Séries e TV

Crítica

The Good Doctor - 1ª temporada

Novo projeto de David Shore repete os vícios de House, mas é opção para quem busca entretenimento puro e simples

Henrique Haddefinir
01.04.2018
10h46
Atualizada em
23.08.2018
17h06
Atualizada em 23.08.2018 às 17h06

Quando estreou, em 2004, House ganhou todas as atenções por apresentar um protagonista que era completamente inspirado nas amoralidades que fizeram de Tony Soprano (de The Sopranos) um divisor de águas na dramaturgia televisiva. House era um “adorável odiado”, um homem medíocre e ranzinza, mas que tinha em seu talento a proteção contra a rejeição do público. E era assim com todos os protagonistas amorais que vieram depois de Sopranos: eles eram pessoas péssimas, mas talentosos ou simplesmente empáticos. A TV tinha descoberto um novo modo de provocar as emoções do espectador.

Anos depois a nova empreitada do criador de HouseDavid Shore, tem uma atmosfera de zona segura que incomoda um pouco. Não é a primeira vez que isso acontece na carreira de um showrunner... De um jeito ou de outro, quando se cria um grande sucesso, se cria uma fórmula, levando à pressão de repetir o sucesso seguindo os mesmos códigos. E isso não é errado, de forma alguma, desde que a cópia não seja tão exata a ponto de parecer que um produto terminou e outro começou só com um rosto e um nome diferente.

The Good Doctor já não começa bem no título (O Bom Médico, em tradução livre). A quantidade de séries com “The Good” no nome já é alarmante (The Good Wife, The Good Place, The Good Fight...). Pode não parecer, mas a decisão de colocar esse título também é uma maneira de captar o condicionamento do público, que já está acostumado a acreditar que títulos assim representam algo de especial. Não há inventividade e infelizmente essa ideia de recorrências persegue a trama por todos os episódios desse primeiro ano.

The “Good” Option

A trama da série segue os passos do jovem médico Shaun (Freddie Highmore), que teve uma infância complicada por sofrer de autismo e ter nisso um provedor de obstáculos constantes na comunicação e no entendimento do comportamento social vigente. Shaun foi tutorado pelo Dr. Aaron Glassman (Richard Schiff), que consegue para ele uma vaga como residente no importante hospital onde trabalha. A admissão do jovem causa uma comoção em torno do quanto seu transtorno pode ou não ser seguro para as vidas dos pacientes e para o trato com os familiares. Como esperado, Shaun tem um grande talento diagnóstico e é isso que justifica sua presença entre os outros candidatos.

A escalação de Highmore é um problema latente da produção. O ator passou quatro anos na pele do complexo e psicopático Norman Bates e sua linha de atuação precisava levar em consideração os transtornos daquele protagonista. Bates Motel acabou muito recentemente e Highmore vive outro personagem que tem signos de comportamento extremamente específicos. Shaun e Norman são diferentes nas suas motivações, mas a persona de Freddie Highmore tem dificuldades de separar essas duas criações. Seu esforço para imprimir gestos e olhares diferentes, condizentes com o perfil autista, é perceptível. Mas, para quem acompanhou Bates Motel, a confusão está presente. Highmore, porém, é um ator dedicado ao longo dos 18 episódios começa a ficar mais seguro do novo papel.

As atenções, entretanto, não estão só sobre ele. No que diz respeito a história da série, pouco se percebe que não vá além do procedural básico (que foi, aliás, a grande pegada de House). É uma estrutura absurdamente cristalizada, com pacientes chegando com problemas impossíveis que serão solucionados, em alguma instância, por interferência de Shaun. Eventualmente ele erra, mas sua trajetória sempre é afetada por essa inerência da superação. Sabemos que os médicos que não acreditavam nele vão se arrepender, que ele será importante para vários pacientes, que em breve seu jeito peculiar de ver o mundo (com extrema honestidade) vai comover todos que o cercam. The Good Doctor não dá um passo fora da linha.

Essa primeira temporada tem na discussão ética sobre contratar um autista como cirurgião, seus melhores momentos. Os dramas dos personagens secundários não são menos que novelescos. Um deles some e prejudica a história, alguns atendentes do hospital aparecem e desaparecem sem a devida apresentação. Mas, o texto se segura com o mínimo de elegância. O ponto é que – assim como foi com House – The Good Doctor foi criada para ser um programa seguro, com aquelas historinhas que terminam sempre no mesmo episódio, que podem ser vistas até fora de ordem, porque o foco aqui é entreter o espectador com conforto e não necessariamente com ousadia.  

A segunda temporada está garantida e quem deseja entretenimento puro e simples, sem inventividade (o que não é um problema), já sabe onde encontrar. The Good Doctor é a melhor opção.

Nota do Crítico
Bom