Cena de Segurança em Jogo/ Reprodução/ Netflix

Créditos da imagem: Cena de Segurança em Jogo/ Reprodução/ Netflix

Séries e TV

Crítica

Segurança em Jogo - 1ª Temporada

Aclamada série britânica equilibra muito bem clichês e reviravoltas

Henrique Haddefinir
03.11.2018
12h18

A primeira coisa a se considerar sobre Segurança em Jogo é que a série é um grande híbrido que reúne referências de vários títulos do gênero. A segunda coisa é que essa é uma descrição que se aplica a quase tudo que está na TV. Poucos entendem que a questão não é encontrar o novo graal da dramaturgia e sim saber usar corretamente todos os códigos que cada gênero dispõe. Se isso for feito com sensibilidade e esperteza, dificilmente o público não perdoará as recorrências. Simples cópias e reproduções rasteiras serão punidas com o desprestígio ou com a indiferença. Muitas vezes uma obra pode ser aclamada por ser extremamente parecida com outra, apenas porque essas semelhanças foram trabalhadas com inteligência. Segurança em Jogo é um desses casos.

Nada na série é realmente novo, não no que diz respeito à estrutura. Ciente disso, o criador Jed Mercurio tentou imprimir sua marca no ritmo e equilibrou a previsibilidade da forma com boas doses de surpresa. Isso provoca no espectador uma suspensão interessante. Ainda que a dramaturgia seja montada com clichês, eles se distribuem pelos episódios de forma vulnerável, como se a próxima reviravolta fosse nos tirar da nossa zona de conforto. É evidente que até mesmo a busca por surpresas já se tornou clássica em séries de ação, já se tornaram parte do esquema. Por isso, Segurança em Jogo vai um pouco mais além no intuito de não deixar a audiência dormir.

Seu protagonista é quase um Jack Bauer britânico. Vivido por Richard Madden (que costumava ser um Stark em Game of Thrones), o oficial David Budd marca todos os itens na lista de protagonistas masculinos em thrilers do século. Lutou na guerra do Afeganistão, voltou sofrendo as consequências físicas e psicológicas disso, arrumou um emprego junto a órgãos governamentais e luta contra células terroristas. Sua função agora é proteger a Ministra Julia Montague (Keeley Hawes) de possíveis ataques que ela sofreria por estar defendendo políticas rígidas de anti-terrorismo. Os posicionamentos dela não são os mesmos dos de seu guarda-costas, o que gera um conflito e uma atração imediata entre eles.

I Will Sometimes Love You

Qualquer pessoa que tenha assistido o filme The Bodyguard, nos anos 1990, estrelado por Kevin Costner e Whitney Houston, vai pensar nele imediatamente ao ouvir a expressão “guarda-costas”. De fato, nem é do longa a responsabilidade única por perpetuar a ideia de protetores se apaixonando por seus protegidos. A série da BBC não foge dessa pressão e cede ao romance entre David e Julia. O ganho desse movimento tão óbvio é a construção de uma narrativa segura, que o público já sabe para onde vai, apenas para logo ali adiante puxar o tapete de todos com decisões drásticas e extremamente ousadas.

Os roteiros tem um texto seguro, calculado; e a direção sabe construir suas tensões. A sequência que abre o primeiro episódio, por exemplo, é uma das mais competentes que o gênero já produziu, tanto na TV quanto no cinema. É uma sequência longa, intensa e que reverbera em todo o curso da temporada. Os planos valorizam as cores frias da fotografia londrina e usam isso para reforçar a atuação contida de praticamente todos os personagens. Todos têm algo a esconder, todos não podem ser honestos sobre o que sentem e há uma unidade impressionante na forma como o trabalho dos atores é executado. Como é típico do estereotipo britânico, poucos rompantes, poucas emoções, tudo controlado e diluído pelas responsabilidades. Madden brilha na liderança dessa função.

Contudo, os longos seis episódios da primeira temporada não conseguem escapar de certa morosidade. Depois de uma grande reviravolta na metade do curso, há um longo período investigativo que mesmo completamente coerente com os acontecimentos, ganha tempo de tela demais. É uma preparação exagerada para um season finale que consegue redimir os adiamentos. De fato, há poucos exemplos de finales que sejam tão intensos, tão cheios de revelações como o de Segurança em Jogo. É notório que esse final tome seus partidos a respeito das questões políticas que envolvem o terrorismo, mas ao mesmo tempo, esses partidos não podem ser completamente refutados. A série alcançou um sucesso que o povo britânico não via na TV desde 2008; e isso pode se dever, em grande parte, ao quanto de reflexos positivos a audiência enxerga no resultado final. Tal qual se fazia em 24 horas, o governo ganha sua parcela de culpa, salvando a produção do maniqueísmo principal.

