Cena da quarta temporada de Sob Pressão

Créditos da imagem: Divulgação

Séries e TV

Crítica

Sob Pressão engessa sua narrativa, mas termina com otimismo sua quarta temporada

Com mais um ano pela frente, Sob Pressão mantém tópicos importantes no roteiro, mas continua excessivamente focada em seus protagonistas.

Henrique Haddefinir
24.10.2021
16h09
Atualizada em
24.10.2021
16h20
Atualizada em 24.10.2021 às 16h20

Os chamados “procedurais” (episódios com histórias semanais isoladas) dominaram a televisão americana nos anos 80 e 90. As séries que se sustentavam nessa pilastra eram geralmente médicas ou criminais; e tinham todas a mesma métrica: uma cena inicial mostrando um crime ou um acidente e após a abertura, os protagonistas apareciam para resolver o caso ou lidar com os aspectos humanos dele. Nesse sistema, as vidas dos personagens que costuram a produção não são focalizadas substancialmente. Recepcionistas, telefonistas, enfermeiros e todos os que ocupavam funções terciárias eram capazes de passar anos a fio sem nem mesmo ter o seu cenário pessoal, como a própria casa.

É importante relembrar essa estrutura porque, de fato, Sob Pressão não está fazendo nada de novo. Está, na verdade, fazendo o mesmo que sempre se fez na televisão brasileira, mas está fazendo bem. Em alguns momentos, ela escapa mais da obviedade procedural, em outras ela abraça essa recorrência descaradamente. Em grande parte, essa repetição sistemática ocorre no campo inconsciente. O roteirista, antes de tudo, é um espectador; e é inevitável que você acabe escrevendo sobre o que você conhece bem. Seja em Sob Pressão agora ou em Mulher (série médica de Euclydes Marinho, entre 1998 e 1999) lá no passado, as séries brasileiras insistem na reprodução automática e acabam se dividindo entre fazer isso bem e escapar do escrutínio ou soar como uma simples cópia.

O caminho de Sob Pressão sempre foi bem equilibrado. O fato de contar histórias médicas longe do contexto luxuoso das séries americanas foi o que acabou colocando a série fora do lugar comum. Por um lado, a realidade do SUS afasta a série da comparação direta, mas o fetiche pelo protagonista atormentado volta a aproximá-la das fórmulas. Evandro (Júlio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano) foram construídos de forma tão dramaticamente extrema que quando os roteiros desviavam do procedural e iam para a costura central, era quase inevitável não priorizar a demanda emocional deles.

Sob Nova Direção

Uma grande evidência de tudo isso é que de todos os novos plots apresentados antes da estreia, apenas o do filho de Evandro foi devidamente explorado. Isso pode ser uma decisão criativa consciente, mas também pode ser uma falha na escaleta da temporada. Em alguns casos, duas ou três cenas resumiam o que a divulgação prometia como um “novo rumo”; mas, logo em seguida, os coadjuvantes estavam novamente estagnados em suas posições clássicas.

Uma das maiores expectativas era com relação à nova posição de poder de Charles (Pablo Sanábio), um personagem conhecido pela vulnerabilidade e pela energia George O'Malley que acabava tornando-o um dos mais queridos pelo público. Fazia sentido que Evandro, controlador e mais experiente, fosse manter um embate direto com ele. E é claro que isso aconteceu, mas no curso da temporada, as pitadas de abordagem se restringiram a mostrar Charles cometendo erros e acertos que ainda o situam na trama dentro do mesmo lugar, sob o mesmo olhar dos colegas, respondendo das mesma maneira já esperada por ele, o que é coerente com o personagem, mas não com a promessa de evolução.

Décio (Bruno Garcia) é outro exemplo de desperdício. Ele tem um grande episódio, no incêndio, quando a vida amorosa dele também é levemente explorada. No resto do tempo, Décio é o homossexual heteronormativo esterelizado que não oferece nenhum incômodo para um audiência conservadora. Ele passou por uma uma momento de autoaceitação que justificou muito da presença do personagem na série, mas foi como ver Julien (Michael Jace), da série The Shield, acontecendo de novo: temos uma personagem gay, falamos dele por alguns episódios e dali por diante, ele é um background. Um carismático e competente background.

Carisma também é a palavra que representa o papel da Dr. Vera (Drica Moraes) na série. Ela tem uma presença fortíssima, não desperdiça nenhuma cena, mas apesar do pouco investimento na relação com o filho, se tornou uma interlocutora de praticamente todos os casos que surgem pelo hospital. Ela é o trunfo no diálogo do terraço, no diálogo com o paciente, no diálogo com a família e o ensaio de um romance com Mauro (David Jr.) foi tão absolutamente sutil e superficial que acabou não interferindo nem nas nossas expectativas sobre o casal.

O que fica mesmo, no final das contas, foi o enredo envolvendo o filho de Evandro, que por mais que tenha sido defendido com unhas e dentes por Julio e Marjorie, também não foi a saída mais original para salvar os dois personagens do ciclo de misérias em que vivem sendo colocados há muito tempo. No final, quando essa criança é pacificamente partilhada por três pessoas, nem parece coisa de Sob Pressão, mas traz um otimismo bem-vindo para uma série que está sempre disposta a usar as mazelas sociais vigentes como pontos de choque.

A quarta temporada já está toda disponível no Globoplay e a quinta vem aí. Ainda é muito importante ver as injustiças e negligências governamentais com relação ao SUS. Mas, essa é uma peça de dramaturgia e não podemos deixar de tratá-la como tal. Sob Pressão tem muita competência para tratar de seus assuntos, mas ela prioriza protagonistas em detrimento do potencial de quem é tão importante para o funcionamento do hospital quanto quem está na frente dos créditos. A fórmula procedural ainda funciona, mas abrir mão dela só um pouquinho pode ser um remedinho certeiro na saúde da produção.

Sob Pressão
Em andamento (2017- )
Sob Pressão
Em andamento (2017- )
Nota do Crítico
Bom

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