The Beauty faz divertida mistura de A Substância e American Horror Story
Nova série de Ryan Murphy tem final sem vergonha, mas temporada termina com saldo positivo
Ryan Murphy decidiu levar sua inconfundível assinatura para o mundo da beleza e da moda com The Beauty. A série do Disney Plus, estrelada por Evan Peters, Rebecca Hall e Ashton Kutcher, replica o visual, o humor, o som e as personagens caricatas que o produtor tanto ama, com o intuito de cutucar a obsessão pela estética que assola a sociedade moderna. Para que isso ganhe contornos murphyanos, porém, ele abraça o horror corporal e cria uma divertida mistura de A Substância e American Horror Story.
A trama gira em torno de um bilionário (Kutcher) que cria uma droga capaz de transformar qualquer pessoa em sua “melhor versão”: sem doenças, sem problemas, sem defeitos aparentes. A questão é que, após alguns dias, a droga causa deformações, mortes e, além disso, pode ser transmitida sexualmente, o que a transforma no ponto zero de uma epidemia investigada pelos policiais Drew Foster e Kara Vaughn, interpretados por Peters e Hall.
Ao redor da história principal, o seriado aborda diversos estereótipos influenciados pela pressão social para “ser bonito”. Começa com pessoas obesas, passa por deficiências até chegar a cidadãos aparentemente saudáveis que sucumbem ao que o sistema impõe. O discurso é batido, mas ganha traços interessantes pelo tom ridículo e cafona em que o roteiro, baseado na HQ homônima de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, aposta. As cenas de sexo carecem de sensualidade, os ricos são patéticos e nada existe para além do exagero. O povo, independentemente da classe social, se alimenta do superlativo, mesmo que ele cause a morte de alguns.
A escolha do elenco também repete parceiros de Ryan Murphy, como Peters, mas quem brilha mesmo é Ashton Kutcher no papel do ridículo criador da droga, Byron Forst. Numa mistura dos patetas que interpretou em comédias de sucesso, o ator incorpora um cidadão sem nenhum propósito de vida que não seja compensar as próprias fraquezas — e a série acerta ao mostrar que não existem limites para quem concentra tanto poder quanto ele. Nem o policial mais correto, a mãe mais amorosa ou a criança mais inocente. Todos sucumbem.
E, ainda que tenha uma repetição desnecessária de transformações e explicações na etapa final da temporada, The Beautyencerra com um saldo positivo pela proposta apresentada. O final, que beira o covarde, prepara o terreno para uma segunda temporada ainda mais excêntrica, ao mesmo tempo em que nos lembra que, mesmo com seus altos e baixos, Ryan Murphy é daqueles artistas que merecem o reconhecimento que têm.