The Gifted - 2ª Temporada

Créditos da imagem: The Gifted/Fox/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Gifted - 2ª Temporada

Patinando para ter destaque nos dias de hoje, seriado poderia ser brilhante caso tivesse sido lançado na década passada

Matheus Bianezzi
28.02.2019
20h29

Assistir a segunda temporada de The Gifted tendo em mente as especulações de um possível cancelamento não é uma tarefa fácil. Caso essa possibilidade se concretize, ela terá sido uma série com bons personagens, uma trama coerente e bons efeitos especiais - levando em conta as limitações orçamentárias já conhecidas de produções da TV aberta. Agora, caso um próximo ano seja divulgado, o programa terá uma complicada missão: se reinventar. A fórmula apresentada não é ruim, mas também não é ótima - e muito menos revigorante.

No primeiro ano da série, acompanhamos a jornada da família Strucker descobrindo os poderes de Andy (Percy Hynes) e Lauren (Natalie Alyn Lind) e tendo que lidar com todo o preconceito envolvido, enquanto se juntam com um grupo clandestino de mutantes que lutam de maneira pacífica por igualdade. De uma forma previsível, a segunda parte bebe ao máximo do conflito central de qualquer produção dos X-Men e racha tanto o grupo guerrilheiro quanto a família em dois polos: aqueles que querem usar da violência para atingir uma supremacia mutante; e aqueles que querem achar maneiras pacatas para equalizar a relação entre as espécies. A história se desenrola tendo como mote a bússola moral de cada personagem e, por esse mesmo motivo, alguns núcleos são muito mais legais de se assistir que outros. O dilema vivido por Andy Strucker, embora essencial na trama, é tão superficial quanto sua caracterização - uma mistura de Alisson e John Bender em Clube dos Cinco, mas sem a identidade de nenhum. O cabo de guerra internalizado por ele, entre se render aos poderes violentos de seus antepassados ou ficar ao lado de sua família, é retilíneo do primeiro ao último episódio. Enquanto o garoto teima que suas motivações não são uma fase típica de um adolescente, não é isso que o roteiro prova a cada cena.

Por outro lado, o drama vivido por Polaris (Emma Dumont) é muito mais convincente e prazeroso de se observar. Muitas camadas estão envolvidas em sua personalidade. Ela é bipolar; acabou de se tornar mãe e teme pelo futuro de sua filha; é completamente mal resolvida com seu passado; e ainda tem uma história de amor que está do lado contrário aos seus ideais. Por sinal, a filha do anti-herói Magneto conseguiria carregar uma minissérie solo com facilidade.

Assim como na primeira temporada, embora mantenha um bom ritmo e não tenha saltos drásticos de qualidade entre os episódios, uma coisa permeia todos os dezesseis novos capítulos: falta de originalidade. Em The Gifted, nada soa inédito. Embora seja possível traçar paralelos com quadrinhos clássicos e poderosos como Deus Ama, o Homem Mata, lançado em 1982 e escrito por Chris Claremont, nem precisamos ir tão longe. Cada um dos dilemas presentes já foram abordados em outras produções. A guerra ideológica entre dois grupos mutantes é utilizada desde X-Men: O Filme (2000), dezenove anos atrás. A vacina anti gene x foi mostrada em X-Men: Confronto Final (2006), assim como mutantes perdendo o controle de seus poderes e se tornando uma ameaça. Até mesmo o grande gancho para uma eventual terceira temporada é batido e amplamente discutido em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014). Ainda que os produtores, roteiristas e diretores apresentem tudo isso de uma forma interessante, o sentimento de que tudo é meio datado é instantâneo.

Outro ponto que pode deixar os fãs do universo incomodados é a reciclagem de poderes. Salve alguns personagens com habilidades únicas, de maneira geral, os mutantes figurantes são basicamente uma recriação de seus protagonistas. Mesmo que explicado de uma maneira diferente, no final das contas, vários são iguais. Chega ao cúmulo de uma personagem com pouca relevância ter o mesmo sangue solar de Marcos Díaz (Sean Teale), o Eclipse. Sem falar que, quantos telepatas são necessários para se fazer uma série, não é mesmo? The Gifted acha que vários.

Atualmente, todo o mercado de super heróis está bastante saturado. São diversas as produções com essa temática e, para ter um lugar ao sol, não basta ser apenas boa - ainda mais em televisão aberta, onde a concorrência por um horário na grade é avassaladora.

Não é que The Gifted falha em trazer novidade, ela só não tenta. Mesmo que o roteiro seja redondo, as cenas de ação tenham melhorado bastante na nova temporada - flertando inclusive com uma estética de violência mais gráfica - e os personagens sejam cativantes, infelizmente nada disso parece o suficiente para ela se tornar especial a ponto de ganhar uma renovação.

Nota do Crítico
Bom