Cena de Super Drags/ Divulgação/ Netflix

Créditos da imagem: Cena de Super Drags/ Divulgação/ Netflix

Séries e TV

Crítica

Super Drags - 1ª temporada

Nova animação da Netflix samba na cara das críticas prévias, diverte e, surpreendentemente, educa

Rafael Gonzaga
09.11.2018
18h00
Atualizada em
09.11.2018
18h52
Atualizada em 09.11.2018 às 18h52

Super Drags, a nova animação nacional da Netflix, estreou no catálogo após a manifestação de alguns setores da sociedade - o suposto motivo do desconforto foi a associação imediata entre o formato de animação e o público infantil. Desenhos animados voltados para o público adulto não são exatamente uma novidade, já que séries como Os Simpsons e Family Guy estão em exibição há anos e a própria Netflix já investe em produções como BoJack Horseman, que aborda temas delicados como aborto e depressão. Super Drags mergulha na mitologia LGBT para dar vida a Patrick, Donizete e Ralph, três amigos gays que, ocasionalmente, seu transformam nas poderosas drag queens Lemon Chifon, Scarlet Carmesim e Safira Cyan combatendo os mais diferentes vilões.

Curiosamente, as retaliações que Super Drags sofreu antes mesmo da estreia vieram de uma parcela da população que está estritamente relacionada aos discursos de que o “politicamente correto” está destruindo o humor - o que, após assistir os cinco episódios da temporada de estreia da atração, é completamente contraditório. Super Drags pode chegar a ser constrangedora aos mais sensíveis pela quantidade de referências fálicas, anais ou sexuais no geral. Aliás, a série ser atacada justamente por quem defende a possibilidade de fazer comédia com absolutamente qualquer coisa, vai além de ser incoerente como mostra que o problema não é uma suposta liberdade humorística e sim a qualidade do humor. Super Drags é um atestado de que, aliando responsabilidade e qualidade, dá para tocar em qualquer assunto e arrancar risadas.

A série é um processo tão profundo de imersão na cultura popular LGBT que isso renderá experiências bastante distintas ao público, de acordo com o quão envolvido o espectador está nas referências específicas dessa realidade. Quando mais familiarizado o público estiver com virais, ícones e, principalmente, terminologias da comunidade LGBT - o famoso pajubá -, mais interessante e divertida será a experiência de acompanhar as aventuras das Super Drags. No extremo oposto, quem não estiver minimamente introduzido nesse universo, não só sentirá a necessidade de um glossário para entender as conversas entre as personagens como deixará passar batidas várias das referências mais geniais da série.

Outra coisa que pode gerar experiências diferentes é a escolha de assistir a série dublada em português ou em inglês. A dúvida sobre qual alternativa escolher é sinceramente válida: na versão nacional, Pabllo Vittar não só canta a música de abertura, “Highlight”, como dubla Goldiva, ícone LGBT que precisa da proteção das Super Drags, cujas vozes são feitas com maestria por Sérgio Cantú (Patrick), Fernando Mendonça (Donizete) e Wagner Follare (Ralph). Há ainda Silvetty Montilla como Vedete, Rapha Vélez como Lady Elza e Guilherme Briggs como Robertinho - prato cheio para quem gosta da dublagem brasileira. Já a versão em inglês pode agradar bastante fãs de RuPaul’s Drag Race, já que traz participantes famosas como Ginger Minj, Shangela, Trixie Mattel e Willam Belli no elenco.

Apesar de ser uma série repleta de exageros, Super Drags não é só galhofa. É muito comum que produções sobre LGBT optem por uma de duas vias: ou explorar a vivência de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais como fonte infinita de tragédia, ou ignorar os dramas característicos dessa realidade para produzir alívio cômico descontextualizado. Super Drags chega no meio termo razoável que deveria ser regra, mas que ainda é exceção. Após a apresentação dos personagens, cada episódio traz como pano de fundo algum tipo de lição de moral ligada à realidade LGBT. Patrick protagoniza um episódio sobre opressão estética; Ralph ilustra a perversa realidade de filhos que são expulsos de casa por conta de suas orientações sexuais e identidades de gênero. Super Drags diverte, mas passa uma mensagem construtiva e, ao seu modo, educativa que vai além de sua proposta óbvia.

Além das esperadas piadas sobre o mundo LGBT, há também muito humor ligado à cultura pop no geral e ao mundo do entretenimento. Nem a própria Netflix passa incólume ao “leque gongador”, uma das armas das drags: em um momento, as heroínas dizem que não viam tantos gays reunidos desde o “surubão contra o cancelamento de Sense8”, em outro há o questionamento se o grupo não foi parar no mundo invertido de Stranger Things. De fato, não há limites para as referências: durante os cinco capítulos, há homenagens a pessoas que vão desde Orlando Drummond, imortalizado pelo personagem Seu Peru da Escolinha do Professor Raimundo, até virais da internet como a grávida de Taubaté.

Assistir Super Drags é, no mínimo, um processo curioso para quem cresceu vendo desenhos como Meninas Superpoderosas, Três Espiãs Demais, Saylor Moon e, depois de mais velho, passou a assistir coisas como South Park - a série da Netflix é um encontro de dois mundos muito, muito distintos. O resultado positivo é fruto de um roteiro afinado e hiperativo com supervisão final de Paulo Lescaut, um dos criadores ao lado de Anderson Mahanski e Fernando Mendonça. Para uma produção experimental, Super Drags deixa pouca coisa ou nada a desejar. Aliás, deixa algo, sim, a desejar pelo público: uma segunda temporada, maior e mais encorpada.

Nota do Crítico
Ótimo