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Crítica

The Crown - 2ª Temporada | Crítica

Série mostra como a realeza é construída em cima de corações partidos

Camila Sousa
15.12.2017
18h05
Atualizada em
15.12.2017
19h15
Atualizada em 15.12.2017 às 19h15

[Cuidado com spoilers leves de The Crown abaixo]

Como nos contos de fadas que fazem parte do imaginário popular, não é surpresa a curiosidade dos “plebeus” com a vida levada pela realeza. The Crown estreou na Netflix em 2016 com o objetivo de saciar um pouco dessa vontade, mas sua segunda temporada cresce e mostra além: a vida de reis, príncipes e princesas é construída em cima de corações partidos. O novo ano começa com a Crise de Suez e também a crise no relacionamento de Elizabeth (Claire Foy) com Philip (Matt Smith). Isso dá o tom que a série segue: sempre vemos fatos históricos conhecidos com acontecimentos de bastidores.

O relacionamento do casal real é o foco dos primeiros capítulos do novo ano e isso dá a oportunidade de conhecer melhor o Duque de Edimburgo. Matt Smith interpreta muito bem o personagem, de uma forma que nos faz amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo. Desde a primeira temporada, a série mostra como Elizabeth foi coroada de uma forma improvável - ela não fazia parte da linhagem principal - e isso impacta o relacionamento do casal. Nos novos episódios, Philip assume um pouco de seu tão desejado protagonismo dentro da família. Ele faz questão de ter mais um título e vemos que há uma luta interna entre se sentir desvalorizado à sombra da esposa e compreender que ela sempre estará um passo à sua frente.

A série reserva tempo para mostrar o passado do personagem e, para isso, o coloca em vários capítulos longe da esposa. Esse movimento nos faz entender algumas de suas decisões e percebemos seu incômodo por ficar em segundo lugar. É impossível não sentir antipatia por Philip e sua falta de compreensão com as responsabilidades de Elizabeth. Ele também erra profundamente na criação do filho Charles. ”Paterfamilias”, o episódio nove, corta o ritmo da série, mas estabelece o que veremos depois do futuro rei. Aqui já temos dois corações partidos.

Outra coadjuvante que rouba a cena em toda a temporada é Margaret (Vanessa Kirby), a temperamental irmã mais nova da rainha. É ela quem faz os maiores sacrifícios e também representa um contraponto importante. No começo da temporada, a jovem princesa ainda sofre pela perda de Peter Townsend (Ben Miles), o grande amor de sua vida. Sua forma insolente de lidar com isso é um dos pontos mais interessantes do seriado. Margaret gosta dos luxos que sua posição permite, mas é totalmente avessa às responsabilidades da realeza. Ela tem uma personalidade livre e Vanessa Kirby tem os olhares e trejeitos certos para mostrar tudo isso.

Como na história real, Margaret conhece Tony (Matthew Goode) e o jeito estranho dele a encanta. O relacionamento dos dois passa longe da perfeição, mas faz com que a princesa sinta finalmente sua personalidade desabrochando. Em um trecho, por exemplo, vemos Margaret dançando livremente em seu quarto, enquanto Elizabeth sobe de forma perfeita para seus aposentos. Esse contraponto é intenso, bem filmado e realista. Nos identificamos com as dores de Margaret e mesmo sua antipatia se torna encantadora. Ainda assim, ela é mais uma a ter o coração partido pelas obrigações da monarquia.

Porém, mesmo com todos esses incríveis personagens em volta, todas as atenções de The Crown são para sua protagonista. Claire Foy é jovem, mas a representação que vemos nas telas é de alguém que já tem traços da idade, causados tanto pela passagem do tempo, quanto pelo peso das responsabilidades. Aos poucos a atriz começa a repetir até mesmo os trejeitos da verdadeira Elizabeth: sua forma de acenar, cruzar as mãos na frente do corpo e cumprimentar as pessoas. Seus conflitos entre fazer o que é certo como líder e ajudar sua família já são conhecidos da primeira temporada. Muitas vezes cabe a ela tomar a decisão mais difícil e ela sabe disso. Mas a coroa está acima de tudo e Elizabeth se torna alguém que faz o que é necessário para manter a estabilidade de seu país. Esse é seu maior mérito nessa temporada.

Existem também duas adições positivas ao elenco de The Crown: Michael C. Hall como Kennedy e Jodi Balfour como Jackie. Os dois chegam à série assim como seus personagens chegaram à realeza: para trazer um tema importante e causar discussões. Enquanto Margaret é uma oposição mais leve à Elizabeth, Jackie Kennedy representa de forma mais penetrante tudo o que a rainha não é: leve, jovem e descontraída. Quando vê o casal americano em seu palácio, a monarca imediatamente se sente ultrapassada. Essa se torna a grande discussão do segundo ano de The Crown: ainda há espaço para a monarquia na sociedade? Qual é a sua finalidade, afinal de contas? Um enfeite? Em uma das cenas, a Rainha Mãe afirma que eles estão ali para serem um exemplo de esperança para as pessoas com a vida comum. O argumento é questionável, mas a série dá pistas de que continuará investindo no assunto nas próximas temporadas, que chegarão cada vez mais perto da atualidade.

O que torna The Crown uma experiência única é seu misto de ficção e realidade, que assusta ao mesmo tempo em que encanta. Que mata nossa curiosidade ao mesmo tempo em que nos dá vontade de saber mais. A realeza pode não ser mais relevante como uma liderança, mas o recente noivado do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle prova que ela ainda tem seu espaço, pelo menos, na cultura pop.

Nota do Crítico
Excelente!