucesso da experiência com o caçula. Ao mesmo tempo, The Rain se preocupa em entregar o mínimo para que o espectador se situe cada vez com mais propriedade no que acontece na Escandinávia - o público termina a temporada entendendo um pouco mais as motivações políticas da Apollon, empresa onde o pai de Simone e Rasmus trabalha.

É muito interessante ver o investimento dedicado à primeira temporada da série: as ambientações são impecáveis, tanto no bunker tecnológico quanto na cidade devastada pelos seis anos de abandono. Tecnicamente, as escolhas visuais são acertadas, principalmente no que diz respeito à paleta de cores e à iluminação soturna. É uma pena que, criativamente, a série não aproveite esse potencial. The Rain entretém e, sim,  instiga o espectador - é inegável a curiosidade sobre coisas como as citadas mutações do vírus ou sobre a dimensão dos poderes da Apollon -, mas não chega a ser marcante. No fim, é uma escolha boa para quem é fã de longa data de produções de ficção científica pós-apocalíptica e já viu tudo o que foi feito do gênero - quem chegou agora nesse mundo, pode ocupar o tempo com qualquer produção anterior.

Nota do Crítico
Regular