Siren - 2ª temporada

Créditos da imagem: Freeform/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Siren - 2ª temporada

Siren continua surpreendendo ao tratar a mitologia das sereias de forma sombria, mas quase estraga tudo com seu covarde final de temporada

Henrique Haddefinir
06.08.2019
16h08

Quando ficou estabelecido que Siren (o novo hit do Freeform) teria uma segunda temporada com muito mais episódios que em sua primeira, o medo de todos os espectadores que gostaram da abordagem dos criadores Dean White e Eric Wald era de que a trama se perdesse em excessos dramatúrgicos típicos dos universos fantásticos. A expansão exagerada de uma mitologia é um caso recorrente em segundas temporadas de qualquer tipo de série. Afoitos, os criadores pegam tudo que deu certo e reproduzem com três tons acima, criando ciladas para si mesmos, já que manter o controle de tudo depois fica impossível.

E Siren é um prato cheio para exageros. A mitologia das sereias é tomada de possibilidades e a premissa da série foi ajeitada para que essas possibilidades ficassem sempre em aberto. A chegada de Ryn (Eline Powell) até Bristol Cove fazia com que a história fosse apoiada naquela sempre eficaz fórmula do “estranho no ninho”. Geralmente em séries que envolvem elementos fantásticos os criadores não resistem e não conseguem ficar no minimalismo, acabando por ramificar alguns desses elementos até a exaustão. Era um medo real de que, de repente, a sereia se tornasse um trunfo estapafúrdio cheio de poderes, por exemplo.

Surpreendentemente, não foi esse o caminho escolhido por Dean e Eric. Siren retornou para 16 desafiadores episódios, mantendo o flerte de sua trama com elementos fantásticos sedutores, mas nunca esquecendo do pé no chão. Com uma temporada bem organizada e respeitosa com o que já tinha sido estabelecido até aqui, a série – que pode ser considerada por alguns só mais uma “novelinha água-com-açúcar” – reafirmou seus tons obscuros, não caiu no romantismo barato e ainda situou sua trama muito bem em questões sócio-ambientais. Se não fosse seu final de temporada desnecessariamente manipulador, teria sido uma temporada bastante respeitável.

Em busca da “Pequena Sereia”

Uma das storylines propostas, à primeira vista, pela dramaturgia de Siren era a óbvia tensão sexual existente entre Ryn e Ben (Alex Roe). Ou pelo menos foi isso que o público pensou presenciar nos primeiros episódios. Quando, contudo, a namorada de Ben, Maddie (Fola Evans), também é afetada pelo “canto da sereia” e passa a dividir com ele as atenções de Ryn, a série começa a provar que está disposta a sair do lugar comum. Quando a segunda temporada começa e ficamos cientes de que esse é um trio que não se abaterá em nome do romantismo heteronormativo vigente, a sensação é de alivio (e até de orgulho). Sem precisar desenvolver esse tipo de storyline, a série constrói arcos muito mais interessantes que envolvem, de verdade, a relação entre as sereias e a cidade.

Com a exploração dos recursos naturais de Bristol Cove em pleno vigor, outros habitantes da colônia de Ryn precisaram escapar de ondas sonoras fatais emitidas pelos equipamentos dessas explorações. Assim, eles acabam indo parar sob a tutela de Ben e Maddie. É claro que para um ator ou atriz o papel de sereia não é exatamente um prêmio, já que cair no caricato meio “eu Tarzan, você Jane” é muito natural. Então, enquanto Eline já domina sua técnica com segurança, os outros não ajudam exatamente na credibilidade da coisa. Mesmo assim, é interessante acompanhar as sequências que vão dando mais detalhes da vida das criaturas. O processo de transição de sereia para humano é sempre extremamente dolorido e os roteiros usam esse recurso com cuidado e impacto, todas as vezes.

A partir da segunda metade da temporada o foco passa a ser a tentativa de reprodução da espécie e, então, a série ganha mais ainda. Por conta da poluição das águas as capacidades reprodutivas da colônia foram aniquiladas e eles estão em extinção. Espertamente, o roteiro encontra uma maneira de manter o protagonismo de Ryn e ao mesmo tempo conectá-la às outras histórias. O caráter violento das criaturas é reforçado em todas as oportunidades e os criadores não cedem ao impulso de suavizar nada, nem mesmo o processo de copulação.

Contudo, a trama que envolve os descendentes da cidade continua ocupando muito espaço e despertando pouco interesse. Núcleos como o dos pais de Ben seguem subaproveitados e a Helen de Rena Owen não acontece por mais que os roteiros se esforcem muito. Infelizmente, a decisão de fazer o final de temporada estancar o fluxo dos acontecimentos com um recurso inadmissível nos dias de hoje, estapeia a performance de Siren na segunda temporada de maneira brutal. Que Melissa Rosenberg precise enganar o público com uma visão de Alice em Amanhecer Parte 2, tudo bem. O livro final de Stephenie Meyer não tem clímax e aquele teve que ser inventado. Mas, Siren caminhava para muitas possibilidades de impacto e os criadores escolheram gastar todo o seu episódio final com uma fantasia.

Há tempo de se desculpar, entretanto. A terceira temporada de Siren está garantida e só podemos esperar que deslizes como esse nunca mais sejam cometidos.

Nota do Crítico
Bom