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Crítica

The Get Down - 1ª temporada | Crítica

Série musical de Baz Luhrmann na Netflix vale cada centavo de seu orçamento milionário

Rafael Gonzaga
11.04.2017
19h25
Atualizada em
12.04.2017
15h52
Atualizada em 12.04.2017 às 15h52

The Get Down, como uma boa série de música, estreou na Netflix fazendo barulho. O projeto chamou atenção ao trazer a assinatura do cineasta Baz Luhrmann (Moulin Rouge, O Grande Gatsby) ao lado de Stephen Adly Guirgis, roteirista e dramaturgo conhecido tanto no circuito da Broadway quanto no Off-Broadway. Além disso, o projeto surgiu com o carimbo de série mais cara do serviço d estreaming até então, orçada em em US$ 11 milhões por episódio - valor que foi, inclusive, estourado em vários deles. A premissa simples, de um jovem casal tentando, por vias diferentes, realizar o sonho de viver da música, é a ponta do iceberg para retratar toda a complexidade do surgimento do movimento hip-hop no Bronx, o “bairro mais pobre de Nova York”, no fim dos anos 1970.

Justice Smith e Herizen F. Guardiola dão vida à Ezekiel Figuero e Mylene Cruz. O primeiro é um jovem inteligente, com talento para compor, criado pelos tios após perder os pais para o tráfico de drogas. A moça, ambiciosa e sonhadora, é filha de um pastor pentecostal que beira o fanatismo. Além deles, Shameik Moore interpreta Shaolin Fantastic, personagem mais complexo da trama, um rapaz criado nas ruas, envolvido na dualidade de carregar a paixão pela arte de DJ como sonho e o envolvimento com atividades criminosas como meio de sobrevivência. Shaolin, melhor amigo de Ezekiel, exerce um papel importante ao ser o principal catalisador de caos da trama: tirando o núcleo familiar de Mylene, são sempre suas interferências, direta ou indiretamente, na vida dos demais que fazem a série caminhar.

The Get Down é dividida em duas partes: na primeira, vemos os protagonistas dando os arranques iniciais para suas carreiras saírem do papel; na segunda, o destaque vai para as dificuldades impedindo que isso aconteça - todas ligadas a expectativas e imposições de terceiros. Ezekiel monta o grupo Get Down Brothers junto a Shaolin Fantastic e os irmãos Dizzee (Jaden Smith), Ra-Ra (Skylan Brooks) e Boo-Boo (T. J. Brown Jr.), mas precisa conciliar as atividades com um estágio no World Trade Center que poderá tirá-lo do ciclo de miséria do Bronx e levá-lo até Yale. Em paralelo, Mylene consegue os contatos necessários por intermédio de seu tio para se tornar uma cantora de sucesso junto de suas Soul Madonnas Yolanda Kipling (Stefanée Martin) e Regina (Shyrley Rodriguez), mas seu pai (Giancarlo Esposito) começa a usar o talento da garota para interesses pessoais dentro da igreja e, por motivos conservadores, tenta impedir que ela cante disco.

Com tanta música como fio condutor de tramas, não é de se espantar que parte considerável do orçamento foi direcionada aos direitos de canções. Na trilha estão clássicos como "Bad Girls" de Donna Summer, "Wild In the Streets" de Garland Jeffreys, "Set Me Free" de The Temptations, além das vozes de Zayn, Miguel, Janelle Monáe, entre outros. Durante a série, os números musicais são arrebatadores e conseguem transmitir, sem exceção, grandiosidade cinematográfica. Mylene está tão incrível em "Toy Box", faixa escrita por Sia, já na segunda parte da trama, quanto em "Turn The Beat Around", clássico de Vickie Sue Robinson, ainda no começo da série. Além disso, para contar a história do hip-hop, a série traz os personagens reais Grandmaster Flash (Mamoudou Athie), DJ Kool Herc (Eric D. Hill Jr.) e Afrika Bambaataa, nomes importantes para o nascimento desse ecossistema cultural - assim como Ed Koch (Frank Wood), um dos grandes antagonistas do movimento.