Entretenimento de ótima qualidade, Segurança em Jogo está disponível na Netflix e com o sucesso mundial, a possibilidade de uma segunda temporada pode se tornar efetiva. Se isso acontecer, a vida de David Budd terá um grande desafio: manter suas referências clássicas e continuar provocando inacreditáveis surpresas.

A primeira coisa a se considerar sobre Bodyguard é que ela é um grande híbrido que reúne referências de vários títulos do gênero. A segunda coisa é que essa é uma descrição que se aplica a quase tudo que está na TV. Poucos entendem que a questão não é encontrar o novo graal da dramaturgia e sim saber usar corretamente todos os códigos que cada gênero dispõe. Se isso for feito com sensibilidade e esperteza, dificilmente o público não perdoará as recorrências. Simples cópias e reproduções rasteiras serão punidas com o desprestígio ou com a indiferença. Muitas vezes uma obra pode ser aclamada por ser extremamente parecida com outra, apenas porque essas semelhanças foram trabalhadas com inteligência. Bodyguard é um desses casos.
 
Nada na série é realmente novo, não no que diz  respeito à estrutura. Ciente disso, o criador Jed Mercurio tentou imprimir sua marca no ritmo e equilibrou a previsibilidade da forma com boas doses de surpresa. Isso provoca no espectador uma suspensão interessante. Ainda que a dramaturgia seja montada com clichês, eles se distribuem pelos episódios de forma vulnerável, como se a próxima reviravolta fosse nos tirar da nossa zona de conforto. É evidente que até mesmo a busca por surpresas já se tornou clássica em séries de ação, já se tornaram parte do esquema. Por isso, Bodyguard vai um pouco mais além no intuito de não deixar a audiência dormir.
 
Seu protagonista é quase um Jack Bauer britânico. Vivido por Richard Madden (que costumava ser um Stark em Game of Thrones), o oficial David Budd marca todos os itens na lista de protagonistas masculinos em thrilers do século.  Lutou na guerra do Afeganistão, voltou sofrendo as consequências físicas e psicológicas disso, arrumou um emprego junto a órgãos governamentais e luta contra células terroristas. Sua função agora é proteger a Ministra Julia Montague (Keeley Hawes) de possíveis ataques que ela sofreria por estar defendendo políticas rígidas de anti-terrorismo. Os posicionamentos dela não são os mesmos das de seu guarda-costas, o que gera um conflito e uma atração imediata entre eles.
 
I Will Sometimes Love You
 
Qualquer pessoa que tenha assistido o filme The Bodyguard, nos anos 90, estrelado por Kevin Costner e Whitney Houston, vai pensar nele imediatamente ao ouvir a expressão “guarda-costas”. De fato, nem é do longa a responsabilidade única por perpetuar a ideia de protetores se apaixonando por seus protegidos. A série da BBC não foge dessa pressão e cede ao romance entre David e Julia. O ganho desse movimento tão óbvio é a construção de uma narrativa segura, que o público já sabe para onde vai, apenas para logo ali adiante puxar o tapete de todos com decisões drásticas e extremamente ousadas.
 
Os roteiros tem um texto seguro, calculado; e a direção sabe construir suas tensões. A sequência que abre o primeiro episódio, por exemplo, é uma das mais competentes que o gênero já produziu, tanto na TV quanto no cinema. É uma sequência longa, intensa e que reverbera em todo o curso da temporada. Os planos valorizam as cores frias da fotografia londrina e usam isso para reforçar a atuação contida de praticamente todos os personagens. Todos têm algo a esconder, todos não podem ser honestos sobre o que sentem e há uma unidade impressionante na forma como o trabalho dos atores é executado. Como é típico do estereotipo britânico, poucos rompantes, poucas emoções, tudo controlado e diluído pelas responsabilidades. Madden brilha na liderança dessa função.
 
Contudo, os longos seis episódios da primeira temporada não conseguem escapar de certa morosidade. Depois de uma grande reviravolta na metade do curso, há um longo período investigativo que mesmo completamente coerente com os acontecimentos, ganha tempo de tela demais. É uma preparação exagerada para um season finale que consegue redimir os adiamentos. De fato, há poucos exemplos de finales que sejam tão intensos, tão cheios de revelações como o de Bodyguard. É notório que esse final tome seus partidos a respeito das questões políticas que envolvem o terrorismo, mas ao mesmo tempo, esses partidos não podem ser completamente refutados. A série alcançou um sucesso que o povo britânico não via na TV desde 2008; e isso pode se dever, em grande parte, ao quanto de reflexos positivos a audiência enxerga no resultado final. Tal qual se fazia em 24 horas, o governo ganha sua parcela de culpa, salvando a produção do maniqueísmo principal.
 
Entretenimento de ótima qualidade, Bodyguard está disponível no Netflix e com o sucesso mundial, a possibilidade de uma segunda temporada pode se tornar efetiva. Se isso acontecer, a vida de David Budd terá um grande desafio: manter suas referências clássicas e continuar provocando inacreditáveis surpresas. 

Nota do Crítico
Ótimo