Cena da série The Offer

Créditos da imagem: Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Offer usa o passado como crítica à Hollywood de hoje

Minissérie do Paramount+, que traz a conturbada produção de O Poderoso Chefão, tem seus erros, acertos e, principalmente, lições para a uma indústria do cinema dominada por franquias e continuações

Omelete
7 min de leitura
Renan Martins Frade
21.06.2022, às 16H06
ATUALIZADA EM 21.06.2022, ÀS 16H34
ATUALIZADA EM 21.06.2022, ÀS 16H34

 

Hollywood está em uma encruzilhada. A fórmula de como se fazia cinema até outro dia não funciona mais. Junto, veio uma era de incertezas e mudanças, na qual a visão artística e o negócio tentam se misturar, mas o resultado mais se parece com o encontro da água com o óleo. Porém, em meio ao caos, surge a oportunidade de ditar o que virá a seguir e de marcar uma nova era.

O parágrafo anterior serve para definir a indústria do entretenimento atual, na época da chamada Guerra do Streaming - com a ascensão meteórica (e, agora, com olhar ao precipício) da Netflix. Mas também se encaixa na realidade de Hollywood na virada dos anos 1960 para os 1970, abordada na minissérie The Offer, do Paramount+.

Com dez episódios semanais completados na última sexta, 17, The Offer (ou A Oferta, em português) é uma crônica dos bastidores da produção de um dos maiores — se não o maior — filmes da história, O Poderoso Chefão, lançado nos cinemas em 1972. Constituída a partir das memórias do produtor Albert S. Ruddy, revela (ainda que com liberdades poéticas) os percalços para se fazer o filme — incluindo desde as dúvidas sobre a escalação do elenco às conturbadas relações do produtor com a máfia italiana em Nova York.

Hollywood adora se autorreferenciar, mas será que a produção de um filme — por mais importante que ele seja — rende uma minissérie minimamente interessante? E mais: para ser a aposta de um novo serviço de streaming, que precisa atrair a atenção de novos assinantes?

A resposta curta: sim, rende.

Para começar, os bastidores de O Poderoso Chefão são únicos. Em parte porque a indústria do cinema vinha de uma grave crise financeira nos anos 1960. Como resultado, os maiores estúdios acabaram comprados por grandes conglomerados. No caso, a Paramount Pictures foi parar na Gulf+Western, que investia em coisas tão diferentes quanto autopeças e cigarros. Os filmes, mais do que nunca, precisavam dar dinheiro. Era mais um desses investimentos — em um setor que não reluzia mais como outrora.

Só que Hollywood vivia (e ainda vive) do glamour. É dessa forma que, em The Offer, conhecemos um dos mais polêmicos e fascinantes executivos que já circulou por aquele bairro de Los Angeles: Robert Evans, em uma interpretação apaixonante e eletrizante de Matthew Goode (que você deve reconhecer como o Ozymandias de Watchmen: O Filme). E é Evans, que atendia pelo cargo de vice-presidente sênior da Paramount, que contrata Ruddy (Miles Teller) para liderar a produção baseada no livro de Mario Puzo (Patrick Gallo).

A partir daí, olhamos com uma lupa uma das mais famosas disputas de poder da indústria do cinema, entre Evans e o então presidente da Gulf+Western, Charles Bluhdorn (em uma também ótima atuação de Burn Gorman). O personagem de Teller fica no meio desse fogo cruzado, queimando e sendo queimado, guiando o olhar do espectador nas inúmeras idas e vindas da produção do filme.

Se Bluhdorn representa o dinheiro e Evans é o homem que tenta se equilibrar entre a responsabilidade artística e as cifras, The Offer também dá bastante espaço para o espectador entender o processo artístico na produção de um filme. Qual a função do produtor? Como se chega do livro ao filme pronto? Como são feitas escolhas como o elenco, iluminação e muito mais?

Para essa última parte não há guia melhor: Francis Ford Coppola, interpretado por Dan Fogler (de Animais Fantásticos e Onde Habitam). O diretor foi uma das forças motrizes da mudança criativa daquela época, na chamada Nova Hollywood - ao lado de seus amigos, os Movie Brats, gente como George Lucas, Martin Scorsese, Brian DePalma e Steven Spielberg.

É como se nós fossemos convidados, no papel de testemunhas, para acompanhar a formação do cinema moderno. Se hoje você está aqui, lendo essa crítica no Omelete, é um pouco graças ao que esse pessoal fez.

O elefante (e a cabeça de cavalo) na sala

Ao se contar uma história como a de The Offer, um dos maiores riscos é se tornar chapa-branca. Afinal, são os relatos do próprio Al Ruddy, que assina a série como produtor executivo, que são a base de tudo. Para piorar, trata-se da Paramount falando da própria Paramount. É fácil enaltecer a si mesmo e esconder falhas de caráter debaixo do tapete.

Felizmente, não é o que acontece.

