Imagem de She-Ra e as Princesas do Poder

Créditos da imagem: She-Ra e as Princesas do Poder/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

She-Ra e as Princesas do Poder

Nova animação da Netflix é uma encantadora história de amadurecimento

Camila Sousa
30.12.2018
14h22
Atualizada em
30.12.2018
14h50
Atualizada em 30.12.2018 às 14h50

Quando a nova animação de She-Ra foi anunciada e seu visual revelado, uma enxurrada de críticas surgiram na internet, principalmente dos fãs da série clássica dos anos 80. Porém, ao assistir à temporada completa fica claro que a nova série não é para o público antigo, nem uma homenagem. She-Ra e as Princesas do Poder é uma encantadora história de amadurecimento, cheia de lições importantes e que combina muito bem com as novas gerações.

A trama começa mostrando que Adora é uma jovem destemida criada dentro do grupo chamado Horda. Seu treinamento foi duro e a realidade em que vive tem pouco afeto. Mas essa é a vida que ela sempre conheceu e por isso não a incomoda. A grande fonte de sentimentos da garota é sua amiga inseparável Felina, que tem uma personalidade bem diferente, mas está ao lado da protagonista desde a infância. A história prossegue como uma clássica jornada do herói, Adora saí de seu mundo comum e descobre que tem uma missão importante: ela é a escolhida para ser a nova She-Ra, protetora de Etheria.

Mas a forma como essa jornada de amadurecimento é mostrada é o que torna a animação tão rica. O primeiro ponto é que Adora não se torna completamente confiante a partir do momento em que se transforma em She-Ra. Ela entende que tem mais poderes. Mas, quando retorna à sua forma normal, a jovem demonstra que muitas vezes não sabe o que fazer. Embora as pessoas esperem grandes feitos da heroína, ela está apenas começando a entender quem realmente é. Essa vulnerabilidade coloca Adora em uma posição de identificação com seu público. Afinal, nem sempre as pessoas sabem o que fazer, mas, como dizia Carrie Fisher, o importante é continuar, que a confiança virá com o tempo.

O conflito entre a Horda e a Rebelião, liderada pelas princesas, é outro ponto que merece destaque. Como foi criada no primeiro grupo, Adora acredita que todas as princesas são ruins, afinal esse conceito foi passado a ela desde a infância. É só quando a protagonista cai (literalmente) no mundo das princesas é que descobre que as coisas não são bem assim. Ela percebe que estava no lado errado da história e que a Horda é a parte ruim de Etheria. Sua presença na Rebelião também faz este grupo entender melhor como funciona a Horda. Ou seja, a série mostra claramente como dois grupos que não se conhecem criam uma disputa baseada inteiramente em preconceito, e como crenças ultrapassadas podem causar grandes danos nas novas gerações, que herdam os conflitos, mas não sabem exatamente pelo que estão lutando.

Uma das missões de Adora no decorrer da história é refazer a Aliança das Princesas, uma união feita em outras gerações para proteger Etheria e lutar contra a Horda. Esse é outro ponto que merece um destaque muito positivo, porque cada princesa tem características próprias que enriquecem a trama do seriado. Glimmer, por exemplo, é a primeira princesa que Adora conhece. Ela é forte, tem o poder de se teletransportar e quer provar para a mãe que pode ser tão poderosa quanto seu pai foi um dia. Já Entrapta é descrita como a “princesa nerd”, totalmente ligada à tecnologia e curiosa com o funcionamento das coisas. Perfuma é responsável por uma parte pacífica de Eternia e tem o poder de controlar as plantas. Nenhuma dessas características cai nos estereótipos clássicos. Cada princesa tem qualidades e defeitos que são mostrados ao longo da história (mesmo que algumas tenham menos espaço do que outras) e o design delas reflete como suas culturas são diferentes. Ao fazer isso de modo orgânico, She-Ra e as Princesas do Poder mostra para toda uma nova geração que diferenças existem, são naturais, e que ninguém não precisa ter medo ou destruir o que é diferente, como a Horda faz em Etheria. Cada princesa tem uma história e uma origem, e explorar isso mostra a importância de ir além das aparências.

Por fim, mas não menos importante, a série animada dedica um episódio inteiro para falar sobre relações abusivas, nesse caso de maternidade. Como dito anteriormente, Adora cresceu em um ambiente sem afeto dentro da Horda, e a grande responsável por isso é a vilã Sombria. Apesar de ter criado a jovem e mostrar grande interesse pelo desenvolvimento de suas aptidões, Sombria afirma que a garota é totalmente dependente e não seria nada sem ela. Assim, ela desperta os maiores medos e inseguranças de Adora e a luta contra isso tem uma representação visual muito delicada, porém poderosa para quem já passou por algo parecido. Para seguir em frente, Adora precisa deixar aquele passado difícil para trás e esse não é um processo fácil. Felina também passa por algo parecido, mas ao colocar esse conflito na personagem principal, a série mostra que até a pessoa mais forte tem problemas para superar traumas e às vezes é preciso pedir ajuda.

Ao comparar as artes da She-Ra do passado com a She-Ra do presente, fica claro o quanto  as duas são diferentes. A Adora de 2018 não é extremamente magra, não usa maiô e não luta com uma bota de salto. A jovem mostrada aqui teve uma infância difícil e ainda está tentando descobrir quem é. Mas, ao longo de 13 episódios, She-Ra e as Princesas do Poder provou que essa é uma história de crescimento que vale a pena acompanhar.

Nota do Crítico
Excelente!