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Crítica

The Gifted - 1ª temporada | Crítica

Série usa trama familiar para se debruçar na questão de como lidar com o preconceito quando colocam um alvo na sua testa

Rafael Gonzaga
18.01.2018
16h00
Atualizada em
29.06.2018
02h48
Atualizada em 29.06.2018 às 02h48

Após a temporada de estreia de Legion ser uma das melhores surpresas da primeira metade de 2017, o segundo semestre do ano entregou mais uma boa produção sobre os inesgotáveis X-Men. The Gifted, com uma abordagem geral mais ortodoxa que a trama do filho de Charles Xavier, revelou-se uma série com bons personagens, trama coerente e efeitos bem aproveitados. Inicialmente, a atração parece ser completamente focada na dinâmica de uma família encarando as próprias contradições ao descobrir ser exatamente aquilo que combate - mas, ao longo dos episódios, The Gifted abre o leque e se torna essencialmente uma trama sobre a amplitude das consequências do preconceito.

Na trama, Stephen Moyer vive Reed Strucker, um homem que trabalha em uma força-tarefa antimutante em um mundo onde, após um trágico incidente em 15 de julho, organizações como os X-Men e a Irmandade de Mutantes estão desaparecidas. O problema é que, durante sua cruzada cega contra as pessoas que carregam o gene x, os poderes de seus dois filhos adolescentes, Lauren (Natalie Alyn Lind) e Andy (Percy Hynes White), vêm à tona. Stephen se vê pela primeira vez do lado oposto de sua guerra pessoal e começa a sentir as injustiças no sistema na pele ao precisar fugir e se esconder pela segurança de sua esposa Kate (Amy Acker) e seus filhos que estão sendo caçados.

Ao invés de focar exclusivamente na questão de uma família repensando a ideologia problemática que seguiam até então e desconstruindo seus preconceitos, a trama engata de verdade ao mostrar as dinâmicas posteriores ao momento que o quarteto é acolhido por um grupo clandestino de mutantes. Para os fãs dos quadrinhos, a série é um prato cheio já que, ao longo da trama, diversos personagens familiares ganham vida. O núcleo principal da resistência é formado por personagens populares no papel, como Polaris (Emma Dumont), Blink (Jamie Chung) e Pássaro Trovejante (Blair Redford) - ao longo da trama chegam ainda nomes como Sábia (Hayley Lovitt) e as irmãs Frost (Skyler Samuels).

A premissa familiar é boa, mas o sucesso da série depende exclusivamente dos Strucker caírem de paraquedas no meio de um cenário onde os conflitos já estão avançados entre humanos e mutantes. Há uma evolução para caminhos distintos no modo que os personagens acuados metabolizam a forma como vêm sendo tratados pelos humanos - caímos na grande bússola moral desregulada de X-Men, polarizada entre revidar com toda violência possível ou buscar soluções pacíficas mesmo enquanto são violentados. Ao passo que o próprio grupo clandestino de mutantes caminha para um momento crítico motivado por esse dilema, os Strucker também são afetados por ele, em especial Lauren e Andy - essa será a questão familiar do próximo ano, os colocando em um nível bem mais paralelo ao restante do grupo.

A única coisa na qual a série pode ser realmente acusada de pecar é em originalidade: talvez efeito de ter Bryan Singer entre os principais nomes dos bastidores da série, o último episódio da primeira temporada deixa o público com a impressão de não ter visto uma abordagem substancialmente inédita sobre algo. Muito de The Gifted já foi visto no cinema: é possível estabelecer paralelos com a obsessão de Mística (Jennifer Lawrence) em assassinar Bolívar Trask (Peter Dinklage) em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, assim como há novamente o conflito ideológico protagonizado por Charles Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) em X-Men: Primeira Classe e até a questão da vacina antimutante vista em X-Men: O Confronto Final. Aliás, outra coisa que a série alimenta o tempo todo é a expectativa sobre o aparecimento de algum dos personagens icônicos do universo mutante - indo desde Emma Frost até, principalmente, Magneto, pai de Polaris.

Ainda assim, The Gifted se permite apresentar reviravoltas interessantes e que permitem a série não cair na monotonia ao longo dos 13 episódios - o sobrenome Strucker, por exemplo, não é algo gratuito na trama, O último episódio da temporada traz o senador Montez (David Norona) fazendo um discurso onde diz que “é hora de parar de ser politicamente correto” e apresenta um projeto de uma “legislação contra os que tentam destruir nosso estilo de vida”. É inegável como os X-Men seguem atuais e como eles podem ser uma porta de entrada metafórica para que o público entenda determinados pilares da sociedade fora da tela. The Gifted dá conta do recado.

Nota do Crítico
Bom