The Boys - 1ª Temporada

Créditos da imagem: The Boys/Amazon Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Boys - 1ª Temporada

Adaptação alivia a HQ de Garth Ennis mas não decepciona ao ironizar a febre dos super-heróis com acidez e violência

Arthur Eloi
27.07.2019
19h46

Garth Ennis é um dos nomes mais importantes das HQs adultas. Logo, adaptá-lo não é uma tarefa fácil. Seth Rogen e Evan Goldberg aprenderam isso durante a série de Preacher, que precisou mudar muito em tom e ritmo para comportar uma fração da história original. Mesmo assim, isso não abalou o desejo de explorar o catálogo do autor, e agora a dupla se une com Eric Kripke, o criador de Supernatural, para adaptar a sátira de Ennis sobre o mundo dos heróis: The Boys.

Baseada nos quadrinhos publicados pela Dynamite Entertainment entre 2006 e 2008, a trama acompanha Hughie Campbell (Jack Quaid), um jovem que perde sua namorada em um brutal acidente envolvendo um herói velocista. Após perceber que existe todo um sistema pensado para inocentar os poderosos, Hughie entende que sua única esperança de encontrar justiça é com a ajuda de um misterioso estranho chamado de Billy Butcher (Karl Urban), que lhe aborda oferecendo um pouco de vingança. Daí em diante, as coisas ficam sangrentas.

O Mundo Fora da Sua Janela

Qual o diferencial de The Boys em meio à era dos heróis no audiovisual? Simples: a trama tem um enorme desprezo por eles e pela cultura ao seu redor. Ao invés dos gloriosos representantes da humanidade, aqui os poderosos são mostrados como seres secretamente desprezíveis, fabricados por grandes corporações que querem vender bonecos, filmes, quadrinhos e videogames - com olhos para conquistar mais e mais poder, dinheiro e influência.

Enquanto Ennis se inspirou no mundo das celebridades para tecer seu comentário cético sobre a indústria de quadrinhos da época, é impossível assistir a série sem lembrar da atuação da Marvel na última década. Isso dá um toque especialmente irônico e pontual para a obra. Um momento do piloto, por exemplo, traz uma apresentação para investidores das empresas Vought, responsável por administrar os heróis. No palco, uma entusiasmada executiva mostra os planos para o futuro do universo cinematográfico da companhia, e logo depois orgulhosamente apresenta Starlight (Erin Moriarty) como a nova integrante do elenco - situação que há algumas semanas aconteceu de forma idêntica nos palcos da San Diego Comic-Con 2019, porém tratando-se das novidades da Fase 4 do MCU.

Essa camada de metalinguagem dá um charme a mais para o seriado, especialmente para quem já não aguenta mais o gênero. Mas a trama busca não se apoiar apenas na comparação - e é aí que surgem muitas das diferenças com o material-base. É notável que a produção não tinha a intenção de transportar fielmente toda a obra original para as telas - uma armadilha que muitas adaptações caem. Isso pode ser atribuído ao envolvimento de Kripke que, por sua experiência com Supernatural, entende muito das qualidades únicas do meio televisivo. Por causa disso, o programa apenas pega a essência distorcida do humor negro de Ennis e a contextualiza em uma ótima estrutura narrativa: ao invés de manter o espectador fisgado pelo absurdo, a série se preocupa em avançar sua trama e evoluir seus personagens. Dessa forma, arcos como o crescimento de Hughie ou a relação do Francês (Tomer Capon) com a Fêmea (Karen Fukuhara) ganham mais espaço, enquanto eventos chocantes dos quadrinhos são “diluídos” e remodelados para casar com essa versão mais humana da trama. Isso, é claro, não quer dizer que é uma série leve: ainda há bastante violência, tanto visual quanto temática, mostrando gore e abuso sexual logo no primeiro episódio. Mesmo assim, a forma como esses elementos são mostrados é controlada, raramente soando gratuítos - ainda que claramente inseridos para causar impacto.

O que completa o pacote é o alto nível do elenco, que raramente deixa a desejar nas atuações. Erin Moriarty acerta toda a complexidade de Starlight, uma garota friamente puxada para a realidade após alcançar seu sonho de se juntar aos Sete (a Liga da Justiça da série); o mesmo vale para a Queen Maeve (Dominique McElligott), que ganha espaço o suficiente para se mostrar como mais uma das vítimas da equipe. O grupo de protagonistas também entrega boa variedade de personalidade excêntricas em conflito, mas os verdadeiros destaques ficam para o Billy Butcher de Karl Urban, e o herói Homelander (Antony Starr) - o Superman deste universo. Urban abraça a intensidade caricata das HQs e acerta em cheio no espírito doentio da escrita de Ennis, enquanto Starr impressiona com mudanças de ânimo instantâneas, fielmente retratando seu personagem como um agressivo alienígena farsante que, por trás de seu sorriso, despreza toda a humanidade.

The Boys pode não ser uma adaptação fiel, mas é confiante o bastante para escolher a dedo o que trazer para sua própria interpretação do material-base. Indo contra a tendência popular de pedir derivados 100% identicos ao original, a série se propõe a criar uma espécie de remix com um novo ritmo e sensibilidade, mostrando que há potencial em experimentar com o que já é conhecido. A decisão é acertada, e cria algo deliciosamente brutal, sarcástico e divertido.

Nota do Crítico
Ótimo