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Crítica

Sherlock - 4ª temporada | Crítica

Série decepciona, mas confessa seus erros

Natália Bridi
16.01.2017
17h50
Atualizada em
16.01.2017
18h46
Atualizada em 16.01.2017 às 18h46

[Cuidado, possíveis spoilers abaixo!]

A conclusão de Sherlock é uma confissão. Nos segundos finais, Mark Gatiss e Steven Moffat deixam subentendido o seu fracasso em manter a qualidade estabelecida nas duas primeiras temporadas, atestando as idas e vindas emocionais da série como uma tentativa vã de levar seus personagens a um lugar onde jamais iriam. Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch), afinal, “é o viciado que resolve crimes para ter um barato” e Watson (Martin Freeman) “é o médico que nunca voltou da guerra”. Fim.

O que os criadores da série não entenderam antes é que o que fazia a sua reinvenção do clássico personagem de Arthur Conan Doyle especial não era a possível evolução emocional de um sociopata altamente funcional, mas a fidelidade com que a personalidade criada em 1887 foi levada para os anos 2010. Sherlock Holmes, assim como Batman ou James Bond, precisa ser o caráter imutável que percorre diferentes histórias, não o contrário. É a sua distância do leitor, ou do espectador, que torna a sua visão interessante. Qualquer tentativa de mudança excessiva, de humanização demasiada, encerra o conflito. E sem conflito não há história.

Esse desvio narrativo começou na metade da terceira temporada. Mary (Amanda Abbington) seria a antagonista natural para o “bromance” de Holmes e Watson, mas a personagem foi atualizada como um clichê por Gatiss e Moffat. Não bastava ser uma mulher forte, ela era uma espiã, inteligente e destemida o suficiente para que Sherlock a aceitasse. A relação do detetive com Watson, que servia de ponte entre esse ser fantástico e o mundo comum, começou a perder a força. Mary, por sua vez, ganhou um espaço desnecessário nos episódios.

A prova está no desfecho da personagem no fraco “The Six Thatchers” (um amontoado de reviravoltas em uma montagem enfadonha) e na consequente melhora de qualidade do episódio seguinte, “The Lying Detective”, quando a loucura de Sherlock, a sua relação com Watson e um mistério voltam a ser o centro das atenções. Mary, porém, continuaria a rondar a temporada até o instante final, determinado o que precisava ser feito e dito, como uma cola preguiçosa descoberta pelos roteiristas.

Outro erro foi sugerir o retorno de Jim Moriarty. Por mais que Andrew Scott seja magnético em cada aparição afetada do vilão, a sua ligação com a atual temporada foi forçada e desimportante. A obsessão que deveria despertar em Sherlock não se concretizou, resumindo-se a algumas palavras. Sua ligação com “The Final Problem”, o derradeiro episódio, não passou de um easter egg, mais um subterfúgio usado por Gatiss e Moffat para criar a ilusão de uma série muito mais planejada e inteligente do que realmente era.

Assim é a última questão a ser resolvida pelo maior detetive do mundo. A série estabelece um conflito de intelectos do clã dos Holmes que pode enganar o público como A Roupa Nova do Rei - apontar que Sherlock era uma boa ideia que se esgotou parece uma gafe, uma declaração de ignorância e de falta de apreço pelo trabalho de Cumberbatch e Freeman. Acontece que Mark Gatiss e Steven Moffat deixaram várias pistas ao longo do último ano para levar a uma única dedução: a série precisava acabar pois não havia mais nada a ser contado. “Tudo se resume à lenda. As histórias, as aventuras” é a conclusão da onisciente Mary e é isso que fica. Os bons episódios em que Sherlock Holmes e John Watson mostravam que a possibilidade mais simples é sempre a verdadeira.

Nota do Crítico
Regular