Foto de The Affair

Créditos da imagem: The Affair/Divulgação

Séries e TV

Crítica

The Affair - 5ª temporada

Série encerra sua trajetória com uma temporada duvidosa que flerta perigosamente com a misoginia

Henrique Haddefinir
20.11.2019
17h42

The Affair, enfim, acabou. A criação de Sarah Treem e Hagai Levy passou por um período de grandes mudanças, depois que Ruth Wilson anunciou sua saída repentina. Algum tempo depois, Joshua Jackson, que fazia seu marido, também pulou fora do barco e os fãs, perplexos, se depararam com a certeza de uma quinta temporada sem a presença forte e necessária daquele que era o casal realmente interessante da série. Alison e Cole tinham problemas porque viveram uma tragédia imensa e tentavam compreender a vida sob essa terrível ótica. Noah (Dominic West) e Helen (Maura Tierney) eram pernósticos e egoístas, vivendo turbulências porque não admitiam o tédio das próprias vidas. Pois bem, nessa última temporada, estávamos lamentavelmente presos a eles.

Tudo sempre foi sobre Alison, para o bem e para o mal. E, no caso desse último ano, apenas para o mal. A série ganhou notoriedade por ser um grande estudo de personagem, ter sequências de mistério e ser um tratado constante de dor e miséria da alma. Mas, quando colocamos a dramaturgia em perspectiva, ela falha numa ideia primordial: a de confrontar as razões e bases nas quais se sustenta um caso extraconjugal. Depois desse final, olhando para trás, é como se a série estivesse apenas confirmando o que dizem as vozes misóginas da nossa história desde o início dos tempos: a culpa é da mulher, ela seduz, ela destrói e se ela pagar por isso, aí talvez as coisas voltem ao normal.

Nunca saberemos quais eram os planos para a última temporada caso Wilson e Jackson tivessem continuado. Mas, a saída da atriz depois de várias declarações sobre desigualdade salarial tornam o enredo da série ainda mais alarmante. A personagem de Ruth Wilson era sexualmente demonizada por todos em volta, compreendida apenas pelo ex-marido e que, na quarta temporada, foi finalmente conduzida para uma mudança positiva. Morreu assassinada por um homem que não aceitava sua voz. A atriz foi afastada da série pela mesma razão (recentemente ela admitiu que foi afastada contra sua vontade). O quadro geral é bastante irônico, já que Jackson, parceiro direto de Wilson, também deixou a produção e The Affair terminou com Noah e Helen colecionando as perdas pelo caminho.

O Estranho Futuro

O quinto ano começa com um salto no tempo e o funeral de Vik (Omar Metwally), morto pelo câncer que já fora anunciado no ano anterior. Noah está prestes a começar a produção de um filme baseado no livro escrito sobre o caso com Alison. Mais uma vez, as pessoas que estão no entorno dos protagonistas restantes são tóxicas ou tão problemáticas quanto eles. A ligação de Helen com o astro que interpretará Noah, por exemplo, é um dos artifícios cansativos que ajudam a criar a aura de antipatia que ronda o casal principal. Noah, inclusive, continua seu comportamento errático com toda e qualquer mulher que cruza seu caminho, sempre agindo como se fosse uma vítima das circunstâncias, protegido por um roteiro que, na tentativa de humanizá-lo, perdoa tudo que ele faz.

A outra ponta da temporada é mais bizarra ainda. Os criadores resolveram manter a presença de Alison na série avançando vários anos no futuro e mostrando que a filha dela, Joanie (Anna Paquin), herdou todos os problemas da mãe. Não importa o tempo, Alison segue sendo mortalmente julgada. A produção da série se esforça e cria um futuro tecnologicamente frio, tais quais os episódios de Black Mirror. O resultado, porém, é desconexo e toda vez que um episódio pula para o enredo de Joanie, parece que estamos vendo outra série. Também não há justificativas plausíveis para a autodestruição da personagem e, se não fosse a presença espirituosa de EJ (Michael Braun), essa trama seria um completo desastre.

Os problemas continuam no series finale. A série ensaia um julgamento justo para os crimes misóginos de Noah, mas as mulheres em The Affair são sempre retratadas como neuróticas, destrutivas, oportunistas ou sedutoras. As diferenças entre as versões de Noah e Helen para certos eventos se limitam a aspectos visuais, porque, no final das contas, os roteiros não querem punir ou criticar Noah, eles querem apenas transformá-lo num herói sofredor. E se engajam nisso, redimindo a relação entre ele e Helen como se aquela fosse uma linda história de amor, perturbada pelo encontro com Alison, a ninfa luxuriosa, a Eva demoníaca que terminou sem direito nenhum de colher os frutos da própria redenção.

Nas últimas sequências, o futuro reaparece para revelar os destinos dos que acompanhamos por anos e lá está Noah, lúdico, intocado, espalhando uma mensagem de paz de espírito para Joanie, a filha da mulher pela qual ele não tinha respeito algum. É chocante que numa série que supostamente deveria oferecer os benefícios da perspectiva feminina diante dessa doença cultural que culpa as mulheres por tudo, as próprias mulheres tenham sido castigadas com a morte e aquele homem, que desestabilizou tudo, termine saudável, quase eterno, dançando contente no alto de uma bela montanha. Os criadores podem ter achado que era poético, mas é só patético e ridículo. The Affair foi longe demais, no tempo, nas ideias e nos próprios resultados.

Nota do Crítico
Ruim