Foto de Shippados

Créditos da imagem: Shippados/Globoplay/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Shippados - 1ª temporada

Fernanda Young e Alexandre Machado retornam à problematica dos relacionamentos, dessa vez apostando na linguagem da internet e no carisma de Tatá Werneck

Henrique Haddefinir
13.06.2019
10h25

As carreiras de Fernanda Young e Alexandre Machado na TV são tomadas de experiências intensas, que oscilam entre o popularesco e o extremamente peculiar. Não à toa, essas são características da literatura de Young, que é muito eficiente na construção de sua prosa e fica com a tutela midiática de quase tudo que ela e o parceiro fazem. O sucesso absoluto de Os Normais (série que ainda é a mais original e importante da teledramaturgia brasileira) gerou uma sequência de novos investimentos igualmente provocativos e igualmente tomados de estrelas. Vieram Os Aspones (com Selton Melo), Separação (com Debora Bloch), Macho Man (com Marisa Orth), O Dentista Mascarado (com Marcelo Adnet) e até o recente Vade Retro (com Monica Iozzi). Há ainda outros exemplos e todos reforçam a confiança dos atores no texto da dupla e a confiança da emissora no trabalho deles, ainda que muitos desses títulos não tenham alcançado longevidade.

A contribuição de Tatá Werneck com Young e Machado era quase uma inevitável. Rápida, sagaz e com um timing agudo, a atriz era a interlocutora perfeita para o texto da dupla, que depende muito de sensibilidade para ser descolado do papel com a naturalidade que precisa para ser engraçado. Esse mesmo texto – que busca às vezes o escracho e a escatalogia – também detém uma elegância inegável na sua construção humana, o que nada mais é que uma capacidade de revirar algumas emoções reais em meio ao absurdo. É uma dinâmica que permite o riso completo, a gargalhada, e também o prazer de simplesmente notar a sagacidade, a referência.

No entanto, assim como as trajetórias de Young e Machado têm esses características persecutórias, a de Werneck também busca o equilíbrio entre seus trunfos e seus desafios. Por isso, a trama de Shippados busca no desajuste social a sua base para contar a história de Rita (Tatá) e Enzo (Eduardo Sterblitch), dois jovens que estão completamente afetados pela dificuldade de comunicação típica da contemporaneidade. Ela fala com o público que assiste seus vídeos. Ele nem isso. Quando a ansiedade para o romance os encontra, eles são obrigados a se jogar no mundo, o que os leva a perceber que suas habilidades sociais são praticamente nulas. Eles caem, então, num ciclo amargo de decepções que gera neles mesmo – e na audiência – uma sensação de que realmente não há ninguém capaz de amá-los.

#Rizo

A ideia é exatamente essa, delinear a miséria emocional dos protagonistas para que torçamos por eles, para que os "shippemos". O enredo preparado pelos criadores é muito eficiente nesse sentido, dando a Enzo uma natureza romântica hesitante, uma personalidade peculiar, estranha, que vê na chance de amar uma chance de se sentir aceito. Já Rita é defensiva, por vezes mal humorada, treinada por anos a ser mais dura por conta de uma mãe manipuladora que tem pavor de vê-la ser feliz. Rita foi abandonada pelo pai (que não sabe quem é), pela mãe (que não sabe ser amorosa) e por um monte de caras que nunca compreenderam suas complexidades. Ela e Enzo se encaixam bem, mas há tantos traumas entre eles que seria impossível para o casal funcionar imediatamente, o que é perfeito para que o título da série seja devidamente contextualizado.

