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Créditos da imagem: The Marvelous Mrs. Maisel/Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Marvelous Mrs. Maisel - 3ª temporada

Miriam Maisel sai em turnê e isso resulta na temporada mais agitada e surpreendente do sucesso da Amazon Prime

Henrique Haddefinir
17.12.2019
13h40
Atualizada em
17.12.2019
18h28
Atualizada em 17.12.2019 às 18h28

Amy Sherman Palladino, criadora de The Marvelous Mrs. Maisel, escreve com uma compulsão apaixonada. Capaz de entregar diálogos extremamente rápidos, com dezenas de palavras por minuto e cheios de humor provocativo, a responsável direta da série ganhou notoriedade no mercado após ter conseguido a atenção da crítica com Gilmore Girls, uma série voltada para o público adolescente, mas que tinha um grupo de personagens nada comuns para uma produção do gênero. A cidade onde se passava a história era tomada de tipos excêntricos e raciocínios rápidos. Qualquer semelhança com Mrs. Maisel não é coincidência.

Ninguém nas produções de Palladino diz coisas desinteressantes. Os personagens podem dizer coisas loucas ou foras de contexto, mas nunca dizem coisas desinteressantes. Isso porque o texto sempre foi mais importante para a autora do que o que acontece. Por essa razão é que Gilmore Girls tinha tão poucos pontos de tensão e que Mrs. Maisel segue a mesma cartilha. A autora consegue um feito respeitável em suas séries, que é nos fazer nos envolver com a palavra, com a forma como ela é manipulada de maneiras sagazes, nos levando a criar uma imensa simpatia por quem as está dizendo.

Além da protagonista feminina forte que também é uma característica do trabalho de Palladino, todos aqueles que a rondam seguem uma espécie de “melodia”, com reações e falas que ajudam a construir um eficiente universo pouco realista dentro de uma indiscutível realidade. Por mais que as pessoas na vida real não falem do jeito que eles falam ou não tenham uma resposta esperta para tudo, nenhuma das situações vistas, absolutamente nenhuma delas, está no campo da fantasia. A vida de Miriam Maisel é quase – apenas quase – um tratado de magia, mas como uma mulher de seu tempo, ela continua sem muita permissão para sonhar.

“Coloque isso no seu prato”

A apreensão causada pelo season finale passado, com Midge (Rachel Brosnaham) indo atrás de Joel (Michael Zegen), foi prontamente resolvida. Os fãs de Gilmore Girls provavelmente se lembraram de quando Lorelai (Lauren Graham) fazia a mesma coisa com o pai de sua filha, correndo para ele toda vez que sentia a solidão como um resultado inevitável das próprias escolhas. Para o bem da série, a noite com Joel foi apenas um cliffhanger e assim que voltamos para a terceira temporada o mundo de Midge estava nos esperando com uma promessa de aventuras em várias cidades dos Estados Unidos.

Mesmo sem muita pretensão de movimentar a narrativa com reviravoltas, a criadora da série providenciou um enredo que colocou todos os personagens em novas realidades. Midge foi para a turnê, mas a relação dela com Susie (Alex Borstein) se abala quando a agente decide pegar Sophie Lennon (Jane Lynch), sua grande inimiga, como cliente. Além disso, os pais de Midge também veem tudo virar de cabeça para baixo quando Abe (Tony Shalhoub) desiste de lecionar e Rose (Marin Hinkle) decide abrir mão da herança de família, o que faz a trupe precisar se mudar de casa e cair de padrão.

Com dois episódios a menos que na temporada passada, a série assume um ritmo nervoso logo na estreia e não deixa a velocidade diminuir nas horas seguintes. A turnê de Shy Baldwin (Leroy McClain) não só leva Midge e Susan para um universo de novas possibilidades, como também reforça o talento técnico da série, que continua impecável em sua reconstrução de época cheia de figurinos espetaculares e muita, mas muita fumaça de cigarro. Susie e Midge correm pelos corredores de hotéis e cassinos, discutindo contratos, discutindo Sophie Lennon e isso é realmente muito eficaz para manter a série interessante e vívida.

O amigo ou a piada?

É claro que a turnê também dimensiona melhor Shy Baldwin, entregando ao personagem mais que sua persona pública. O mesmo também acontece com Sophie, que decide ser uma atriz séria e precisa de Susie para convencer o mundo disso. Mesmo que Jane Lynch ainda seja assombrada por Sue Sylvester, ao passo em que a investida teatral da personagem avança, ela vai mostrando outras camadas bastante surpreendentes. Infelizmente, nossa amada Liza Weil, que vivia a inesquecível Paris de Gilmore Girls, não tem uma participação igualmente marcante na temporada. Sterling K. Brown (de This is Us) também se juntou ao elenco convidado e poderia ter um pouco mais de tempo de tela para desenvolver seu personagem.

Esse terceiro ano, enfim, também pode ser considerado uma grande prova de que Amy Sherman sabe para onde quer ir, mesclando sucessos e fracassos na balança da protagonista, impedindo que toda a linguagem extremamente teatral do texto obrigue a história a ser inverossímil. Tem muita coisa dita ou feita na série que é organizada para ser um quadro ideal de como o ser humano deveria se expressar, mas alguns dos pesares vividos pelos personagens são respeitados em suas composições dramáticas.

Midge cresce a cada dia, avança em cada apresentação, vence obstáculos com carisma, mas ela precisa levar em consideração o pai, a mãe, os filhos, o ex-marido e isso – no caso de uma comediante que fala da própria vida – inclui também o dilema entre privacidade e provocação. Ninguém é capaz de prever como se sentirá diante de uma piada, mas o comediante sabe que a piada pode ser feita. A maravilhosa Mrs. Maisel viu o sucesso, o medo, a raiva e a dúvida se misturarem nessa terceira temporada. Mas, o final tão suspenso quanto o anterior determina sua lição mais dura e mais cheia de consequências. O quarto ano terá o filtro de um trauma e diante da estupenda qualidade da série, mal podemos esperar para vê-lo.

Nota do Crítico
Excelente!