Dito isso, dá para entender o porquê de The Get Down ser uma aula de história, de música e de como funcionam os processos de construção de estruturas sociais. O programa deixa explícito que a exclusão social do Bronx fez com que seus moradores sentissem a necessidade e, posteriormente, tivessem a motivação necessária para criar sua própria expressão artística, genuína e sem influências mercadológicas - ainda que a série mostre, através do apego do gângster Cadillac Caldwell (Yahya Abdul-Mateen II) e da própria Mylene a disco music, a resistência dos próprios moradores ao novo estilo. Durante os shows do Get Down Brothers, Ezekiel e seus amigos cantam sobre suas experiências, sobre as dificuldades características daquela realidade e sobre suas ambições de melhorar a vida. Aliás, outro ponto muito interessante no qual a série toca é a questão de representatividade. A maioria do elenco é formada por negros e latinos, algo que não é comum de ser visto na televisão.

De forma absolutamente orgânica, a série ambientada nos anos 1970 introduz temas contemporâneos. Um dos diálogos da trama mostra o personagem de Skylan Brooks falando sobre apropriação cultural sem que ele precise usar essas palavras. O jovem, que cresce na série mostrando talento para se tornar um empresário de sucesso, conta que enxerga o get down como o próximo grande gênero musical americano. E, em seguida, diz que é preciso correr e aproveitar enquanto for possível, antes que artistas brancos tomem o movimento para si e excluam dele os pioneiros negros - Ra-Ra cita o blues, que segundo ele posteriormente passou a ser chamado de rock-n-roll pelos brancos e teve Elvis alçado ao pedestal de inventor do gênero.

Os jovens atores tiveram oficinas com os ícones do hip-hop Kurtis BlowGrandmaster Flash e Nas - esse último é, inclusive, produtor de um dos episódios da série. Além de Baz Luhrmann e Stephen Adly Guirgis, The Get Down contou com uma equipe criativa superqualificada composta por Catherine Martin, produtora que por quatro vezes abocanhou o Oscar, e diversos grandes nomes da música e da cultura de rua, além de historiadores do hip hop, do grafiti e da street dance. Não por menos, Luhrmann carregou esse projeto no papel durante uma década antes de conseguir ver tudo pronto para a série ser exibida na Netflix.

Os núcleos secundários, ainda que pouco explorados, também são interessantes. O personagem de Jaden Smith tem um dos arcos mais diferentes da trama, ao ser introduzido no cenário musical LGBT efervescente . A cena lisérgica do rapaz sendo levado a uma festa por Thor (Noah Le Gros), seu interesse romântico ainda embrionário, fala de um momento de liberdade sexual único e faz infinitas referências, que vão desde a dança vogue na pista até as paredes pintadas com desenhos em uma estética semelhante às obras de Keith Haring. Apesar de "Telepathy", de Christina Aguilera, ser o grande destaque musical da cena, vale pontuar que quando os personagens conversam, a música de fundo é "Love Is The Message", do MFSB, parte da trilha sonora do documentário Paris Is Burning, marco da cultura LGBT e voguing de NY. Além disso, é esse personagem que segura o bastão de não deixar a temática da deslegitimação do grafiti como expressão artística ser engolida pelas outras questões da série.

Outra coisa interessante de observar é que a segunda parte da série tem um efeito que beira a metalinguagem ao transformar algumas das tramas latinas em algo novelesco. E o que faz disso um mérito da série é jogar esse balde de dramaticidade exagerada sem perder o rumo da história, usando isso para introduzir suavemente questões mais densas. A trama de Mylene na segunda parte gira em torno dos conflitos familiares que não terminam na descoberta de que a moça é filha do tio e nos seus reflexos, mas sim nela encontrando nas drogas uma válvula de escape. Os roteiristas usam um melodrama escandaloso para, da forma mais sutil possível, construir algo que será determinante na vida da personagem - e é essa dualidade que faz com que a narrativa seja tão boa.

Entre o momento em que Ezekiel lê sua redação para a professora e a cena final, do rapaz entrando em um estúdio profissional de gravação, a série segura uma história simples sem perder o fôlego e sem atropelar os acontecimentos. A qualidade da produção faz com que cada episódio pareça um filme e com que o resultado final seja uma temporada inteira bem amarrada. Talvez por usar a história batida de jovens buscando seguir sonhos na música em primeiro plano, a série acabe não soando como algo inédito, ainda que, fatos na mesa, contar a história do hip-hop com tanta maestria nunca tenha sido feito por ninguém na televisão. Contudo, The Get Down não precisa reinventar o formato para ser uma das melhores coisas já feitas na Netflix - colocar (muito) dinheiro em um projeto que leva luz à uma cultura riquíssima, esmagada em uma sociedade amparada em privilégios, não é algo que se vê todo dia. The Get Down só não faz mais barulho porque as pessoas não estão tão dispostas assim a ouvir, mas deveriam.

Nota do Crítico
Excelente!

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