Os "shipps" nasceram entre o público de séries de TV, nos tempos da primeira versão de Star Trek. O termo se origina da palavra relationship (relacionamento) e só se tornou popular nos anos 90, quando os fãs da série Arquivo X o ressuscitaram. Por definição, shippar é torcer por um casal da ficção que seja improvável ou que demore muito a acontecer. Em Arquivo X, a discreta relação entre Mulder e Scully gerou uma imensa expectativa pelo enlace, que demorou quase 10 anos para se concretizar. Então, muito sabiamente, Young e Machado não se deixaram seduzir pela presença de comediantes no elenco e estabeleceram uma história que precisa ser contada, uma história sobre dois indivíduos desajustados na sociedade, donos de uma vida cinza, que se apaixonam e precisam vencer todos os imperativos sabotadores que possuem se quiserem ficar juntos. O casal Rizo tem dificuldades para vencer e a série precisa que seja difícil, árduo, para que a torcida se fortaleça e o shipp viralize.

#FriendSHIPP

Apesar de todas essas humanidades profusas, Shippados não deixa de ser uma série de comédia focada em pessoas, que podem ser bastante malucas. São três casais rondando a trama: além de Rita e Enzo, Clarice Falcão e Luis Lobianco passam 80% da temporada pelados. Eles são os colegas de quarto de Enzo e são daqueles casais absurdamente ligados, que praticamente viram o outro. Já o outro casal começa ao mesmo tempo que o casal Rizo: Hélio (Rafael Queiroga) e Suzete (Júlia Rabello) são práticos, diretos, não se deixam levar pela super análise de nada, o que é o completo oposto do que acontece entre Enzo e Rita, que – muito mais por causa dela – vasculham neuroticamente tudo que pode impedir ou fazer funcionar aquela relação. Ela, acostumada a ser abandonada, executa sabotagens inconscientes constantes e ele, apaixonado por ela, só não quer ser deixado novamente.

Em 12 episódios, a temporada tem uma costura simples, se divide entre Enzo e Rita se envolvendo entre si e com os novos amigos (é natural, por exemplo, shippar Rita e Brita por mais que as personagens se choquem); e a busca de Rita pelo pai. Aqui, o papel de Dolores (Yara de Novaes), mãe da protagonista, é essencial. É Dolores que ocupa o posto de “vilã”, sacrificando a sanidade da filha para impedir que ela seja independente. Mas, é interessante ver como as relações entre pais e filhos são observadas unilateralmente, quando um episódio mostra Enzo descrevendo seus pais de maneira horrível, ao passo em que a verdade tem sua própria versão. Esse também é um clássico de Fernanda Young em sua literatura.

O apelo midiático e artístico dos elencos das produções da dupla de autpres é notório. Em Shippados ele também se conecta muito rapidamente. Eduardo Sterblitch tem uma composição muito segura de Enzo, quase como se ele se inspirasse em autistas. Tatá Werneck descobriu a comédia na defensiva de Rita, em seu mau humor. Como sempre acontece (a despeito do que dizem seus detratores) a atriz busca uma identidade para a personagem, que vai desde a agressividade involuntariamente cômica, ao jeito que ela anda puxando as tiras da fivela da mochila. A direção artística de Patrícia Pedrosa é delicada, escolhe bem os pontos dramáticos estratégicos e usa uma trilha sonora típica da juventude universitária carioca. É uma série de Rio de Janeiro mesmo, de Lapa, de centro da cidade, de metrô e Los Hermanos.

Disponível por enquanto apenas na Globoplay, Shippados é um belo retorno de Fernanda Young e Alexandre Machado ao que os consagrou: a delícia e a dor de um relacionamento. Os dois passaram algum tempo investindo em ideias fantásticas e mal sucedidas como O Dentista Mascarado e Vade Retro, que mesmo tendo um ou outro bom elemento, careciam da crônica urbana que eles sabem fazer tão bem. É bom perceber – quando a temporada termina – que seu propósito de nos fazer torcer pelos personagens foi alcançado e que mesmo com uma história simples, a vontade de saber para onde ela vai é genuína. E não só pelo casal, mas por todos os outros ships que nos cercam naquele universo. A série é sobre aceitar diferenças, sobre ver o amor pelas óticas mais peculiares, sobre como a internet nos tornou rígidos e por consequência tornou todo o resto do mundo descartável. E andamos precisando de algumas lições sobre isso, algumas poucas lições sobre não desistir.

Nota do Crítico
Ótimo