Imagem de She-Ra e as Princesas do Poder

Créditos da imagem: She-Ra e as Princesas do Poder/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

She-Ra e as Princesas do Poder - 3ª temporada

Novos episódios da animação focam na importância de encarar a realidade, com todas as suas dores e alegrias

Camila Sousa
09.09.2019
12h21

Acompanhar o amadurecimento de uma personagem é algo, ao mesmo tempo, gratificante e doloroso. É esse sentimento que acompanha os fãs na terceira temporada de She-Ra e as Princesas do Poder, animação já disponível na Netflix. Começando imediatamente após o término da segunda, a série mostra a busca de Adora por respostas e foca na história de Felina para mostrar o quão importante é encarar a realidade.

Como já aconteceu em temporadas anteriores, a trama da protagonista é importante, mas não a mais interessante. Nos novos episódios, o maior destaque narrativo é exatamente para a vilã Felina e suas motivações. Deixada de lado por Hordak e Sombria, a personagem chega a um ponto em que não tem nada a perder, como ela mesmo define: “pessoas têm dias ruins, eu tive uma vida inteira”. Enviada para sofrer em um local afastado de Etéria, ela desenvolve ainda mais sentimentos ruins como vingança e ciúmes, especialmente em relação a Adora.

A tristeza pulsante que Felina carrega em sua expressão é resultado de uma vida recheada de tristezas e pouco reconhecimento. A série acerta bastante ao ter o cuidado de mostrar parte desse processo. Em certos momentos são usados flashbacks para revelar o quanto Felina era frágil em sua juventude e contava com o apoio de Adora para tudo. Mas quando essa base foi tirada de sua vida, não lhe restou nada além de mágoa e sentimentos ruins.

Com tantas questões profundas, a história de Adora fica um pouco apagada na temporada. Não que seus conflitos não sejam importantes, mas eles seguem muito mais um padrão da “jornada do herói” e por isso há pouca novidade em comparação com outras obras. Há sim um amadurecimento visível da jovem, que descobre mais sobre seu passado e família - algo que pode até levar à apresentação de He-Man no futuro. Mas fica a sensação de que os criadores da série animada escolhem deixar a história de Adora mais linear e usam seus coadjuvantes para experimentar outros caminhos, algo enriquecedor para o seriado.

Outro exemplo é exatamente com mais um vilão. Apresentado até aqui sem camadas de desenvolvimento, Hordak ganha uma história própria, uma motivação para ser quem é e até desenvolve uma amizade curiosa com a princesa Entrapta. Na verdade, sua trama é muito semelhante a de Felina, o que gera um espelhamento interessante. É como se o seriado apresentasse a mesma questão em momentos diferentes: enquanto Felina está começando a deixar os sentimentos ruins tomarem conta, Hordak já fez isso há muito tempo e segue um caminho bem mais sombrio.

Há ainda duas personagens que merecem destaque na temporada pelas discussões que representam. A primeira é a gentil Scorpia, que acompanha Felina em toda a sua jornada. Desde outras temporadas foi estabelecido que a personagem tem uma grande admiração pela vilã. O seriado deixa implícito que esse sentimento é amoroso, o que poderia tornar as duas um casal lésbico, mas a história segue um caminho diferente na temporada. Com Felina cada vez mais perdida em sua jornada de ódio, a relação estabelecida com Scorpia é quase abusiva. Quando tudo está bem e a vilã conquista o que quer, ela reconhece a ajuda de Scorpia, deixando a princesa completamente feliz e satisfeita com o mínimo de afeto. Mas quando problemas acontecem, ela imediatamente desconta tudo em sua companheira, o que cria um vínculo tóxico entre as duas. Por gostar muito de Felina, Scorpia aceita migalhas de afeto, nem que para isso tenha que sofrer em todos os outros momentos. Ao mostrar uma relação dessa forma, She-Ra e as Princesas do Poder cumpre um papel importante de falar sobre o assunto e até ajudar alguém que está passando pelo mesmo a reconhecer os sinais.

O segundo nome da lista é a nova personagem, Huntara. Mostrada na temida Terra Vermelha, ela aparece no começo como uma possível vilã, mas ganha a admiração de Adora e rapidamente começa a ajudá-la. A discussão que Huntara traz é sobre perder a esperança de algo melhor. Apesar de liderar um lugar considerado completamente hostil e ser extremamente poderosa, tudo isso esconde o cansaço de lutar pelo que acredita. Huntara ficou na Terra Vermelha para fugir da eterna disputa entre a Horda e a Rebelião/Princesas, já que ela não viu possibilidade de vitória do segundo grupo. Indo além, quando conhece Adora e o esforço das demais princesas, ela não quer se deixar acreditar que tudo pode ser diferente agora, pelo medo de se decepcionar mais uma vez. Abaixo de uma aparência forte, Huntara prefere não sentir, do que se permitir tentar e descobrir um futuro novo e incrível.

Como não poderia ser diferente, a terceira temporada de She-Ra e as Princesas do Poder termina com um embate entre Adora e Felina. A série cria um episódio diferente, que mostra como seria a vida da protagonista se ela não conhecesse as princesas e nunca tivesse se tornado She-Ra. Adora era bem sucedida dentro da Horda, tinha amigos e pessoas que se importavam com ela, incluindo Felina, e sua vida seria feliz ali. No entanto, tal vida perfeita jamais teria dado a Adora todo o amadurecimento que ela mostra ao final da temporada. Ela seria sempre a mesma, sem sair do lugar e evoluir. Quando percebe isso, Adora supera os poderes de Felina e finalmente entende algo muito importante: ela não tem culpa de nada. Por ser tão amiga da vilã e muitas vezes melhor do que ela, a protagonista sempre carregou uma camada de culpa por todas as dores de Felina. Mas ao ter sua ajuda negada, Adora percebe que não é possível salvar quem não quer se salvar e chegou a hora de deixar a culpa e o passado para trás.

Unindo todas essas questões, a terceira temporada de She-Ra e as Princesas do Poder termina deixando muitos ganchos para o futuro e a certeza de que há mais história para contar. Seria muito interessante ver o príncipe Adam inserido nesse contexto, mas mesmo se isso não acontecer, vale muito a pena acompanhar a história de Adora, Cintilante, Arqueiro, Felina, Entrapta e muitos outros.

Nota do Crítico
Ótimo