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Créditos da imagem: The OA/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The OA - 2ª temporada

Depois de um hiato de quase três anos The OA retorna com universo expandido, para o bem e para o mal

Henrique Haddefinir
26.03.2019
09h44
Atualizada em
05.08.2019
14h37
Atualizada em 05.08.2019 às 14h37

Quando The OA estreou no Netflix, quase três anos atrás, chamou a atenção de todos os espectadores que foram seduzidos por uma sinopse que dava apenas uma pequena ideia de que havia um mistério para ser resolvido. Parecia só mais uma produção do gênero, mais uma tentativa de elegantizar os clichês das “séries de resolução”. Porém, após uma passada de olhos mais atenta na produção, ficava claro que estávamos diante de uma criação cheia de peculiaridades, simbologias e licenças metafóricas, que, de repente, estava transmutando parte de sua narrativa recorrente em poesia física.

Era um conceito inovador, de certa forma. A dramaturgia da série se construiu de uma maneira diferente, levando a um clímax que tinha a ver com uma “dança”, uma manifestação visual coreografada, descrita passo a passo pelos episódios, gerando uma catarse admirável em quem estavam acompanhando aquele momento. Uma simples dança, uma analogia com um ritual de passagem, algo que mudaria a trajetória de Prairie (Britt Marling) para sempre. E que, obviamente, seria a ponte para o futuro do seriado. Um futuro demorado, quase esquecido, que foi justificado por sua criadora com uma mensagem categórica: estamos tentando criar uma outra forma de contar histórias e a demanda de concepção teve o tempo que precisou ter para se configurar.

A Parte 2 da série chegou ao catálogo da Netflix esse mês e fica evidente que o tempo de espera teve muito mais a ver com concepção do que com produção. Depois de um primeiro ano que seguia calmamente, sem exageros ou transformações eloquentes, a segunda parte é tomada de ansiedades narrativas. Como acontece com a maioria das produções de ficção científica, o universo começa a se expandir e isso tem fatores positivos e negativos. Como estamos falando de uma produção muito lúdica, cheia de bifurcações oníricas, os passos de expansão dados por ela podem incluir as mais diversas possibilidades. The OA, então, decide ser menos poética e mais ilustrativa, produzindo uma temporada que ainda é muito ousada, mas que flerta perigosamente com o exagero.

Nina

Como era de se esperar, a parte 2 começa com uma narrativa completamente paralela. Começamos a acompanhar as investigações de Karim Washington (Kingsley Ben-Adir), que está em busca da menina Michelle, perdida por dias depois de se envolver num jogo que aparentemente tem algo a ver com uma tal de Nina, que logo descobrimos tratar-se de Prairie. Os movimentos compartilhados por ela e seus amigos na sequência final da parte 1 a levaram até uma outra dimensão, um outro universo, em que nem tudo está ajustado como deveria. Prairie ocupou a vida de Nina, consegue percebê-la em si, mas tem plena consciência de como e de onde veio. A partir daqui a temporada se foca bastante em estabelecer diálogos indiretos entre os dois “mundos” que se instituíram e que se chocam eventualmente.

Enquanto a parte 1 colocava dúvidas sobre as teorias de Prairie e insinuava que os objetivos a serem conquistados nos movimentos tinham a ver com as experiências de quase morte, a parte 2 estabelece de modo claro a sua mitologia: as pessoas que quase morreram tem acesso a um campo de visão diferente e os movimentos feitos por elas abrem uma espécie de portal desse multiverso, tornando-se uma espécie de coringa da narrativa. Um coringa bem utilizado, é preciso admitir. Estamos cercados de séries que já usam os multiversos como base, mas The OA consegue fazer isso com peculiaridade, saindo um pouco do lugar comum.

Com essa expansão tão grande, vieram os exageros. Há momentos da temporada que poderiam facilmente ter sido excluídos do roteiro (mais alguém acha que estou falando do polvo?). A criadora toma decisões estilísticas quase sempre competentes, mas a necessidade de enigmatização (típica desse tipo de série) prejudica a credibilidade. Muitas das metáforas ou licenças são gráficas demais, sublinhadas demais, gerando uma certa deselegância. No primeiro ano nunca questionamos estranhezas, porque elas vinham acompanhadas de um embasamento emocional. Agora, contudo, algumas dessas estranhezas são apenas estranhezas, ilustrações redundantes ou superestimadas. Nada que prejudique totalmente a série, mas preocupante. O núcleo “vivo”, que ficou na cidade depois que Prairie atravessou, ainda é o mais carismático e merecia ter mais atenção. São eles, nas suas fugas da mediocridade, que tornam a série mais próxima de nós.

Então, a sequência final veio para causar a estranheza definitiva. The OA continua bonita, bem atuada, escrita e dirigida. Mas a sequência final é tão ousada, tão forte, tão “fora da casinha”, que pela primeira vez pode ser que estejamos diante ou de seu apogeu ou de seu declínio. Stephen King já tinha usado um recurso parecido em A Torre Negra e as possibilidades que esse recurso abre são inúmeras. É um risco tremendo, uma iminência de rejeição quase inevitável, mas, ainda assim, uma decisão das mais incríveis dos últimos anos. Se houver a terceira parte, a convergência de todos esses universos pode ser um dos maiores eventos narrativos dos últimos tempos.

Nota do Crítico
Ótimo