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Crítica

The Good Fight - 2ª Temporada | Crítica

Christine Baranski brilha na segunda temporada de um dos melhores dramas da atualidade

Henrique Haddefinir
30.05.2018
08h19
Atualizada em
29.06.2018
02h38
Atualizada em 29.06.2018 às 02h38

A advocacia sempre foi uma carreira ambígua, cercada de linhas tênues entre ética, moral e princípios. Sobretudo a advocacia glamorosa dos programas de TV, perpetuada depois de anos de séries como a própria The Good Wife, que serviu de base para o que os criadores Michelle King e Robert King fizessem o spin-off. Pagos para defender ou acusar, os advogados são mestres da argumentação, capazes de encontrar brechas na lei para inocentar até o mais cruel dos assassinos ou levar para o corredor da morte um réu inocente. É uma profissão que exige flexibilidade moral, já que o trabalho de um advogado pode modificar drasticamente a vida de uma pessoa, para sempre.

CBS All Access/Divulgação

Os criadores de The Good Fight sempre tiveram uma queda por essas ambiguidades. Quem assistiu The Good Wife sabe que nem sempre Diane (Christine Baranski), Alicia (Julianna Margulies) e Will (Josh Charles) faziam a “coisa certa” e muito do dinheiro que ganhavam vinha de absolvições que machucariam a dignidade de qualquer pessoa regular. O mundo daqueles personagens era cercado de acordos milionários e intrigas afortunadas. Sobretudo lá, a relação de afeto com o lado negro da força era uma constante, o que talvez tenha levado os mesmos criadores a tornarem o spin-off um exercício filosófico a respeito. 

Assim, depois de passar a primeira temporada investigando o escândalo que envolvia a família de Maia (Rose Leslie)The Good Fight voltou com uma proposta menos centralizadora e colocou seus advogados na linha de frente do combate. O título da série nunca fez tanto sentido quanto agora, quando os personagens passaram a ter que – literalmente – lutarem pela própria vida, quando uma onda de atentados contra advogados começa a tomar conta de Chicago. Chegou o momento, então, de ver a firma reconsiderar passos, investigar os próprios erros e saber também como gostaria de proceder no caminho que se segue.

Dirty Diane

Com três episódios a mais, a segunda temporada pôde se planejar muito bem e garantir que em nenhuma das semanas não houvesse nada a dizer. Essa provavelmente foi a melhor coisa a respeito desse ano: ele sempre tinha o que dizer. O universo de The Good Fight está cercado de detalhes limítrofes que vão desde as questões raciais que envolvem a firma (que antes só tinha negros), até as questões de gênero. Todas as personagens mais fortes do show são mulheres e essa fortaleza coletiva vai desde a sócia até a secretária. Marissa (Sarah Steele), por exemplo, cresce tanto que sua importância na resolução dos eventos se tornou indispensável (e ela se tornou investigadora).

É bem verdade que depois de um primeiro ano muito focado em Maia, os roteiristas resolveram dar mais atenção às vidas de Lucca (Cush Jumbo) e Diane. Lucca viu-se num zona de perigo assim que a temporada começou: a mesma zona que condenou Kalinda ao limbo lá em The Good Wife. Assim como Kalinda, Lucca tem uma casca pessoal dura, tem dificuldades de demonstrar sentimentos e fraquezas, é cínica e irônica. Quando engravidaram a personagem, tornaram sua relação com Colin (Justin Bartha)  uma parte importante de sua trajetória. Contudo, não erraram a mão dessa vez. O casal funcionou, tinha química, a gravidez foi tratada com segurança e ver Lucca compreendendo que sua amizade com Maia e Marissa era, de fato, a coisa mais emocional de sua vida, foi bem bonito.

Mesmo assim, a temporada foi de Diane, que nunca teve – em sete anos de The Good Wife – um conjunto de episódios que levassem sua personagem para tantas nuances como dessa vez. Alterada quimicamente ou carregando uma arma na bolsa, Diane passou pelos eventos da temporada marcando todo o território a unha. A rivalidade e admiração por Liz (Audra McDonald) ajudou nesse colorido, porque Diane nunca foi capaz de confiar muito em outras mulheres. Verdadeiramente, a perseguição aos advogados levou a personagem a rever a própria história de uma forma impressionante. Num mesmo episódio, Diane passou de democrata convicta à uma mulher profundamente assustada, que se arma por medo, exatamente como as convicções republicanas levam o cidadão americano a se comportar. Em seu trabalho, Baranski conseguiu aprofundar essas nuances e torná-las parte de um processo notório de amadurecimento.

Isso sem falar na elegância da série. The Good Fight tem um dos melhores textos da televisão atual, cheio de provocações políticas e referências culturais que viram deleite para o espectador. A direção dos episódios é limpa, firme, sem exageros e arestas. O episódio da invasão que leva ao atentado dentro da firma é um exemplo do quanto eles podem ser brilhantes numa produção que custa tão pouco para ser feita. A série é completa e absolutamente baseada em texto, em sagacidade e inteligência. Há, ainda, cliffhangers importantes para o ano 3. Toda a tramaenvolvendo a investigação contra Diane vai repercutir pesado nos eventos futuros, que incluem um embate contra Ruth e um mistério sobre quem anda praticando espionagem direta.

Se a terceira temporada continuar nesse nível de excelência, não há a menor chance de The Good Fight não manter seu posto de grande drama contemporâneo. É como se os Kings tivessem entendido que muito melhor do que ser moralmente flexível e financeiramente ambicioso, é ser tudo isso e também ser – vejam só – humano.

Nota do Crítico
Excelente!