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Créditos da imagem: Divulgação/ Showtime

Séries e TV

Crítica

The Affair – 4ª temporada

Depois de um terceiro ano apático, The Affair retorna com uma quarta temporada marcada por mais tragédias

Henrique Haddefinir
27.08.2018
12h32
Atualizada em
27.08.2018
13h38
Atualizada em 27.08.2018 às 13h38

Quando estreou, The Affair chamou a atenção por ser uma espécie de estudo analítico de personagem. Com uma premissa simples – um caso extraconjugal – a série dividia seus episódios em perspectivas separadas. Assistíamos a ótica de um dos envolvidos e depois, os mesmos eventos pela visão de outro. Era uma ideia muito interessante, porque quando o assunto é traição, os responsáveis tendem a se perdoar na própria avaliação e também a culpar os outros. Os roteiros eram ainda mais espertos por não estabelecerem qual era a “verdadeira” versão, algo que dentro da própria realidade também é impossível. A questão era se essa simples premissa teria condições de sobreviver por mais que uma temporada.

Desde então The Affair tem tido altos e baixos. A boa ideia de estudar analiticamente os personagens sofria com os ruídos do “mistério” que todas as temporadas estabeleciam. De fato, a densa dramaturgia da série nunca precisou dessa muleta e se ela soava perdoável na segunda temporada, no terceiro ano ela surgiu completamente abominável. Todo o arco envolvendo o estado psicológico de Noah (Dominic West) logo após a saída da prisão não precisava da frouxa tentativa de suspense que terminou se relevando tosca e previsível. Tudo coroado pela participação de um desinteressado Brendan Fraser. O planejamento da série sempre encontrou dificuldades em explorar os caminhos de Noah e Helen (Maura Tierney), o que significa que inevitavelmente, mesmo numa temporada equivocada como a terceira, Allison (Ruth Wilson) e Cole (Joshua Jackson) é que tinham suas trajetórias dentro da plena coerência.

Era de se esperar, então, que na hora de ponderar o que seria esse quarto ciclo, os roteiristas tivessem novamente usado os dois personagens como fio condutor. Olhando para o panorama geral da história de The Affair, Alison e Cole aparecem como um casal afetado por uma circunstância gravíssima, desesperados para que a vida lhes ofereça uma chance de superar tamanha tragédia. Noah e Helen são egocêntricos e pernósticos, separados pela necessidade de escaparem de suas vidas entediadas . Quanto mais avançavam, mais os roteiristas percebiam essas evidências e exatamente por isso, estava em Alison e Cole a verdadeira expectativa acerca do futuro da série. O que provavelmente ninguém esperava era que esse futuro seria pautado em mais uma grande perda.

The Ultimate Affair

A quarta temporada começou nos mesmos lugares já conhecidos do público. Noah dando aula numa nova instituição e envolvido com alguém que trabalha lá (plot que se revelaria, mais adiante, completamente aleatório e desnecessário). Helen em uma relação definitiva com Vik, mas tanto ela quanto ele, sempre com aquela neblina de infelicidade compensada – mais uma vez – com álcool, drogas e traição. Cole ainda atormentado pela inevitável paixão pela ex-mulher, enquanto ela, a própria Alison, era a que mais parecia ter compreendido o que é realmente amadurecer: quando colocada diante das mesmas circunstâncias em que conheceu Noah, ela ponderou os próprios erros e tenta fazer escolhas diferentes.

É como se em The Affair tudo fosse sobre ser infeliz. Hagai Levi e Sarah Treem, os criadores, parecem ter um profundo fetiche pela infelicidade, pela miséria da alma, justamente porque não importa para onde os personagens desejem ir, o que lhes espera é sempre o fracasso. Isso por vezes é cansativo e recorrente, embora ofereça ao ótimo quarteto protagonista um grande material de atuação. A grande questão é que quando um desses personagens – Alison - decide confrontar essas repetições com uma percepção derradeira sobre si mesmo, o resultado é uma morte trágica e cruel, que confirma esse fetiche pela desgraça. Alison ameaçou sair da curva e pagou por isso com a própria vida. Em tempos de feminicídios ganhando as manchetes, o destino inesperado de Alison fecha com brutalidade a forma sempre discriminada como os outros personagens a tratavam desde que a trama começou.

Dear Alison

Noah e Helen andavam em círculos. Ele repetiu praticamente o mesmo comportamento de todas as outras temporadas e o plot com Anton foi só um recurso seguro para que ele tivesse tempo de tela. Helen lidou com o câncer de Vik com a mesma postura egocêntrica de sempre. A presença da vizinha jovem foi só uma das muitas recorrências da atração. Houve boas sequências, bons momentos, o texto foi bom, mas a verdade é que Noah e Helen são viciados em insatisfação e eles a perseguem com aquele constante semblante prepotente e entediado.

Já Cole e Alison passaram a quarta temporada em um processo de descobertas. Ele precisava compreender que o que estava errado era sua insistência em negar seus sentimentos por ela. E Alison – que já vinha flertando com a auto-percepção – foi confrontada com seu papel de messalina, de figura sedutora e sexualizada. Sempre ficou evidente que ela e Cole acabariam juntos, sobretudo porque o que os havia separado era o luto e o tempo agiu para mostrar que, uma vez superado esse luto, eles poderiam voltar à própria história. Não é à toa que o roteiro deu um jeito de consertar o revés do destino e deu a eles outro filho. O problema é que The Affair é essa série sobre ser infeliz e, antes que Cole pudesse se declarar e Alison pudesse desfrutar do auto-conhecimento, a morte veio para ceifar essas expectativas. Ruth Wilson andou declarando que ganhava menos, que queria deixar o programa e essa morte em alguns momentos soa até mesmo uma punição severa a uma atriz e uma personagem fortes e inquisitivas. Quanto mais se pensa sobre essa decisão, mais duvidosa ela soa.

A ideia de acompanhar uma quinta temporada - já confirmada - sem Alison é perturbadora. Joshua Jackson fez um trabalho espetacular esse ano e por causa dele talvez seja possível vir algo de bom no futuro na série. Mas, o quão irônico é o fato de que, em uma série sobre um caso extraconjugal, a personagem que passou toda a história sendo tratada como a Eva demoníaca que destrói os homens, tenha sido assassinada por um de seus acusadores? Será que a dramaturgia do programa pretendia vislumbrar o absurdo da situação ou a própria The Affair não percebeu que vocalizou sua melhor personagem com as mesmas vozes machistas que fingia criticar? Em 2019, se o público não esquecer que The Affair existe, é que será descoberto. Até lá, fica o lamento de que a série não tenha também feito um trabalho de auto-percepção e percebido que já era hora de parar.

Nota do Crítico
Ótimo