Séries e TV

Crítica

Stranger Things - 2ª Temporada | Crítica

Série amplia a escala, mas mantém foco nos personagens

Natália Bridi
27.10.2017
19h36
Atualizada em
28.10.2017
22h10
Atualizada em 28.10.2017 às 22h10

No princípio, Stranger Things era apenas uma série sobrenatural estrelada por Winona Ryder. Por mais que a Netflix esperasse um retorno positivo - o serviço de streaming requisitou antes da estreia que os irmãos Duffer planejassem um segundo ano - ninguém podia prever o fenômeno iniciado em 15 de julho de 2016. Oito episódios depois, em um fim de semana em frente à TV, a cultura pop ganhava novos personagens para amar e criar teorias mirabolantes em uma embalagem confortavelmente familiar - a quantidade de referências à década de 80 fez muita gente pensar que a série era o produto de um algoritmo da Netflix, reunindo os produtos favoritos dos seus assinantes.

Logo, a segunda temporada já começa muito diferente da primeira, com uma alta dose de expectativa para ser administrada pelos criadores, roteiristas e diretores, Matt e Ross Duffer, e pelo produtor-executivo e diretor Shawn Levy. A estratégia foi tratar o novo ano como uma continuação mais cinematográfica do que televisiva: Stranger Things 2 dizem os créditos de abertura. Ganchos são respondidos, mas o objetivo principal é ampliar o universo e os personagens em um grande filme de 9 horas (ou 8 horas e um longa derivado).

O plano dá certo. A temporada se divide como os três atos de um roteiro: os primeiros episódios reencontram personagens e estabelecem a ameaça (o Monstro das Sombras), a metade da temporada mostra as suas complicações e os dois últimos capítulos trabalham em torno da resolução. Elementos que parecem desimportantes em um momento ganham importância em outro e o grande mérito é como os Duffer amarram tudo ao final. A dupla sabe que não ganhou o coração do público só com mistérios e referências. A alma está nos personagens (e seu elenco perfeitamente escalado). Assim, ao mesmo tempo em que é um grande filme, Stranger Things sabe ser uma série de TV: há tempo para que todos os núcleos tenham a atenção merecida, há espaço para que todos tenham importância dentro da história.

Novas adições, como os irmãos Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery), encontram espaço para crescer em um arco criado para traçar um paralelo entre ameaças fantásticas de outras dimensões e o terror mundano, com efeitos igualmente devastadores em escalas diferentes. Bob Newby, o personagem de Sean Astin, também completa a trama, sendo usado tanto com uma peça para colocar a narrativa em movimento, como uma figura emocional (somado ao fato de ser easter egg afetivo dentro desse universo). Murray Bauman (Brett Gelman), o louco da teoria da conspiração, é outro usado com propósitos claros, mantendo o clima de paranoia da guerra fria.

As pontas soltas ficam com o laboratório de Hawkins. Dr. Owens (Paul Reiser), por exemplo, é inexplicavelmente bonzinho no mesmo ambiente em que antes reinava o Dr. Martin Brenner (Matthew Modine). Seu papel é limpar a bagunça deixada pelo vilão, mas seu o posicionamento ameno deixa muitas perguntas para a próxima temporada sobre o experimentos do Departamento de Energia. O mesmo vale para as revelações sobre o passado de Eleven (Millie Bobby Brown). Seu episódio solo - “A Irmã Perdida” -, que propositalmente destoa dos outros, inicia a sua autodescoberta, o seu amadurecimento, mas deixa novas evidências e velhos fantasmas para um outro momento.

Mesmo sem a amarra simples do primeiro ano - o desaparecimento de Will -, a série se mantém coesa. O foco são as novas relações entre os personagens, dividindo grupos para criar os conflitos que desenvolvam suas personalidades. O complemento são as referências  - Caça-Fantasmas, Aliens - O Resgate, Gremlins, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, A Garota de Rosa-Shocking, O Ataque dos Vermes Malditos,  O Exorcista, entre (muitas) outras do cinema, da TV , da música e dos games - que mexem com o imaginário do público, como se essa fosse uma grande brincadeira comunitária armada pelos Duffer. A série só peca quando tenta ser legal demais, quando a necessidade de inserir uma referência ou criar uma nova marca visual fica no caminho da lógica narrativa.

No todo, porém, Stranger Things 2 entende que não basta um orçamento maior para ser melhor e se mantém fiel às suas origens. A ameaça do Mundo Invertido cresceu, a série é mais ambiciosa visualmente, com belas tomadas abertas, bons efeitos visuais e uma montagem ágil, mas a conclusão permanece a mesma: é muito prazeroso assisti-la. Sai o impacto da surpresa da primeira temporada, fica a consistência para provar que esse não é um fenômeno vazio. 

Nota do Crítico
Excelente!