Foto de The Handmaid's Tale

Créditos da imagem: The Handmaid's Tale/Hulu/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Handmaid’s Tale - 3ª temporada

Série continua poderosa, mas terceiro ano sofre com roteiro lento e desgaste da história

Camila Sousa
16.08.2019
13h08

O título de “temporada perfeita” é algo pesado de carregar. Quando estreou em 2017, The Handmaid’s Tale foi considerada dessa forma: a história de resistência de June, o roteiro redondinho e a bela fotografia fizeram a série ser aclamada pelo mundo. O segundo ano já foi diferente. Com cenas extremamente pesadas (e muitas vezes, desnecessárias), o seriado foi acusado banalizar o sofrimento apenas para chocar e o showrunner precisou comentar as reações negativas ao desfecho.

Assim, o terceiro ano de The Handmaid’s Tale chegou com uma grande dúvida: será que a qualidade seria retomada, ou o seriado seguiria o caminho de várias outras produções que pioram a cada ano? Colocando de forma simples, os 13 novos episódios não se encaixam em nenhum dos lados. Houve sim uma melhora em comparação com a segunda temporada, mas a série sofreu com o roteiro lento e uma história desgastada, ficando longe da qualidade mostrada no começo.

Uma das mudanças foi em relação à violência física. A produção da série claramente ouviu as críticas sobre as cenas gráficas do ano anterior, incluindo o estupro de June quando ela estava grávida. A frequência diminuiu e agora os embates e desgastes são mais psicológicos. Ainda há a punição física para as Aias e Marthas e cenas fortes aparecem quando são realmente necessárias, mas muitas coisas são mais pensadas do que feitas. O problema é que tal introspecção não foi dosada corretamente na história. Enquanto o começo da temporada e o final contam com grandes acontecimentos que avançam a trama, o meio ficou extremamente arrastado. Ao tentar corrigir o aspecto da violência, os roteiristas deixaram muitos episódios que começam e terminam no mesmo lugar. Há uma regra narrativa que diz: se uma cena não avança nada na história, pode ser cortada. Se isso fosse feito na terceira temporada, The Handmaid’s Tale contaria com, no máximo, uns seis episódios.

Isso também aponta para um certo desgaste. Enquanto o primeiro livro de Margaret Atwood foi a base para o primeiro ano, o segundo e o terceiro seguem com a supervisão da autora, mas sem um material de base tão concreto, algo refletido claramente na história e no desenvolvimento de June. Além de a trama seguir muito lentamente, as decisões da protagonista deixam o público confuso. Quando o universo de Gilead foi apresentado, ficou muito claro que o local é repleto de regras rígidas e que as punições acontecem o tempo todo, até para o menor “deslize”. Mas a June da terceira temporada parece não se incomodar com isso. Ao ir para a casa de um novo comandante, ela se arrisca demais e toma decisões perigosas, chegando a ouvir de uma Martha a frase: “você se esqueceu de onde está?”. Além disso, quando tais ações passam sem punição a série se torna incoerente. Fica a impressão de que o roteiro, já frágil pela falta de acontecimentos, adotou certas conveniências para chegar ao final desejado.

Força das mulheres

Embora a história de June seja a mais confusa da temporada, ela curiosamente ocupa mais tempo de tela do que antes. Houve muitos acertos, como o episódio sobre o passado de Tia Lydia e a adaptação de Emily a sua nova vida, mas a figura de Serena, por exemplo, passa vários episódios distante e volta apenas no final. O que é realmente uma pena, primeiro pela atuação incrível de Yvonne Strahovski, e segundo pela expectativa criada sobre a relação dela com Fred. Há sim um ou dois momentos na temporada que entregam isso, mas a sensação é que a personagem foi deixada um pouco de lado.

The Handmaid’s Tale realmente volta a ser o que era quando trata de questões profundas das mulheres, como a maternidade. A falta que June sente de Hannah e Nichole é seu grande combustível para lutar, e o mesmo acontece com Serena, que joga toda a sua vida para o alto pela chance de segurar a bebê mais uma vez. A relação da personagem com a maternidade, aliás, é um capítulo à parte. Serena se sente “menos mulher” e “menos digna” quando está longe de Nichole, ou quando a criança estranha sua presença depois de tanto tempo longe. São apenas detalhes, mas o incômodo que Strahovski demonstra no olhar transforma um momento simples em algo poderoso.

Além da maternidade, que aparece em outras camadas com o esforço das Marthas pelas crianças, a união feminina é o que faz com que The Handmaid’s Tale permaneça relevante. Mesmo com todos os problemas já citados, a série emociona quando June recebe um toque nas mãos de uma das Marthas; quando Serena pensa na vida que tem enquanto olha para um passarinho em uma gaiola, em uma clara alusão a sua condição; ou mesmo quando June e a Esposa Eleanor conversam sobre a vida “de antes” e seus projetos. A troca entre mulheres está intrincada no roteiro de The Handmaid’s Tale e isso só cresce com o decorrer dos episódios, culminando em cenas que trazem lágrimas aos olhos. Infelizmente, essa emoção demora para chegar. 

A história termina com várias pontas soltas para serem resolvidas na já confirmada quarta temporada, mas o desenvolvimento destes episódios acende um sinal de alerta. Chegou a hora de The Handmaid’s Tale reencontrar sua própria identidade e preparar o final de suas personagens, antes que a série caia naquele limbo muito comum da história que se estende além do necessário.

Nota do Crítico
Bom