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Crítica

The Night Of | Crítica

Apesar dos tropeços, a minissérie é uma das melhores obras de suspense do ano

Guilherme Jacobs
29.08.2016
13h20
Atualizada em
29.08.2016
12h22
Atualizada em 29.08.2016 às 12h22

Há um momento no último episódio de The Night Of no qual Jack Stone (John Turturro), advogado do protagonista da minissérie e principal suspeito em um caso de assasinato, Nasir "Naz" Khan (Riz Ahmed), apresenta seu argumento final em defesa do jovem, acusado de matar Andrea (Sofia Black-D'Elia) depois de uma noite de drogas e sexo com a garota. É um momento que não vai surpreender ninguém, uma cena que era esperada nesse tipo de história - mas ainda assim, é difícil não ficar com um nó na garganta. 

Isso é The Night Of. A minissérie, adaptação aos Estados Unidos da produção britânica Criminal Justice, tem produção do falecido James Gandolfini e foi co-criada por Richard Price (The Wire) e Steve Zaillian (Gangues de Nova York), e não traz uma gama de novidades para o mundo da televisão atual. Pelo contrário, ela bebe de grandes sucessos como OzThe WireFamília Sopranos e tantos outros. Até os atores, nos papéis grandes e pequenos, são puxados de outras produções da HBO. A diferença, tanto de The Night Of quanto da cena na qual Turturro, se houver justiça no mundo, garante sua indicação ao Emmy de melhor ator em minissérie no ano que vem, é que há um nível de qualidade e polimento que normalmente não existe. 

Há várias histórias aqui. A de Naz, um civil jogado na prisão que se transforma, com ajuda de um preso veterano, por causa disso. A de Stone, um advogado de madrugadas que, do nada, entra no caso de sua vida. A do detetive Dennis Box (Billy Camp) que não consegue se aposentar sabendo que seu último caso, talvez o mais importante de sua carreira, termine com uma sombra de dúvida. A do sistema judicial que envolve figuras como o Juíz Roth (Glenn Fieshler), a procuradora Helen Weiss (Jeannie Berlin) e a outra advogada de Naz, Chandra (Amara Karan) - figuras que durante os oito episódios vêem esse mesmo sistema saindo de seu controle - e sobre como a cidade de Nova York pode ser imperdoável, até para uma família do subúrbio. 

Essas não são histórias novas. Há diversas produções que focam apenas em um destes tipos de narrativa, mas The Night Of brilha ao encontrar um ponto de encaixe perfeito entre todas. A minissérie, que pode ser descrita como parte drama judicial, parte drama policial e parte drama de cadeia, entende que nós vamos nos manter presos na frente da TV se existirem pessoas interessantes e um gancho bom o suficiente. 

A segunda metade dessa equação é o primeiro (e melhor) episódio, no qual vemos a noite em questão se desenrolar de uma maneira brilhante e aterrorizante. Sem perceber o que acontece a sua volta, Naz entra em uma espiral sem saída e quando ele é finalmente identificado pela polícia como principal suspeito, o soco no estômago é como a punchline de uma piada de mal gosto. A energia presente no piloto causa vibrações que ajudam todos os capítulos seguintes. Por ser uma minissérie com poucos episódios, The Night Of consegue se aproveitar disso e termina na hora certa. 

O desenrolar da investigação e julgamento de Naz é lento, metódico e, em sua maioria, excelente. Algumas decisões tomadas por personagens em momentos importantes da história, particularmente Chandra, são no mínimo questionáveis e não se encaixam bem com o resto da narrativa. O saldo final, entretanto, é positivo.

A atmosfera perigosa da prisão, comandada com o punho de ferro de Freddy (Michael Kenneth Williams) é densa e deixa qualquer um tenso do primeiro ao último minuto do núcleo narrativo contado atrás das grades. A investigação comandada por Box e Stone é instingante e os suspeitos levantam teorias interessantes; e o processo judicial, a mais fraca das três áreas, é competente e termina de uma maneira incrivelmente satisfatória. 

Tudo isso, entretanto, só funciona porque Price e Zaillian colocam as pessoas no centro de tudo. Os momentos em que The Night Of não funciona tão bem é quando ela tem que servir um enredo. Nestas horas, as engrenagens do roteiro ficam bem claras. Mas quando entendemos melhor as mentes de Naz e Stone, os dois principais pilares da história, é aí que tudo funciona. Todo o estilo que vem da fotografia, trilha sonora e design de produção seria vazio sem eles.

Naz e Stone são ótimos personagens no papel e nas atuações. Ahmed e Turturro acertam em cheio em todas as suas cenas, momentos que não convenceriam nas mãos de atores mais fracos funcionam nas mãos deles. Do seu ponto inicial, passando pelas transformações físicas e mentais, até a última conversa que ambos têm antes dos créditos finais, acreditamos neles.

Televisão funciona por causa de pessoas. A razão pela qual o meio se tornou o paraíso de muitos roteiristas é porque há espaço e liberdade para criar e desenvolver seus personagens, o que tem atraído cada vez mais atores de alto calibre. Dos menores personagens até os que raramente saem da tela, The Night Of acerta em cheio. Talvez o roteiro se desenrole de formas estranhas aqui e ali, mas a história contada é ótima - graças a seus protagonistas.

Nota do Crítico
Ótimo