Claro, há um certo tom ufanista ao se ressaltar a importância do próprio estúdio, com o dia a dia da produção ganhando um ar de história sendo feita que, na realidade, deve ter passado longe dos estúdios. Ainda assim, a Paramount não alivia no retrato de seus ex-chefões, mostrando as bebedeiras, os exageros e até o uso de drogas. Mais do que isso: Ruddy não alivia no retrato de si mesmo.

Sem meias-palavras, a série revela como o produtor se envolveu com a máfia (a verdadeira) para conseguir que o projeto saísse do papel. Joe Colombo, líder de uma das Cinco Famílias de Nova York, militou ativamente contra o longa-metragem — até ser persuadido por Ruddy. No final, a máfia não só se torna uma peça importante da produção como integrantes da Família Colombo atuam no longa. Tudo isso é retratado em The Offer.

Nem tudo é perfeito, é claro. Enquanto a atuação de Matthew Goode é magnética e Juno Temple está incrível como a secretária (e faz tudo) de Ruddy, nem todos em cena estão confortáveis em seus papéis. Anthony Ippolito, por exemplo, carrega de forma exagerada nas cores do seu Al Pacino, em uma atuação que (como outros elementos da série, diga-se) beira à paródia.

Não por menos, The Offer escolhe um caminho inteligente: os trechos mais memoráveis, sejam do próprio filme ou fora de cena, não são mostrados. Afinal, é uma produção autoconsciente de que Ippolito não é Pacino, ou de que Justin Chambers (de Grey’s Anatomy) não é Marlon Brando.

Aliás, é essa autoconsciência que rende uma das mais interessantes cenas da minissérie. É quando Ruddy, Coppola, Bettye McCartt (Temple) e Puzo vão até a casa de Brando. O ator, então, se transforma na frente deles — mostrando qual a visão que tinha para Don Corleone.

Nós, enquanto espectadores, não vemos o resultado final dessa transformação. Trata-se de um momento mágico, único: o nascimento de um dos mais icônicos personagens da história da sétima arte - e tentar reproduzir isso nunca faria jus ao acontecimento original. Dessa forma, por meio de uma câmera subjetiva e pela reação dos presentes, somos convidados a imaginar o que eles viram. O impacto é, certamente, maior.

O roteiro é, também, um problema. Se em O Poderoso Chefão a extensão da história foi criticada internamente na Paramount, é como se The Offer brincasse com isso de forma metalinguística, ainda que sem querer. Para preencher o pedido de dez episódios do Paramount+, a série vai excessivamente em alguns detalhes, como as idas e vindas da produção e os detalhes técnicos, além de trazer subenredos que não agregam tanto à história principal.

Pode ser fascinante para quem ama cinema, mas será que o público em geral realmente se preocupa com tudo isso? Ou é apenas encher linguiça por necessidades comerciais?

A lição para o mundo de hoje

É aí que chegamos na autocrítica que The Offer busca trazer. Os bastidores de O Poderoso Chefão dizem, gritam até, que muitas vezes a escolha artística deve prevalecer em relação à decisão financeira. Às vezes, é preciso assumir grandes riscos para se construir algo realmente icônico na sétima arte.

Porém, hoje, há cada vez menos espaço para isso. Hollywood quase não aposta mais em grandes histórias originais, apenas em sequências e franquias pré-estabelecidas. Decisões que deveriam ser tomadas de forma puramente artística, ou pelo feeling, são dominadas por algoritmos ou escolhas fáceis baseadas em números.

Aliás, a própria The Offer pode ser enquadrada no clichê de “série de algoritmo”. Traz a co-estrela de um filme que deve chegar a US$ 1 bilhão de bilheteria nos cinemas (Teller), a coadjuvante de uma série de sucesso do streaming (Temple, que está em Ted Lasso), a produção executiva de um cineasta de recente sucesso no estúdio (Dexter Fletcher, diretor de Rocketman) e, por fim, é baseada no longa-metragem que ainda deve ser muito assistido no Paramount+.

Confesso: adoraria ver mais séries como The Offer — uma dos bastidores da Netflix, como o próprio Paramount+ está fazendo com Super Pumped, sobre a Uber, é tentadora. Porém, o que a minissérie recém-concluída revela é mais do que isso. É que, em tempos de incerteza e mudança, são as mentes criativas e as pessoas que assumem riscos que se sobressaem e marcam época.

É como o Evans de Goode diz em um dos momentos mais importantes do nono episódio: “Nós não estamos oferecendo uma transação ao público. Estamos oferecendo uma experiência. Precisamos evoluir com as pessoas, precisamos liderar a revolução ou vamos ficar para trás. [...] Não podemos ficar pensando no que o público quer ver. Precisamos mostrar a eles o que precisam ver.

Eu complemento: não precisamos de mais algoritmos ou sequências, nem de continuações intermináveis e universos compartilhados. Precisamos de novos Coppolas, Ruddys e Evans. Pelo bem desse entretenimento que tanto amamos.

Essa é a verdadeira oferta que Hollywood não pode negar. 

The Offer
Encerrada (2022-2022)
The Offer
Encerrada (2022-2022)

Criado por: Michael Tolkin

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Bom

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