Pôster de Special

Créditos da imagem: Special/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Special - 1ª temporada

Gay e vivendo com uma leve paralisia cerebral, Ryan O’Connel estrela, escreve, produz e dirige a nova comédia do Netflix

Henrique Haddefinir
15.04.2019
15h08

Nunca foi fácil para Ryan O’Connel falar abertamente sobre sua condição. Não a de ser gay, claro, mas a de sofrer de um caso moderado de PC (paralisia cerebral). "Moderado" aqui é palavra-chave, já que possibilitou uma espécie de armário patológico. Toda vez que decidia se abrir com alguém, ele precisava sair do armário duas vezes: sobre ser gay e sobre ter uma deficiência. Quando decidiu que estava na hora de transformar tudo aquilo em interlocução, sua voz começou a ser ouvida como nunca havia sido antes. Hoje, seu livro de memórias virou uma série no Netflix, onde ele exerce o papel de autor, produtor, diretor e roteirista.

Jim Parsons – que todos conhecem como o Sheldon lá da teoria do Big Bang – foi uma das pessoas que os textos de Ryan conseguiram alcançar e, não por coincidência, tornou-se o produtor executivo da série. Special tem uma abordagem franca, direta e bem humorada sobre uma vida que precisa ajustar duas condições marginais. É uma perspectiva intrigante, já que geralmente as produções do tipo costumam focar ou em ser gay (como em Please Like Me) ou em ter uma deficiência (como em Atypical). Aqui estes dois focos dramáticos se encontram, mas preferem fazer comédia, daquele jeito emocional que se tornou tendência na era de ouro da teledramaturgia.

Ryan O’Connel virou Ryan Hayes e vive uma versão ficcional de si mesmo. Na série – assim como em sua vida - o rapaz sofre um acidente de carro logo antes de assumir uma posição como estagiário de uma revista digital. Ele, então, tem um insight e decide usar o acidente como razão para que alguns de seus movimentos sejam limitados. É curioso notar que em momento algum Ryan pensa em esconder que é gay, mas não consegue ser honesto sobre sua deficiência. É evidente que o fato de sofrer de um caso moderado exerce um papel determinante, já que isso possibilita que ele consiga "disfarçar". Assim, pode ser que nem todos se identifiquem com a série, mas ela abre um diálogo relevante sobre as fronteiras do preconceito contra deficiências. Até o momento em que ele não conta, sua sociabilização lhe parece um pouco mais confortável. A partir do momento em que as pessoas sabem, algo se transforma, de algum jeito.

... but I’m a creep

Special tem uma estrutura diferente, também. São poucos episódios e eles tem apenas 15 minutos de duração. Isso possibilita um ritmo mais intenso, mas também dificulta o mergulho em algumas posições que exigiriam mais problematizações. Sabendo disso, Ryan restringe a história a pequenos recortes, quase crônicos e poderia até mesmo adiar algumas das resoluções para próximos anos, mas não o faz. A dramaturgia tem um enfoque na construção das novas relações do protagonista e em como ele começa a tentar arriscar uma inserção nos prazeres do sexo casual, provido pela noite e pelos aplicativos. Essa angústia para ser parte da engrenagem socio-sexual da comunidade gay é uma angústia para ter uma vida sexual, enfim, antes de tudo.

Em tempos em que o mundo discute a existência de organizações como a Hand Angels, em Taiwan, que oferece voluntariado sexual a pessoas com deficiências, Special emite uma luz suave sobre a questão. Geralmente, pessoas com deficiência intelectual são sempre tratadas pelo resto de suas vidas como se fossem crianças angelicais. Ligá-las ao desejo soa quase como se aquilo fosse um abuso, mesmo que muitas dessas pessoas desejem e precisem de estímulo erótico. Em Glee, quando transformou Beck (uma menina com síndrome de down) em vilã, Ryan Murphy estava tentando fazer a mesma colocação que Special faz agora: pessoas com deficiências intelectuais – algumas delas – podem ser ambivalentes como qualquer outro ser humano.

Em seus poucos episódios a série explora muito bem os anseios do jovem Hayes (que como centralizador da ação consegue ser extremamente carismático) não só com relação ao sexo, mas também com relação a como sua mãe (vivida por Jessica Hetch) ainda não consegue aceitar sua independência. Nisso, inclusive, Special e Atypical se correlacionam muito. A diferença maior está em como o texto de O’Connel, mesmo que teatral demais às vezes, busca uma exposição mais sincera. A sequência em que faz sexo pela primeira vez, inclusive, poderia facilmente ser descrita com obscuridade, mas são o texto e a direção calma, sensível, que possibilitam que a experiência seja terna, o que é essencial para a formalização das emissões que a série precisa e deve fazer.

Espera-se que a renovação aconteça e Ryan já declarou que o segundo ano terá episódios de 30 minutos. Special realmente precisa de mais tempo para colocar em vigência o seu lugar de fala. Ainda que não alcance todas as pessoas com deficiência, ela abre a possibilidade de naturalização de uma condição imutável. E demorou para que essas pessoas tivessem a mesma chance de naturalização. Não é fácil, na cabeça de Ryan, que as pessoas se apaixonem por ele. Por isso que o olhar da ficção, quando bem feito, é tão importante. Special tornou-se uma conquista e está evidenciando a libertação de uma nova expressão de sensualidade e erotismo.

Nota do Crítico
Ótimo