Foto de Supergirl

Créditos da imagem: Supergirl/CW/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Supergirl - 4ª temporada

Quarta temporada usa perseguição aos alienígenas para falar sobre o mundo real

Camila Sousa
22.05.2019
15h08

As obras de ficção que fazem sucesso geralmente são aquelas que unem fantasia ao que acontece no mundo real. Dessa forma, o público se identifica e fica mais fácil absorver as mensagens que são passadas. Esse é o grande mérito de Supergirl em sua quarta temporada. Usando a perseguição contra os alienígenas, a série faz uma competente analogia com os acontecimentos do mundo atual, revelando qual é a origem do ódio das pessoas pelo que é diferente. O maior problema de Supergirl é que, ao ser uma atração da CW, os efeitos visuais não são tão bons assim e há várias tramas secundárias que tiram o foco principal. Não é fácil gostar da série de primeira, mas há uma boa recompensa para quem tem paciência de olhar além dos pequenos detalhes.

Um dos grandes destaques da temporada é o terceiro episódio. Com menos foco na Garota de Aço em si, o episódio conta a história de Ben Lockwood (Sam Witwer) desde o começo. Antes um “homem de bem” que trabalhava por sua família, Ben vê tudo ao seu redor ruir com a morte do pai, em um incidente causado pela Supergirl e deixado para trás. A série é feliz em mostrar que, enquanto super seres lutam no ar, em terra firme há repercussões disso, muitas vezes trágicas. É tal evento que começa a transformar Lockwood em alguém com ódio de todos os alienígenas e esse sentimento inflama outras pessoas.

Com o tempo, ele assume o manto do Agente Liberty e se torna um líder carismático para aqueles que concordam com suas ideias. No meio de tudo isso, a série coloca pequenas frases que fazem muito sentido, mas são perigosas para qualquer democracia: “eles não são humanos”; “nós ou eles”; “traidor de sangue”; “make earth human again” ("fazer a Terra humana de novo”, uma referência à frase de campanha de Donald Trump), etc.. Com Lockwood estabelecido, a série parte para mostrar o dia a dia dos alienígenas comuns. A Supergirl também sofre com o que está acontecendo e vê o amor que as pessoas tinham por ela sumir, mas, acima de tudo, ela é uma heroína, tem poderes e consegue se proteger. Essa não é a realidade de todos os alienígenas que buscaram abrigo na Terra. Muitos deles têm aparências e características diferentes, mas não são super poderosos. A história dessa parcela da população é bem mais triste e, como uma alien mesmo define, eles carregam um alvo nas costas apenas por serem quem são.

Com tudo isso, fica muito claro como Supergirl foi além de ser uma “série de herói” em seu quarto ano. O objetivo foi realmente passar uma mensagem sobre o que está acontecendo no mundo atualmente. Infelizmente, tal trama tão importante e tão bem encaixada dentro da série precisa dividir espaço com alívios cômicos e vilões bobos, como a Menagerie (Jessica Meraz). O formato de série da CW com mais de vinte capítulos de 40 minutos impede a atração de ir além. Com uma duração tão grande, é preciso preencher espaço com outras coisas que tiram o brilho da discussão principal. Ainda assim, é louvável o esforço da série em cumprir seu papel e passar uma mensagem de aceitação e paz para seu público.

Há esperança?

Com tudo isso acontecendo ao seu redor, a Supergirl também precisou lidar com problemas mais humanos. Enquanto seu arco em temporadas anteriores foi superar a partida de seu amado Mon-El (Chris Wood), aqui Kara Danvers está solteira e lidando com outras questões, como a possível exposição de sua identidade. Para quem acompanha quadrinhos e histórias do Superman, essa é uma trama comum que sempre assombra os kryptonianos. Nesta temporada, tal história é deixada de lado rapidamente, servindo mais como uma homenagem às histórias clássicas do que um problema em si.

Enquanto tudo isso acontece, na Rússia, a Filha Vermelha, clone da Supergirl criada naturalmente a partir dela, desenvolve sua história com a influência de Lex Luthor (Jon Cryer). A apresentação do personagem era muito esperada e Cryer entregou um bom trabalho. Lex, como sempre, tem um grande ódio contra os kryptonianos, especialmente o Superman, e encontra uma forma de unir isso às suas ambições pessoais. Em certos momentos o personagem é calmo e metódico, enquanto em outros é vil e cruel, colocando para fora todo o seu lado ruim. Não chega a ser uma performance antológica, mas é o suficiente para servir de contraponto ao otimismo da Supergirl.

Tal sentimento, aliás, permeia todas as atitudes da personagem e, muitas vezes, soa um pouco forçado em relação aos grandes problemas que estão acontecendo. Melissa Benoist entrega uma personagem que sente sim raiva e tristeza pelo que está acontecendo, mas nunca, nunca mesmo, perde a esperança de que a humanidade é boa por natureza. Apesar desse estranhamento causado no público, tal esperança sem limites condiz com a personalidade de Kara e também de seu primo. Por mais que seja estranho ver a personagem não perder o controle em nenhum momento, sua atitude altruísta gera empatia e é impossível não sorrir no final, quando ela consegue voltar a ser amada.

Supergirl passa por muitos percalços em sua quarta temporada, mas termina em um momento feliz. Todas as grandes conspirações são descobertas e os alienígenas voltam a viver tranquilamente na Terra. As últimas cenas dão pistas para o crossover da Crise nas Infinitas Terras, que também deve situar como será a quinta temporada do seriado. O que fica claro até agora é que Kara Danvers tem uma mensagem importante para passar ao mundo e chegou a hora de ouvi-la.

Nota do Crítico
Ótimo