Foto de Sempre Bruxa

Créditos da imagem: Sempre Bruxa/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Sempre Bruxa - 1ª temporada

Série teen colombiana peca pela extrema superficialidade do próprio universo

Henrique Haddefinir
06.02.2019
11h26

Uma boa série teen de fantasia não se faz com altos orçamentos, disso nós todos sabemos. Esse é um ponto de análise importante, sobretudo porque o público liga a TV para assistir uma série sobre bruxas, magos e unicórnios esperando o mínimo deles. Muitas vezes um bom roteiro até absolve uma produção que economiza nos efeitos e Once Upon a Time esteve aí provando, com péssimos resultados visuais, que um texto bem resolvido supera limitações. O orçamento é importante, mas ele é só um dos aspectos essenciais de uma boa produção fantástica. Em alguns casos, um ser onírico que não aparece mas flutua num olhar pode ser muito mais eficiente, desde que o que esteja sendo dito possa realmente nos tocar.

De Power Rangers a Shadowhunters, o mercado das séries adolescentes fantásticas cresceu muito no decorrer dos anos e após o advento de Harry Potter nos cinemas, se consolidou. Até mesmo no Brasil tivemos a nossa pioneira Caça Talentos, em que os poderes de uma fada vivida por Angélica eram visualmente restritos, mesmo com sua história sendo calculadamente elaborada. Fadas, magos, bruxos, vampiros, precisando se esconder dentro do “mundo real” não são novidade para ninguém. Com tantos exemplos positivos era de se esperar que uma produção reunindo os dois apelos fosse ser imbatível. Sempre Bruxa, série colombiana adaptada do livro de Isidora Chacón, chegou com essa missão... e falhou.

Ana Maria Parra ficou incumbida de levar a cabo essa adaptação, que reúne uma quantidade imensa de pontos de apelo comercial, tantos que a série entra em colapso. Na história, Carmen (Angely Gavíria) é uma bruxa em meados do século XVII e está vivendo um amor proibido com um filho da nobreza. Ela é negra, o que também piora a situação. Assim, a série já abraça uma boa quantidade de clichês do gênero. O amor é impossível porque ela é pobre, porque ela é negra e porque ela é bruxa. Tudo isso aí já daria uma série de muitas temporadas. Mas a produção vai mais longe e faz com que Carmen, tentando se salvar da fogueira, invoque um feitiço que a leva para o ano de 2019. Ela tem a missão de ajudar o velho bruxo que a ensinou o feitiço e, com isso, conseguir voltar até o momento antes de sua execução. Temos, então, uma série sobre um amor impossível, bruxas, jovens eviagem no tempo. Sempre Bruxa quer atacar em todas as frentes e só consegue soar cansada e abatida.

Sempre Bruxa, infelizmente

O título da série é autoexplicativo. Quand tem a chance de conhecer o futuro, Carmen percebe que não consegue usar suas magias. O impulso natural de usar os poderes para resolver problemas entra na frente e daí a coisa toda passa a ser tensionada. Correndo por fora há também os crimes do assassino do fogo, que tem uma relação direta com o que a protagonista foi resolver. Ou seja, temos agora, também, uma série de mistério. Por dois ou três episódios o ritmo é controlado, mas logo essa maçaroca de referências começa a se chocar e com tanto para explorar, os roteiros começam a revelar uma incompetência generalizada em abordar qualquer um dos tópicos.

Os problemas são muitos e já começam em detalhes simples. A série não se preocupa em contextualizar nenhum dos seus movimentos e muitas vezes personagens e feitiços são dispostos sem explicação, sem uma devida marcação dramática, como se a pressa em avançar a história não pudesse dar aos eventos a atenção merecida. Carmen conhece pessoas, se hospeda numa pensão e até entra numa universidade sem que haja o mínimo de preocupação em ser verossímil. De repente, ela está lá, na sala de aula. Os estranhos passam a ser melhores amigos em um minuto. O roteiro é tão preguiçoso que se eles precisam que Carmen viva o choque cultural da época através de um celular, alguém dá um pra ela, como se fossemos dando celulares para estranhos só porque eles usam camisetas legais (embora também não haja nenhuma explicação para o guarda-roupa da protagonista ser tão descolado, ele, de fato, sempre mostra Carmen com uma frase ou palavra diferente em cada uma das blusinhas de seu figurino).

A trama não anda ordenadamente, tampouco. Da metade da temporada para o final, os roteiros apelam para tudo que podem. Temos o episódio em que Carmen tem sua personalidade afetada, o que Carmen faz um feitiço de metamorfose e vira outra pessoa do elenco, o que Carmen salva alguém da morte, o que Carmen se adapta ao novo mundo... Enfim, tudo está lá, mas de um jeito bagunçado, indo do presente para o passado, usando o mínimo de efeitos especiais e ao usá-los, soando estranhamente infantil. Com uma enormidade de saídas fáceis, as linhas temporais são atravessadas sem consequências e o pouco carisma de Gavíria não ajuda no processo. O elenco jovem é tão preguiçoso quanto o roteiro e fica até difícil culpa-los, já que o texto é absurdamente superficial.

Como arroz-com-feijão pode ser que a série funcione, mas o final quase totalmente fechado poderia já ser o final definitivo. Sempre Bruxa poderia ser uma boa série de época, uma boa série sobre um amor impossível, uma boa série de mistérios, uma boa série de viagem no tempo, uma boa série sobre bruxas... Mas, só poderia ser boa se fosse sobre uma ou duas dessas coisas. Do jeito que está, com essa histeria de personalidades, ela só consegue ser tola e inexpressiva.

Nota do Crítico
Regular